Parado com o corpo encostado na
porta ao lado dele, que avidamente lia o livro: Caio em 3D, se surpreendeu com
a pergunta feita de supetão, assim sem mais e nem menos, demonstrando uma
intimidade de longa data, coisa que não tinham. Estava vendo pela primeira vez
o sujeito, portanto ficou com um pé atrás ao ouvir a pergunta dele:
- Você é gay?
- O quê?!
- É. Você é gay?
- Não... E o que o leva a pensar
que sou gay?
- Diga-me o que lê que eu direi
quem tu és.
- Espera aí, minha avó já dizia
isso há cinqüenta anos: Diga-me com andas que eu direi quem tu és.
- As máximas também progridem se
transformam como a gente...
- Ta, conta outra...
- Mas...
- Mas o que?
- Não me respondeu.
- Ah! Entendi. Só porque estou
lendo Caio Fernando Abreu não quer dizer que seja gay.
- Diga-me o que lê...
- Ta pelo menos ele se assumiu e
não é como alguns caras enrustidos que não saem do armário e ficam abordando os
outros com babaquice. Idiota isso que você é.
- Não sou não...
- Vai me dizer que nunca leu um
escritor gay?
- Não.
- Preconceituoso. Preconceito dá
cadeia, sabia?
- Mas vamos e venhamos, o que um
gay tem para dizer.
-Tem uma imensa carga de arte e
sensibilidade que muitos que se dizem escritor não passam de meros
falsificadores.
- Não sei não.
- Ora, vá engolir sapo na ponte
que partiu...
- Não precisa ser grosso, mal
educado.
Aliviado viu chegar à estação do
seu destino. Sem se preocupar desceu, o sujeito desceu atrás dele.
- E então! Não vai me responder?
Fuzilando o cara, deu meia volta
bem no momento que o sinal sonoro anunciava o fechamento das portas, entrou
novamente no trem.
O sujeito berrou bem alto da
plataforma:
- Você é gay ou não?
Deu tempo de fazer o gesto
obsceno colocando o dedo médio em riste enquanto a porta do trem fechava.
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