quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Ato 2

  

Ela foi embora, disse ao vê-la pela janela entrar no Uber preto. Repetiu: Ela foi embora, como se fosse um mantra com a finalidade em não se deixar desconfortável com o fato dela ter saído de casa. Foi embora, repetiu, foi ela que foi embora não ele, ela que rompeu com o relacionamento. Não se importou. Da janela viu ela entrar no Uber sem olhar para cima. Mesmo depois de o carro ter dobrado a esquina, ficou por um bom tempo olhando a rua, talvez, na esperança de que ela voltasse, mas nada aconteceu. A rua continuou deserta como sempre fora. Reconheceu-se no silencio do corpo e se jogou no sofá a suas costas. Caiu sentado como fardo que é jogado a esmo em qualquer canto. Sozinho, estava sozinho como vinha desejando a muito tempo e só não o fazia por achar tal procedimento difícil e, no entanto, ali sentado olhando para as paredes, se espantou como fora fácil. Uma onda de felicidade o invadiu. Quis gritar, dançar, pular, mostrar o quanto estava satisfeito, mas, subitamente achou-se tolo. Porque? Estava sozinho, posso fazer o que eu quero, disse quase gritando. Posso dormir a hora que eu quero. Posso acordar a hora que eu quero. Posso tomar banho com a porta do banheiro aberta.

Posso mijar despreocupadamente. Posso andar nu. Posso tomar cerveja estupidamente gelada. E principalmente Posso ouvir música o tempo que eu quiser

Posso estar sendo maldoso? Não, não estava não, estava sendo realista, sendo ele mesmo. A primeira providencia que pôs em pratica foi encher a geladeira de cerveja, em seguida ligou o som no último volume. Ergueu os ombros, ficou ereto, a cabeça erguida, deu umas passadas de um lado para o outro da sala todo orgulhoso, não pelo fato dela ter ido embora, mas pelo fato que agora era ele com ele mesmo. Feliz abriu a lata de cerveja e sentou-se no sofá. As coisas agora vão se deslanchar, vou progredir, vou ser mais ativo, por que não? Sorriu confiante.

No entanto, um mês, dois meses, quatro meses depois, cairá num rotina frustrante como tinha sido a anterior. Continuava na mesma vidinha, apenas com a diferença que estava sozinho como sempre desejou estar.

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