segunda-feira, 1 de julho de 2024

uma pequena descrição para um pequeno personagem

 

os raios de sol pairava no ambiente da lanchonete e entre nossos corpos estavam os copos e os olhos dele meios que saltados agiam em movimentos um tanto quanto rápidos sem se fixar num ponto, talvez por causa da luz da tarde que invadia a lanchonete, ou talvez porque olhava distraído enquanto lentamente bebia a coca-cola em goles pequenos saboreando cada partícula da bebida como se fosse a última, ele sendo franzino e no entanto podia notar o corpo saudável por baixo da calça jeans larga e da camisa verde escura também larga, o que aguçava a curiosidade em saber como seria as formas que preenchia aquela roupa, a imaginação de quem olhasse para ele voava em sua direção contemplando as partes amostra, as partes em que a roupa não cobria sua pele amorenada, principalmente o rosto pequeno, quase redondo mas não cheio acomodando uma leve penugem de barba que teimava em crescer, os lábios finos por baixo de um nariz delicado completavam a seqüência de formas dando o atributo, não de beleza, mas de algo que atrai quem para ele olhasse, porém, de repente, sem que ninguém notasse, ele criou uma seqüência de movimentos tendo primeiramente se levantado, depois caminhando até a caixa, pagou a conta e saiu sem que nada o perturbasse, sem se preocupar com o que se passava a sua volta...

 

ele continuou quieto ouvindo o rádio num volume alto, as vozes na outra ponta do balcão, sentiu o silêncio que o outro deixara, parecia que uma eternidade se instalara ao ver o banquinho desocupado, sentiu o vazio, esse companheiro que o seguia para todo e qualquer lugar, e, para quebrar esse silêncio ou preencher esse vazio, quem sabe, pensou em seguir o rapaz de olhos amendoados e meio saltados, pensou mas, desistiu, desistiu porque desejou que acontecesse umas daquelas cenas cinematográficas e, o rapaz voltasse mudando assim um pouco sua vida, quebrasse o vazio de silêncio que enchia sua alma ou mesmo voltasse por voltar simplesmente, quem sabe o que poderia acontecer nos pequenos segundos que antecedia nossas vidas, ou talvez, indo um pouco mais além na imaginação, ficasse intrigado com ele que o observava e viesse pedir explicações, perguntasse o porque dele estar olhando-o, o que pensaria, mas tudo não é cinematograficamente falando, o rapaz não voltou, portanto só tinha que se contentar com sua imaginação, e tomando um longo gole de cerveja, perguntou: que trajeto será que ele faria, já que cruzou a rua, passaria pela galeria e entraria na estação para pegar o metrô, esse era o caminho que ele faria, no entanto não era o rapaz e nem sabia se ele tomaria uma condução, talvez nem fosse para casa, pensa que todo mundo é como ele, não era não, sendo um rapaz provavelmente encontraria com um amigo ou com a namorada e curtiriam a noite num barzinho, apesar de ser segunda-feira, tudo se tornava especulações que  criava mentalmente os passos do rapaz, e qual seria o nome dele, precisava colocar um nome, pois como identificá-lo se não tinha nome, pensou um pouco e escreveu:  ELE


então Ele nesse momento estaria atravessando a catraca e, com seu passo meio que marchando dentro de uma cadencia sofrida, pois o tempo no quartel fez com que adquirisse a andar de marcha, o que fazia gastar o calcanhar dos sapatos, tendo já os quatros pares, dois marrons e dois pretos, precisando de consertos, mas essa preocupação não era tão importante que o fizesse se desviar do seu intento, seguir os comandos do destino que o obrigava a introduzir o bilhete na fenda liberando a catraca para passar, desceu a escada rolante de dois em dois os degraus, chegando ofegante na plataforma que, naquela hora estava quase vazia, procurou endireitar o corpo, ficar numa posição o mais ereto possível para que não fosse perturbado pelas dores nas costas, e, matutava no porque dos procedimentos das pessoas em agirem de uma forma distraidamente inconseqüente, não que as desaprovasse, procurar entender a audácia leviana, o comportamento descabido, como aquele senhor, enquanto tomava cerveja, lia e comia amendoim, dirigia seu olhar de peixe morto para ele, as vezes se sentia lisonjeado, o que não queria dizer que precisava retribuir o olhar, mesmo sabendo que o outro pudesse desejar a retribuição, já fora de várias maneiras e por todo e qualquer tipo de pessoa cantado, e não é um mero olhar que o faria mudar, constrangido não ficará, aliás nada mais o constrangia, sabia-se desejado, não corria o risco de que fosse entabular uma conversa com ele, sua certeza era que aquele senhor só estava tomando sua cerveja e nada mais...


