Ouvia os mecanismos em seu
interior trabalhando para mantê-lo em pé, se não ouvisse pouco se
importaria com as dores, com o cansaço, com a angústia e outras coisas que
afligiam e comumente eram chamados de
problemas. Mas um problema, para ser realmente chamado de problema, só se o
mundo desabasse. Como o mundo não desabava, não havia problema
nenhum.
Desviou-se da mesinha onde estava
uma senhora elegantemente vestida. Sua tranqüilidade contrastava com o
movimento das pessoas que, nessa hora da manhã, estavam apenas preocupadas em
chegar a algum lugar.
Parou à espera do farol abrir
e imaginou se um dia conseguiria caminhar tudo o que lhe estava
predestinado, ou melhor, se conseguiria chegar até o fim. Havia uma enorme
pressão dele próprio que o fazia movimentar a onda de moléculas à sua
volta. Atravessou a rua num sonambulismo aterrador, com o olhar fixo num ponto
distante de sua mente. Na mansidão do sol banhando os prédios, arrancou o
crachá da bolsa, liberando a catraca para adentrar por oito horas na prisão de
sempre, suportável apenas por precisar sobreviver. O reflexo das luzes acesas
no ladrilho do corredor, numa simetria grotesca, feriu seus olhos, lembrando-o
de suas obrigações e responsabilidades.
Assim, livrou-se das idéias, ligou
o micro preto com seu teclado e mouse preto, conscientizando-se de
que estava amando cada vez mais a vida.
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