Os cavardes.
Nunca estamos preparados para o
que nos acontece, e, quando acontece nos desequilibramos caoticamente. Foi
assim com Daniel. Mas, naquele momento não tinha nenhuma preocupação, isso
porque, não pensava no que iria lhe acontecer e, é claro não tinha noção. Depois
de mais de trinta anos, tendo apenas casos esporádicos, intimidades passageiras,
depois de passar todo esse tempo, na maioria das vezes na masturbação, estaria
ele, sendo arrastado novamente ao perigoso amor? Enquanto a língua sedosa da Fabi
subia e descia por seu membro, entregava-se ao prazer como a muito tempo não
fazia. Xavier que me perdoe, disse mentalmente no instante em que Rodrigo o
penetrava num vai e vem lento e carinhoso. Puta que pariu, como é bom sentir
outro corpo em meu corpo novamente! Não sentia culpa de estar traindo o seu
amor. Seu amor! Quando foi que proferiu pela última vez essa palavra que
antigamente fazia o peito estourar de dor. Quando foi? Trinta anos atrás num
leito de hospital. Trinta anos atrás quando a vida deu uma quinada de mais de
cento e oitenta graus. Mesmo agora, estando com duas pessoas sentiu um frenesi
percorrer a espinha ao lembrar de como se declarou ao amigo.
Tudo porque Xavier o arrastou
para uma orgia. Não queria ir, mas deixou-se levar. Angustiado, disfarçava a
pulsação nas veias bombardeando o coração. Os nervos tensos doíam por baixo da
pele. Olhava para a figura a sua frente se oferecendo, sentiu repulsa, não por
ela, mas por ele, por ele não querer estar ali naquele momento, por estar
fazendo algo que terceiros queriam que ele fizesse e, não o que ele queria
fazer. Tentou imaginar Xavier no lugar da moça o que tornou a situação
complicada e difícil. A coitada tentava agir conforme sua sofrível imaginação a
comandava. Seus olhos fixos no amigo, não prestava atenção na parceira se
esforçando o que deu margem para ela perguntar se ele gostava mesmo de mulher,
se não era gay. Gaguejando quis saber o motivo da pergunta, o que ela respondeu
que ele não tirava os olhos do amigo. Irritado, deixo-a perdida nos
pensamentos.
Xavier o encontrou debruçado no
balcão tendo ao lado dez garrafas de cerveja e cinco copos que, informados pelo
barman, serem de uísque. Xavier pagou a conta e, com dificuldade, arrastou Daniel
até o automóvel e o levou para o apartamento. Chegando foi outra trabalheira
para tirá-lo do carro, levar para cima, tirar a roupa, enfiar o amigo debaixo
do chuveiro, enxuga-lo e colocar o coitado na cama. Enquanto cuidava dele, por
várias vezes Daniel pronunciara seu nome dizendo amá-lo. Com o braço apoiado no
cotovelo, pela primeira vez, prestava atenção no amigo. Notou os cabelos
desalinhados caindo sobre a testa e, com cuidado, ajeitou os fios castanhos
para traz. Percebeu o nariz pequeno, os lábios regulares e finos, o rosto meio
redondo, a pele amorenada, sentiu um nó na garganta quando Daniel virou a
cabeça e se aconchegou em seu braço pronunciando um te amo angustiado. Estava
lisonjeado e estranho por descobrir o segredo do amigo daquele jeito. Lhe dava
a impressão de estar invadindo a privacidade alheia. E o que ele sentia em
relação a Daniel, perguntou passando a mão no peito liso? Foi então que se
lembrou de algo. Quando alcançaram a adolescência, nunca mais ficaram nus um na
presença do outro. Porque? Gostaria de perguntar, no entanto Daniel dormia
profundamente apoiado em seu braço e, lentamente, pendeu a cabeça no peito do
amigo e, sem se aperceber, dormiu.
Na manhã seguinte, ao acordar, o
corpo estava dolorido devido a longa posição abraçado a Daniel, perguntou o que
aconteceria dali para frente. O amigo já não estava no quarto, talvez fora
embora, portanto com esse pensamento, se vestiu lentamente, e desceu as
escadas. Qual não foi sua surpresa ao ver Daniel tomando café na cozinha.