Ele fechou a agenda e ao fechá-la percebeu a cor da capa, a mesma cor da capa do livro, a mesma cor do caderno em que Sid vem escrevendo seu conto, azul, os três objetos com a mesma cor, coincidência, não saberia dizer, tanto é que a agenda ele usava apenas para rascunhar palavras que poderiam ser usadas para um poema ou apenas um pensamento, portanto nem sempre andava com agenda do ano, aquela deveria ser de quatro anos atrás, o livro Noite do Oráculo adquirira a semana passada, e ao se inteirar da história é que ficou sabendo da capa do caderno do Sid, só tinha que ser mesmo coincidência, toda vez que escrevia Ele notava a agilidade da caneta correndo solta e leve sobre o papel áspero da agenda, causava uma sensação de prisioneiro, de estar sendo preso pelas palavras e pela trama bem desenvolvida que Paul empregava para contar uma história, e por sua vez, cada palavra escrita na agenda sentia-se amarrado por uma corda obrigando-o desesperadamente a escrever cada vez mais, alinhavar as idéias umas nas outras e jogar palavra por palavra nas linhas rude da agenda de capa azul, Sid sendo escritor de longa dada, tendo livros já publicados até em Portugal, depois de muitos exercícios conseguira uma ligeireza na escrita incrível, tarimbado criava com a maior facilidade um personagem: Nick que por uma infelicidade da caneta de Sid ou do próprio Sid deixara-o preso num quarto a prova de algum cataclimas provocado pelo homem sem chance de sair dali, Ele sem saber porque ou do porque dessa premência em escrever, tentava a sua maneira criar um personagem também, mas por em quanto não sabia o que fazer com seu personagem, como desenvolver a trama que formigava em sua mente, precisava colocar movimentos, não podia deixar o coitado parado na plataforma a espera do metrô que demorava a chegar, Ele não sabia o que fazer com ele, outra coisa, será que o que ele está fazendo não seria um plágio, não, acha que não é plágio, apenas está usando a maneira como Paul Auster escreveu Noite do Oráculo, criando uma história dentro da história, no caso dele: Ele e o seu personagem, o que pode parecer plágio é que Ele se identificou com autor, tem os dois a mesma idade, viveram a mesma época, os mesmo conflitos das décadas de 60 e 70 e, por que não 80, passaram pelos mesmos conflitos de gerações políticas sociais e mundiais, e agora se encontravam, isto é, Ele encontrava Paul, sabe da sua existência enquanto que Paul continuará não sabendo quem é Ele, só o identificará como leitor, se é que Paul um dia terá acesso ao que Ele escreve, e provavelmente Paul nunca virá saber dele...

 

mas será que ao começar a ler outro autor não será Ele influenciado também, pensou ao abrir a agenda de capa azul, por exemplo H. P. Lovecraft, autor que conhecia de a muito tempo, e que tem uma escrita quase barroca, acreditava que não, pois gostava apenas de Lovecraft, não se identificava com ele, é um estilo bem diferente de Paul Auster, e coincidência, Paul nasceu dez anos após a morte de Lovecraft, a escrita do autor de Noite do Oráculo apesar de certos pontos mostrar uma intricada trama de dificuldades de compreensão, a sua escrita corre solta, quase livre, Lovecraft é mais rebuscada, descritiva, sombria, fazendo com que o leitor senta a opressão de mistério da história, gostava de Lovecraft, veio a conhecê-lo através do livro O Despertar dos Deuses, porém o seu preferido era ainda no momento Paul Auster que com suas tramas e viravoltas nova-iorquinas o prendia mais que Lovecraft, não deixava também de ter uma trama sombria, meio pesada, mas isso era ocasionado pelos personagens e não pela descrição da história, se sentia a opressão de cada personagem, já em Lovecraft a opressão vinha da história, conseguiria desenvolver a história que sua mente criou, dar consistência aos personagens, não sabia, só dando continuidade ao que vinha escrevendo, mas onde deixará ele o seu personagem, não conseguia lembrar, precisou voltar umas páginas da agenda de capa azul para lembrar onde estava o coitado, ah! lá estava ele parado na plataforma do metrô...

