A temperatura baixa causa um
cheiro de preguiça, que se eleva do asfalto, molhado pela garoa da madrugada.
Os passos, cansados pela sobrevivência, arrastam-se como lamentos. Ele tem
somente a capacidade de sentir-se bem consigo mesmo; tem que usar de
subterfúgios, que só o enganam por poucos instantes. Ele sabe, conhece os
passos de andarilho sobrevivente ao caos de uma ditadura social político e
familiar, de cujo estigma vem tentando se livrar e, como ocorre com todos,
eliminar, da expressão facial, o gosto pela liberdade. Gosto, sentido em
pequenas gotas que, do frasco de soro, caem, só para mantê-lo vivo. Alimentado
dia após dia, tem, na esperança, o que sempre quis ser, e não o que a família
ou a sociedade hipócrita querem que ele seja. Não teve e nunca terá a saudade
para se alimentar da ausência de alguém
que o quer bem, ou que seja querido por ele. Sofre, sim, uma ausência sem
significado, ou que talvez tenha um significado, porém longe de ser assimilado.
Todos os dias, com dificuldade
e desprezando a angustia, abre uma porta, nem sempre favorável à intensa dor
que o dilacera, mas que lhe traz algum motivo para continuar e destruir a ausência
que o alimenta e, ao mesmo tempo, o consola.
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