Sentou-se ao seu lado. Olhou para o amigo, tentou dizer alguma coisa... Daniel
olhou para ele e pendeu a cabeça em seu ombro. Xavier não perguntou nada e
sabia que não deveria perguntar nada, aquele gesto já dizia tudo. Com a mão
esquerda, carinhosamente, virou o rosto do amigo e lhe deu um beijo rápido e
quente. Daniel, com a mão na nuca de Xavier, puxou-o para si e selou seus
lábios. Xavier fez o mesmo engolindo um ao outro para logo em seguida, dando
passagem, introduziu a língua na boca do amigo que não demonstrou resistência. Sentia
que deveria falar algo, no entanto deixou-se levar, naquele momento não era tão
importante as palavras. Nisso, evidenciando descomodidade, Daniel expressou um
aí que notado por Xavier fez com que este o levasse ao quarto, onde continuaram
se beijando. Agindo sem pressa ou rudeza, jogou-o na cama demonstrando o que
queria, foi de botão em botão abrindo a camisa branca de Daniel. De repente,
sem que se apercebesse, o amigo retirou de um saquinho pequenas pitadas de pó,
depositando na testa, na ponta do nariz, na boca, no umbigo e finalmente na
cabeça do membro. Em seguida Xavier foi inspirando e lambendo a droga bem
devagar, demorando nos lugares onde a colocou. Daniel, sentindo-se excitado, se
entregou deixando escapar, entre dentes um não demore. Xavier sorriu e com os
olhos lhe disse, calma amor. Quando a boca do amigo passou do umbigo para o
membro, Daniel se segurou o mais que pode sem dar tempo de alertar o amante,
ejaculando em sua boca. A princípio, o primeiro jato foi lento e pequeno, mas
os outros foram grandes e rápidos. Envergonhado, olhou para Xavier que sorria
como se dissesse, tudo bem, isso faz parte do jogo. Dos cantos dos lábios,
escorria o leite quente e viscoso por seu pênis umedecendo as virilhas e uma
parte da barriga. Logo depois, Xavier se ergueu e o beijou longamente. Agora
estamos prontos, ok? ok respondeu Daniel se virando.
Doralice entrou no quarto no
momento em que Daniel passava o pano úmido na testa de Xavier que gemia devagar
e baixinho. Estranhou a sua presença, pois desde que o amigo caiu doente, foi
desamparado por todos, desde os pais, a esposa, até os amigos mais queridos e
chegados. Se não fosse ele, Xavier estaria sozinho e abandonado naquele quarto
de hospital. Cumprimentou receoso a esposa do amigo, demonstrando o quanto ela
era indesejada ali. Doralice notou o desprezo no bom dia de Daniel, não se
importou, se ele a desprezava ela também tinha o mesmo sentimento por ele,
aliás, pelos dois. No entanto estava ali não sabia o porquê ou do porquê,
apenas sentia a força que a obrigava a estar ali, tinha talvez, sem notar a
obrigação em contar para Daniel que sabia do envolvimento dos dois. Surpreso
Daniel perguntou como sabia e porque ficou todo esse tempo calada e ao lado do
marido, desprezando-o justamente no momento em que mais precisava dela. Doralice
o amava mais que tudo, mais que a si mesma, e por causa desse intenso amor é
que lhe dava forças a continuar ao lado de Xavier. Esse amor dela por ele, e
esse amor dos dois, é que fazia com que ela se sentisse feliz e satisfeita,
pois toda vez que Xavier voltava para casa após um encontro dos dois, o marido
a amava com tanto ardor e paixão que a deixava num êxtase emocional levando-a a
felicidade quase suprema. Nunca quis filhos, seria algo negativo, o marido por
outro lado não fazia questão em filhos, e ela entendia o porquê, com filhos a
relação dos dois iria por água abaixo. Sempre notou que os dois se bastavam um
ao outro, o que fazia a duvidar era essa amizade que ia além de uma amizade.
Isso foi comprovada numa noite em que ela presenciou o beijo trocado entre os
dois ao se despedirem. O que Doralice não entendia é porque aceitavam esse
relacionamento desgastante, porque não saiam do armário para morarem juntos!?