 

Ele olhou o sentimento oprimir o peito, se jogou em cima da cama, tirou a camisa esquadrinhando o teto sem se preocupar,  os olhos saltaram de um ponto ao outro contornando as manchas escuras formadas no teto durante todos esses anos, o que faz uma pessoa agir, por que uma pessoa tem de agir sob uma determinada situação, costurava os pensamentos como alucinado faz um gesto atrás do outro sem atinar com o que esta fazendo, costurava, colocava numa ordem de refinamento orgânico pautado pelas manchas do teto, costurava, mas sua costura era fraca, demorava pouco tempo umas as outras, usava linha de quarta qualidade e não se dava conta da fragilidade da costura, por isso todas as vezes que ali deitado, de barriga para cima, sem camisa, desprotegido do pensamento preparava a costura para o seu desconforto, para sua desilusão, sua angústia diante da imensa capacidade que o mundo tinha sobre ele, o problema maior é que não se apercebia disso, que precisava apenas agir, continuar agindo, sairia dessa situação angustiante, tinha noção do que fizera, sempre tivera noção do que fazia, nunca negou isso, aliás, costuma dizer: “não me arrependo de nada, apenas me arrependo do que não fiz”, no entanto uma fagulha pequena do raio que agitou o temporal se insinuou por entre essa máxima que costumava sempre alardear, que sempre que podia a empregava, essa fagulha mexeu com seu íntimo pondo as convicções em dúvidas, em constante questionamento, retumbando na mesma pergunta: por que, por que fizera isso, por que motivo. o que o levou a agir como agira, pequenas alfinetadas longuíssimas perfurando a capa protetora da mente o qual ele pensava ser resistente, mas nesse momento constatou que não era, pois deixava que nela penetrassem corriqueiros pensamentos nada usufruindo, virou o corpo dando aos olhos a oportunidade de focar a parede a sua esquerda, nada havia apenas outras manchas que a tinta por longos anos fora acumulando crostas de sujeira, parecia que a dona não tinha cuidados, isto é, sua mãe, o que dava a ela o direito de limpar ou não a parede do quarto, sozinha tomava conta da casa e mais ninguém, além de cuidar das suas roupas e cozinhar para ele, o que as vezes vinha atazanar seu consciente de preguiçoso, de acomodado, aproveitador nada fazendo para que a mãe tivesse um pouco mais de paz, até propusera à ela contratar uma empregada para a faxina mais pesada, o que fora rechaçado, não precisa, disse ela, eu cuido bem da casa e não gosto que estranhos mete a mão no que é meu, diante disso ele não mais falou em arrumar uma empregada, 


a caneta esferográfica corria leve sobre o papel dando a Ele a oportunidade em dizer tudo o  que lhe vinha à mente, a ponta da caneta sulcava a textura do papel numa ranhura invisível, silenciosa que o fazia sentir-se satisfeito e até agradecido por gostarem do que  escrevia, dos poemas que postava nas listas, e principalmente da prosa, já lhe falaram que era bem melhor na prosa do que na poesia, tinha suas dúvidas, não se sentia assim forte para se denominar uma fera, na palavra falada sabia de antemão que não era mesmo, titubeava cada vez que tinha de demonstrar tais qualidades, gaguejava, ficava vermelho, na escrita a coisa era diferente, era Ele e o papel branco mais tarde a telinha do computador, nada mais, há tempos Ele vinha querendo desenvolver uma história, uma história de personagens, uma história de inicio, começo e fim, devido a pouca experiência, que agora percebia isso, nunca conseguiria colocar no branco do papel algo que tivesse consistência, que tivesse agilidade própria como muitos livros que lera onde nas primeiras linhas o personagem já saltava aos olhos adquirindo uma consistência como se tivesse vida, nunca conseguiria, via nisso a fraqueza da sua escrita, sempre tinha algo sob os olhos, um livro, um jornal, uma revista, tinha conhecimentos vários, leia muito, só agora conseguia o intento de criar um pequeno personagem, mesmo assim via nesse personagem a fraqueza da influência dos dois livros que lera, isto é, um que já lera: Noite do Oráculo e o que estava lendo: Lavoura Arcaica, tudo bem, que tivesse uma certa influência, mas o maior medo dele era ser confundido, adquirir a pecha de plagiador, portanto era preciso muita labuta, muito escrever e reescrever para tirar esse ranço de plágio que envolvia seu texto, vinha adquirindo firmeza, nos gestos, no pensamento, era lento sem dúvida, pois essa firmeza ele já deveria ter adquirindo há muito tempo, deveria tê-la desde os tempos dos bancos escolares e não agora, mas como dizem: antes tarde do que nunca... 


