quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

A temperatura baixa.

  

A temperatura baixa causa um cheiro de preguiça, que se eleva do asfalto, molhado pela garoa da madrugada. Os passos, cansados pela sobrevivência, arrastam-se como lamentos. Ele tem somente a capacidade de sentir-se bem consigo mesmo; tem que usar de subterfúgios, que só o enganam por poucos instantes. Ele sabe, conhece os passos de andarilho sobrevivente ao caos de uma ditadura social político e familiar, de cujo estigma vem tentando se livrar e, como ocorre com todos, eliminar, da expressão facial, o gosto pela liberdade. Gosto, sentido em pequenas gotas que, do frasco de soro, caem, só para mantê-lo vivo. Alimentado dia após dia, tem, na esperança, o que sempre quis ser, e não o que a família ou a sociedade hipócrita querem que ele seja. Não teve e nunca terá a saudade para se  alimentar da ausência de alguém que o quer bem, ou que seja querido por ele. Sofre, sim, uma ausência sem significado, ou que talvez tenha um significado, porém longe de ser assimilado.

 

Todos os dias, com dificuldade e desprezando a angustia, abre uma porta, nem sempre favorável à intensa dor que o dilacera, mas que lhe traz algum motivo para continuar e destruir a ausência que o alimenta e, ao mesmo tempo, o consola.

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