quinta-feira, 26 de dezembro de 2019


Os cavardes.


Nunca estamos preparados para o que nos acontece, e, quando acontece nos desequilibramos caoticamente. Foi assim com Daniel. Mas, naquele momento não tinha nenhuma preocupação, isso porque, não pensava no que iria lhe acontecer e, é claro não tinha noção. Depois de mais de trinta anos, tendo apenas casos esporádicos, intimidades passageiras, depois de passar todo esse tempo, na maioria das vezes na masturbação, estaria ele, sendo arrastado novamente ao perigoso amor? Enquanto a língua sedosa da Fabi subia e descia por seu membro, entregava-se ao prazer como a muito tempo não fazia. Xavier que me perdoe, disse mentalmente no instante em que Rodrigo o penetrava num vai e vem lento e carinhoso. Puta que pariu, como é bom sentir outro corpo em meu corpo novamente! Não sentia culpa de estar traindo o seu amor. Seu amor! Quando foi que proferiu pela última vez essa palavra que antigamente fazia o peito estourar de dor. Quando foi? Trinta anos atrás num leito de hospital. Trinta anos atrás quando a vida deu uma quinada de mais de cento e oitenta graus. Mesmo agora, estando com duas pessoas sentiu um frenesi percorrer a espinha ao lembrar de como se declarou ao amigo.

Tudo porque Xavier o arrastou para uma orgia. Não queria ir, mas deixou-se levar. Angustiado, disfarçava a pulsação nas veias bombardeando o coração. Os nervos tensos doíam por baixo da pele. Olhava para a figura a sua frente se oferecendo, sentiu repulsa, não por ela, mas por ele, por ele não querer estar ali naquele momento, por estar fazendo algo que terceiros queriam que ele fizesse e, não o que ele queria fazer. Tentou imaginar Xavier no lugar da moça o que tornou a situação complicada e difícil. A coitada tentava agir conforme sua sofrível imaginação a comandava. Seus olhos fixos no amigo, não prestava atenção na parceira se esforçando o que deu margem para ela perguntar se ele gostava mesmo de mulher, se não era gay. Gaguejando quis saber o motivo da pergunta, o que ela respondeu que ele não tirava os olhos do amigo. Irritado, deixo-a perdida nos pensamentos.

Xavier o encontrou debruçado no balcão tendo ao lado dez garrafas de cerveja e cinco copos que, informados pelo barman, serem de uísque. Xavier pagou a conta e, com dificuldade, arrastou Daniel até o automóvel e o levou para o apartamento. Chegando foi outra trabalheira para tirá-lo do carro, levar para cima, tirar a roupa, enfiar o amigo debaixo do chuveiro, enxuga-lo e colocar o coitado na cama. Enquanto cuidava dele, por várias vezes Daniel pronunciara seu nome dizendo amá-lo. Com o braço apoiado no cotovelo, pela primeira vez, prestava atenção no amigo. Notou os cabelos desalinhados caindo sobre a testa e, com cuidado, ajeitou os fios castanhos para traz. Percebeu o nariz pequeno, os lábios regulares e finos, o rosto meio redondo, a pele amorenada, sentiu um nó na garganta quando Daniel virou a cabeça e se aconchegou em seu braço pronunciando um te amo angustiado. Estava lisonjeado e estranho por descobrir o segredo do amigo daquele jeito. Lhe dava a impressão de estar invadindo a privacidade alheia. E o que ele sentia em relação a Daniel, perguntou passando a mão no peito liso? Foi então que se lembrou de algo. Quando alcançaram a adolescência, nunca mais ficaram nus um na presença do outro. Porque? Gostaria de perguntar, no entanto Daniel dormia profundamente apoiado em seu braço e, lentamente, pendeu a cabeça no peito do amigo e, sem se aperceber, dormiu.

