quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Ato 1

  

“Tenho que te contar algo”.

Me disse um dia que não lembro qual foi. Numa voz calma, firme, ela me disse:” Tenho que te contar algo”, e tudo continuou na mesma. Nada mudou. Não estranhei, quer dizer, não havia o que estranhar se o que estava acontecendo era porque eu precisava saber. Um sentimento bateu fundo me obrigando a criar um alerta. Esse “tenho que te contar algo” não era costume dela. Quando tinha que falar ela falava na cara de quem fosse, não media as palavras, portanto esse “tenho que te contar algo” soou estranho, fez com que eu ficasse com um pé atrás. O que seria? Sem me importar aparentemente, continuei fazendo o que estava fazendo. Talvez, estivesse tomando café, não sei. Minutos depois disse:

“Conheci uma pessoa”.

Continuei tomando café silenciosamente.

“Me apaixonei por ela”.

Sem proferir uma palavra continuei com o meu café, se era café que eu estava tomando, não sei.

“Portanto não tenho motivo para ficar aqui, vou embora”.

Minha mão tremeu ligeiramente. Continuei calado.

“Não vai dizer nada?”

“Não vou, disse para ela, para que se já foi tudo resolvido sem me consultar. Decidiu trocar-me por outro não tenho o direito de interferir, não é mesmo? Tchau e bença seja feliz”.

Decepcionada com a minha calma, saiu da cozinha batendo os pés no ladrilho. Acabei de tomar café, se era o que estava fazendo mesmo, pois não lembro. Por que isso? Conheceu um cara melhor que eu? Transa melhor? Tem um pau maior que... para!! Para de pensar bobeira, cara. Aconteceu, aconteceu ora bolas. Instantes depois ela aparece com uma pequena mala e um mochila nas costas.

“O que você achar o que for meu, me avisa que mando alguém buscar.”

Saiu batendo a porta, nem disse passe bem, seja feliz, saiu e pronto. “O que for meu...”. Seu uma merda, não tem nada aqui seu. Não tem direito nenhum, tudo o que tem aqui é meu. Assim ela saiu da minha vida para nunca mais voltar.

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