sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Os caprichos de Nana

  

Nana tinha no rosto o cansaço das atribulações em que, jogada sem aviso prévio, obrigava-a redobrar a atenção nas coisas, nas pessoas e, principalmente, no que  intelectualmente vinha fazendo. Seu processo de criação consistia captar todas as emoções que fossem possíveis, com uma calma sincera e silenciosa sem alarde, para depois, registrar em prosa ou em poesia. Não aceitava a idéia de certos poetas que tratavam a arte como linha de montagem. Concebiam seus poemas um atrás do outro numa espontaneidade que chegava a esgotar sua capacidade que, sabia, ser pequena. É inconcebível tal prática, pensava para sim mesma, sem declarar abertamente com medo de magoar pessoas que aprendera a gostar. Participava como experiência, não entrava na onda de se ter um pouco de fama pela produção. Fazia já três meses que estava no grupo, aliás, um grupo onde se podia conversar com pessoas inteligentes, prestativas, atenciosas o qual ela era grata, pois tratavam-na com atenção respondendo todas as dúvidas que surgiam.

O processo criativo do grupo consistia, sob um tema apresentado, criar um poema quase que um atrás do outro prejudicando assim, a qualidade. Tímida e envergonhada se descontrolava fazendo surgir uma barreira entre ela e a criação. Por mais que a elogiassem, não acreditava muito no seu potencial criativo. Via-se pequena num lento processo de crescimento. Para Nana precisava de uma espécie de torpor melancólico, quase depressivo para surgir uma criação poética de qualidade. Um processo que vinha de dentro para fora e, não de fora para dentro. Nisso, uma pontada minúscula de saudade, assim pensou que fosse, pulsou dentro do peito. Lembrou de como e porque começara a escrever.

Na época namorava o Marciel. Planejavam marcar o noivado. Mas um dia Marciel chegou dizendo que não a amava mais. Reviu seu choro convulsivo e descontrolado. Não brigaram. Não discutiram. Ela não quis saber o porque do rompimento. A partir desse dia, o mundo tinha acabado. Abraçou o desanimo e se entregou a um automatismo gritante. Parou de comer, não queria sair mais. Foi então que uma de suas amigas comentou:

- Quando temos algo que nos incomoda, devemos  falar dele quase que intensivamente, como uma ferida, não mexemos nela colocando remédio? Então, é a mesma coisa. Falemos da dor que nos incomoda para que seja ela curada.

Nana pensou:

- Não sou de falar, talvez escrevendo...  quem sabe!

E foi o que fez. Começou a escrever, não propriamente poesia, mas prosa diária. Os primeiros textos saíram péssimos, reconhecia. No entanto, foi se esforçando, lendo, procurando exemplos, conversando aqui e ali, até que se aprimorou na prosa. Não estava ainda cem por cento, e nunca estaria, não possuía o dom que muitos têm, reconhecia. Entrou numa lista de discussão pela Internet e daí conheceu o grupo o qual vinha participando. Mudara completamente, já não era mais a apaixonada chorosa deixada pelo namorado. Aliás, nem lembrava mais do Marciel.

Consultou o relógio. Precisava correr senão perderia o último ônibus. Os encontros estavam terminando muito tarde. Por outro lado não conseguia e também não queria sair mais cedo. O problema era depender de condução, do metrô. Droga! Porque não comprava um carro?

Entrou no trem procurando um lugar agradável para que pudesse continuar lendo o livro. Porém, levada pelo empurra-empurra, sem que percebesse, levou-a a ficar no corredor, bem no meio do vagão. Tudo bem pensou, o jeito é me equilibrar. Nisso seu olhar divisou um rosto conhecido perdido no meio da multidão. Impossível! Não pode ser! Será? Sonhara tanto um dia encontrar assim por acaso com Marciel que, agora que acontecia custava a acreditar. Mas era ele, sim. Sentado perto da janela conversando animadamente com uma garota. Seria sua namorada? Não, não era. Logo a moça se levantou e despediu-se dele. Nesse momento Marciel ergueu os olhos e olhou em sua direção. Não a reconheceu. Nana num nervosismo excitado se sentou ao lado dele. Só então ele a reconheceu. Ficou uns minutos olhando-a meio que espantado.

- Olá, como está? – perguntou Nana

- Oi, Nana. Puxa! Não tinha reconhecido você.

- Tudo bem?

- Tudo bem. O que faz aqui a essa hora? – olhou o relógio – Quase meia noite.

- Pois é, não te dizia que as coisas mudam.

- É verdade.

- Então, eu mudei, agora fico até mais tarde na noite. E você?

- Estou vindo do trabalho, sou agora divulgador de produtos.

- Tem recebido os meus textos? O livro onde publiquei o conto sobre nós?

- Sim recebi e obrigado, só não te liguei para agradecer por falta de tempo...

- Eu sei, não tem problema, só de saber que tem recebido está ótimo. Olhe vou descer na próxima...

- Eu sei, como sempre fica no meio do caminho, não segue comigo até o fim, né?

- Acontece que você... bom deixa pra lá. Toma, esses são os dói últimos livros que publiquei. Um dia qualquer apareço na tua casa para escrever a dedicatória, está bem?

- Está bem.

Percebeu uma indiferença nesse “está bem”. Despediram-se com um leve beijo.

Subindo a escada rolante Nana teve a certeza de que uma fase da sua vida estava indo embora naquele trem. Desaparecia na bruma da noite uma época que nunca mais teria uma outra igual. Sentia-se grata por tê-lo conhecido e, o mesmo espera que fosse da parte dele, mas se também não fosse não se importava. Era grata por terem seus destinos se cruzado.

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