Na manhã seguinte, ao acordar, o corpo estava dolorido devido a longa posição abraçado a Daniel, perguntou o que aconteceria dali para frente. O amigo já não estava no quarto, talvez fora embora, portanto com esse pensamento, se vestiu lentamente, e desceu as escadas. Qual não foi sua surpresa ao ver Daniel tomando café na cozinha. Sentou-se ao seu lado. Olhou para o amigo, tentou dizer alguma coisa... Daniel olhou para ele e pendeu a cabeça em seu ombro. Xavier não perguntou nada e sabia que não deveria perguntar nada, aquele gesto já dizia tudo. Com a mão esquerda, carinhosamente, virou o rosto do amigo e lhe deu um beijo rápido e quente. Daniel, com a mão na nuca de Xavier, puxou-o para si e selou seus lábios. Xavier fez o mesmo engolindo um ao outro para logo em seguida, dando passagem, introduziu a língua na boca do amigo que não demonstrou resistência. Sentia que deveria falar algo, no entanto deixou-se levar, naquele momento não era tão importante as palavras. Nisso, evidenciando descomodidade, Daniel expressou um aí que notado por Xavier fez com que este o levasse ao quarto, onde continuaram se beijando. Agindo sem pressa ou rudeza, jogou-o na cama demonstrando o que queria, foi de botão em botão abrindo a camisa branca de Daniel. De repente, sem que se apercebesse, o amigo retirou de um saquinho pequenas pitadas de pó, depositando na testa, na ponta do nariz, na boca, no umbigo e finalmente na cabeça do membro. Em seguida Xavier foi inspirando e lambendo a droga bem devagar, demorando nos lugares onde a colocou. Daniel, sentindo-se excitado, se entregou deixando escapar, entre dentes um não demore. Xavier sorriu e com os olhos lhe disse, calma amor. Quando a boca do amigo passou do umbigo para o membro, Daniel se segurou o mais que pode sem dar tempo de alertar o amante, ejaculando em sua boca. A princípio, o primeiro jato foi lento e pequeno, mas os outros foram grandes e rápidos. Envergonhado, olhou para Xavier que sorria como se dissesse, tudo bem, isso faz parte do jogo. Dos cantos dos lábios, escorria o leite quente e viscoso por seu pênis umedecendo as virilhas e uma parte da barriga. Logo depois, Xavier se ergueu e o beijou longamente. Agora estamos prontos, ok? ok respondeu Daniel se virando.

Doralice entrou no quarto no momento em que Daniel passava o pano úmido na testa de Xavier que gemia devagar e baixinho. Estranhou a sua presença, pois desde que o amigo caiu doente, foi desamparado por todos, desde os pais, a esposa, até os amigos mais queridos e chegados. Se não fosse ele, Xavier estaria sozinho e abandonado naquele quarto de hospital. Cumprimentou receoso a esposa do amigo, demonstrando o quanto ela era indesejada ali. Doralice notou o desprezo no bom dia de Daniel, não se importou, se ele a desprezava ela também tinha o mesmo sentimento por ele, aliás, pelos dois. No entanto estava ali não sabia o porquê ou do porquê, apenas sentia a força que a obrigava a estar ali, tinha talvez, sem notar a obrigação em contar para Daniel que sabia do envolvimento dos dois. Surpreso Daniel perguntou como sabia e porque ficou todo esse tempo calada e ao lado do marido, desprezando-o justamente no momento em que mais precisava dela. Doralice o amava mais que tudo, mais que a si mesma, e por causa desse intenso amor é que lhe dava forças a continuar ao lado de Xavier. Esse amor dela por ele, e esse amor dos dois, é que fazia com que ela se sentisse feliz e satisfeita, pois toda vez que Xavier voltava para casa após um encontro dos dois, o marido a amava com tanto ardor e paixão que a deixava num êxtase emocional levando-a a felicidade quase suprema. Nunca quis filhos, seria algo negativo, o marido por outro lado não fazia questão em filhos, e ela entendia o porquê, com filhos a relação dos dois iria por água abaixo. Sempre notou que os dois se bastavam um ao outro, o que fazia a duvidar era essa amizade que ia além de uma amizade. Isso foi comprovada numa noite em que ela presenciou o beijo trocado entre os dois ao se despedirem. O que Doralice não entendia é porque aceitavam esse relacionamento desgastante, porque não saiam do armário para morarem juntos!? Covardia, disse Daniel, covardia tanto dele como de Xavier, por outro lado, Xavier gostava também de mulher, não queria machucar os sentimentos de Doralice, ele reconhecia o quanto ela o amava. Quanto a ele, Daniel, era o mais covarde de todos, tinha medo das consequências, de ser desprezados pelos pais e amigos, o que acabou acontecendo. Se você o amava tanto porque o abandonou justo no momento em que ele mais precisava de você, perguntou Daniel. Porque como vocês sou covarde também, respondeu Doralice. Enquanto estávamos só nos três podia aceitar a relação, mas ao surgir a doença me acovardei, não conseguiria, não teria forças, por isso fugi deixando-o nesse leito de hospital, portanto somos todos covardes. Naquela noite Xavier faleceu, parece que estava esperando a confissão de Doralice.

