Não há nada para ser escrito. O vazio impinge aos dedos palavras que batem e
rebatem voltando cada uma ao seu canto esquecidas. Os podres dedos,
mecanicamente pressionam as teclas pretas por força do hábito. Uma a uma surgem
nessa tela branca como branca é a vontade. Quem sabe pulando a janela do décimo
andar seja a solução.
Os veículos, na velocidade
caótica da metrópole, convidam ao salto vertiginoso e direto se esborrachando
no asfalto soterrado de angústias divinas. Reza beatas escrotas o perdão dos
filhos infiéis alcoólicos pelo beijo no asfalto. Sangra lábios virginais
empapando de vermelho o branco do meio dia refletido no sol a agonia da
humanidade.
E o menino faminto, escorre
saliva do doce em seu peito sem camisa. A mãe disse para não voltar de mãos vazias,
pois vazia é a branca vontade de viver, e eles, vivem como podem no branco dos
cartazes poluindo a visão. O menino obediente se esforça nos faróis onde os
opulentos diagnosticam um ladrão a mais a lhes roubar.
De repente ouve-se um silvo
queimando a pele morena do menino. Ele tomba e um filete de sangue mancha o
preto do asfalto.
E no jornal, em letras garrafa,
os transeuntes lêem:
“Mais um menino morto por uma bala perdida.”
E perdidos corremos o risco de sem querer, ao virar a esquina, ou passar por
uma praça, ou mesmo dentro de casa, encontrarmos com uma bala perdida.
No que diz o egoísta:
- Não sendo eu, tudo bem.
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