quinta-feira, 12 de setembro de 2024

O micro preto, o teclado preto e o mouse preto.

 

Ouvia os mecanismos em seu interior trabalhando para mantê-lo em pé, se não ouvisse pouco se importaria com as dores, com o cansaço, com a angústia e outras coisas que afligiam e  comumente eram chamados de problemas. Mas um problema, para ser realmente chamado de problema, só se o mundo desabasse. Como o mundo não desabava, não havia problema nenhum.

Desviou-se da mesinha onde estava uma senhora elegantemente vestida. Sua tranqüilidade contrastava com o movimento das pessoas que, nessa hora da manhã, estavam apenas preocupadas em chegar a algum lugar.

Parou à espera do farol abrir e imaginou se um dia conseguiria caminhar tudo o que lhe estava predestinado, ou melhor, se conseguiria chegar até o fim. Havia uma enorme pressão dele próprio que o fazia movimentar a onda de moléculas à sua volta. Atravessou a rua num sonambulismo aterrador, com o olhar fixo num ponto distante de sua mente. Na mansidão do sol banhando os prédios, arrancou o crachá da bolsa, liberando a catraca para adentrar por oito horas na prisão de sempre, suportável apenas por precisar sobreviver. O reflexo das luzes acesas no ladrilho do corredor, numa simetria grotesca, feriu seus olhos, lembrando-o de suas obrigações e responsabilidades.

Assim, livrou-se das idéias, ligou o micro preto com seu teclado e mouse preto, conscientizando-se de que estava amando cada vez mais a vida.

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