já não sentia a ausência paterna tão intensa como no princípio, involuntariamente o pai partira ao tombar o carro na marginal estraçalhando tanto a vida do pai como a vida dele, a vida do pai não fora possível salvar depois de um prolongado tempo no hospital, a vida dele conseguira sobreviver à perda, mesmo com muito custo aceitou aquele vazio roendo as entranhas, apesar da pouca idade, o pai fazia falta, o que pelo menos a mãe tentou anular essa falta redobrando-o com carinho e dedicando-lhe todos os gostos que estava ao seu alcance, meio aos trancos e barrancos, uma ora sentindo-se só ou outra sozinho em seus passos, Ele conseguiu chegar a idade adulta sem as angústias e dúvidas e os grilos dos que sofrem a perda de um ente querido, sofrera sim, e muito, o que compensou ou o que equilibrou mantendo-o numa balança estável foi a sua fome por leitura, sua ânsia por leitura, coisa que seu pai o incentivara, coisa que o livrou de cair numa depressão irreversível, devido a isso como já vinha desde os doze anos trabalhando passou a trabalhar com mais empenho sendo obrigado a estudar à noite, dessa maneira podia ajudar a mãe no sustento financeiramente da casa, também foram obrigados a mudarem de casa, por uma menor e de aluguel razoável que não sofressem muito no bolso, suas brejeirice de criança pós adolescente fora anulada, foi um pulo de criança para adulto aos quinze anos de idade, transferido de uma escola particular para um municipal encontrou uma pequena dificuldade em se adaptar, mas a adaptação fora em parte compensada com a amizade de um rapaz dois anos mais velhos que ele, estudioso, o amigo  também vinha de uma família desfeita, e encontrou nele o apoio que lhe faltava, sem saber, inconscientemente os dois se compensaram da falta, - Ele do pai que falecera, e o amigo da mãe que abandonara marido e filho

 

tendo o silêncio engendrado na consistência maligna da esferográfica, Ele extático olhando fixo num ponto qualquer da parede redescobriu a dificuldade em continuar com a narrativa, precisamente não era uma dificuldade tão medonha, talvez fosse uma dificuldade menos que medonha mas paralisava a mão bloqueando a mente em criar cenas convincentes trazendo força concreta ao personagem que, tornava-se uma marionete sem saber o que fazer, como agir, tinha noção de que fosse ele próprio a criar as ações levando-o onde bem quisesse, devagar acumulando blocos sobre blocos de argamassa histórica, Ele construía um mundo irreal, construía porque também sabia ser uma marionete do destino, mas que não podia deixar soubessem disso, isto porque, poderia tomar de assalto numa coragem voraz e arrebentaria os cordões e passaria a agir por conta própria, o que seria um desastre para Ele que escrevia a história que agia sobre as ordens de um destino, se Ele tomasse as rédeas das palavras, Ele sabia que o enredo do conto tomaria rumos diferentes, transverteria por outros caminhos, outras esquinas, outras ruas, porém como não podia tomar as rédeas das mãos do seu criador o que tinha que fazer era apenas esperar pelo comando da esferográfica que deslizava no pensamento colhido no momento em que a tarde descambava para a noite, sons proliferavam ao redor como moscas varejeiras, o sol batia seu reflexo na vitrine de doce acumulando sabores que se dispersavam em bocas famintas, nas paz alcoólica Ele corria levemente o contorno pela descrição para um pequeno personagem, tinha somente esses momentos na lanchonete, espremido no balcão, entre vozes partidas, empurrões sonolentos de cerveja para continuar traçando seu pequeno personagem, em casa se enroscava nos afazeres que exigiam sua presença, Ele recolheu a inspiração na tinta da esferográfica e fechou a agenda...

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