Trinta anos se passaram. Trinta anos cujas imagens e cenas conhecia muito bem. Cenas e atos que ressurgiram com uma transparência que chegava a doer. Estando com duas pessoas desconhecidas, cujos interesses é só e tão somente físico, deflagraram o esquecido guardado. E entre abraços, beijos, penetração, chupadas, a vida passou a sua frente desde o momento da declaração de amor até a morte de Xavier. O que deflagrara tudo isso? Talvez a possiblidade de um novo amor. Não queria acreditar que na idade em que estava poderia vir a amar novamente. Cansado olhou para Fabi. Estava dentro dela e parecia que nunca se cansaria enquanto seu companheiro oferecia o membro para que ela se deliciasse. Foi então que sentado à mesa preferida no restaurante, quando os dois se aproximaram pedindo licença para sentarem. Evitando demonstrar desagrado, indicou a cadeira a sua frente. Estava esboçando uma nova história que viesse a ser melhor que Os Covardes, coisa dificílima, disse para si mesmo. Isto porque, Os Covardes foi uma história arrancada a força onde se expunha em carne viva, e se não fosse a publicação em Na Brotheragem, coletânea de contos coletados pelo amigo Fabricio Viana, ele não teria escrito a história. Os Covardes ganhou vida própria, virou curta-metragem, depois longa metragem, musical, peça teatral, ganhando vários prêmios, estava trabalhoso para Daniel elaborar nova história que superasse Os Covardes. Portanto foi com desagrado que deu atenção a eles.

Estão me propondo um relacionamento a três, é isso, perguntou Daniel. Sim, respondeu Fabi. Somos duas pessoas sem preconceitos e para apimentar ou, talvez melhorar nossa relação, queremos saber se você topa, disse Rodrigo. Modo direto e rude de propor algo. Porque e por qual motivo propunham isso a ele, perguntou, além de serem estranhos para mim. Pela simples razão que conhecêssemos você, disse Fabi, lemos todas suas obras, até os ensaios sobre sexualidade e deduzimos que você é a pessoa certa. Sua apologia sexual, continuou Rodrigo, nos deu confiança... Estão completamente errados, retrucou Daniel, aquilo tudo é apenas maneira ficcional em vender algo, pode-se dizer, algo que o povo quer ouvir, pois o leitor é um tímido inveterado desejoso de ideias, as quais não tem a ousadia e muito menos a coragem de afirmar o que deseja. Talvez até seja, falou Rodrigo. Como psicóloga defino pela leitura dos seus livros, afirmou Fabi, uma teoria em que o sexo seja a principal motivação do ser humano, a sexualidade seja ela como for libertara a humanidade de todo o mal. Não era bem essa linha de pensamento, sim, Daniel achava que tendo a aceitação sexual, livre de qualquer preconceito e tabu, não a sexualidade estereotipada, andrógina e masculinizada ou afeminada, não tinha nada contra, poderia sim salvar, se não a humanidade pelo menos a pessoa. Talvez, por essa perspectiva aceitou o ménage à trois.

Sentia-se cansado. Não sou mais o mesmo, pensou enquanto friccionava seu membro entre os seios de Fabi. Rodrigo entre as pernas, aplicava uma gostosa cunilíngua levando-a gemer satisfeita. Daniel percebia ser impossível se segurar por mais tempo, tanto é que num espasmo jorrou todo o prazer no rosto de Fabi. Ao sentir o liquido quente na pele, soltou um berro estridente, xingado de velho do caralho e sem vergonha ao mesmo tempo se levantava abruptamente derrubando-o por cima de Rodrigo. Horrorizado, viu que junto ao esperma ejaculara sangue.

Quinze dias depois, a mídia anunciava o falecimento do escritor Daniel Corelli, devido ao câncer na próstata.



imagem: https://medium.com/@onurbnairbx/a-covardia-%C3%A9-o-reflexo-reverso-do-espelho-da-coragem-adf5fe264991

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