Covardia, disse Daniel, covardia tanto dele como de Xavier, por outro lado,
Xavier gostava também de mulher, não queria machucar os sentimentos de
Doralice, ele reconhecia o quanto ela o amava. Quanto a ele, Daniel, era o mais
covarde de todos, tinha medo das consequências, de ser desprezados pelos pais e
amigos, o que acabou acontecendo. Se você o amava tanto porque o abandonou
justo no momento em que ele mais precisava de você, perguntou Daniel. Porque
como vocês sou covarde também, respondeu Doralice. Enquanto estávamos só nos
três podia aceitar a relação, mas ao surgir a doença me acovardei, não
conseguiria, não teria forças, por isso fugi deixando-o nesse leito de
hospital, portanto somos todos covardes. Naquela noite Xavier faleceu, parece
que estava esperando a confissão de Doralice.
Trinta anos se passaram. Trinta
anos cujas imagens e cenas conhecia muito bem. Cenas e atos que ressurgiram com
uma transparência que chegava a doer. Estando com duas pessoas desconhecidas,
cujos interesses é só e tão somente físico, deflagraram o esquecido guardado. E
entre abraços, beijos, penetração, chupadas, a vida passou a sua frente desde o
momento da declaração de amor até a morte de Xavier. O que deflagrara tudo
isso? Talvez a possiblidade de um novo amor. Não queria acreditar que na idade
em que estava poderia vir a amar novamente. Cansado olhou para Fabi. Estava
dentro dela e parecia que nunca se cansaria enquanto seu companheiro oferecia o
membro para que ela se deliciasse. Foi então que sentado à mesa preferida no
restaurante, quando os dois se aproximaram pedindo licença para sentarem. Evitando
demonstrar desagrado, indicou a cadeira a sua frente. Estava esboçando uma nova
história que viesse a ser melhor que Os Covardes, coisa dificílima, disse para
si mesmo. Isto porque, Os Covardes foi uma história arrancada a força onde se
expunha em carne viva, e se não fosse a publicação em Na Brotheragem, coletânea
de contos coletados pelo amigo Fabricio Viana, ele não teria escrito a
história. Os Covardes ganhou vida própria, virou curta-metragem, depois longa
metragem, musical, peça teatral, ganhando vários prêmios, estava trabalhoso
para Daniel elaborar nova história que superasse Os Covardes. Portanto foi com
desagrado que deu atenção a eles.
Estão me propondo um
relacionamento a três, é isso, perguntou Daniel. Sim, respondeu Fabi. Somos
duas pessoas sem preconceitos e para apimentar ou, talvez melhorar nossa
relação, queremos saber se você topa, disse Rodrigo. Modo direto e rude de propor
algo. Porque e por qual motivo propunham isso a ele, perguntou, além de serem
estranhos para mim. Pela simples razão que conhecêssemos você, disse Fabi,
lemos todas suas obras, até os ensaios sobre sexualidade e deduzimos que você é
a pessoa certa. Sua apologia sexual, continuou Rodrigo, nos deu confiança...
Estão completamente errados, retrucou Daniel, aquilo tudo é apenas maneira
ficcional em vender algo, pode-se dizer, algo que o povo quer ouvir, pois o
leitor é um tímido inveterado desejoso de ideias, as quais não tem a ousadia e
muito menos a coragem de afirmar o que deseja. Talvez até seja, falou Rodrigo.
Como psicóloga defino pela leitura dos seus livros, afirmou Fabi, uma teoria em
que o sexo seja a principal motivação do ser humano, a sexualidade seja ela
como for libertara a humanidade de todo o mal. Não era bem essa linha de
pensamento, sim, Daniel achava que tendo a aceitação sexual, livre de qualquer
preconceito e tabu, não a sexualidade estereotipada, andrógina e masculinizada
ou afeminada, não tinha nada contra, poderia sim salvar, se não a humanidade
pelo menos a pessoa. Talvez, por essa perspectiva aceitou o ménage à trois.
Sentia-se cansado. Não sou mais o
mesmo, pensou enquanto friccionava seu membro entre os seios de Fabi. Rodrigo
entre as pernas, aplicava uma gostosa cunilíngua levando-a gemer satisfeita. Daniel
percebia ser impossível se segurar por mais tempo, tanto é que num espasmo
jorrou todo o prazer no rosto de Fabi. Ao sentir o liquido quente na pele,
soltou um berro estridente, xingado de velho do caralho e sem vergonha ao mesmo
tempo se levantava abruptamente derrubando-o por cima de Rodrigo. Horrorizado,
viu que junto ao esperma ejaculara sangue.
Quinze dias depois, a mídia
anunciava o falecimento do escritor Daniel Corelli, devido ao câncer na
próstata.
imagem: https://medium.com/@onurbnairbx/a-covardia-%C3%A9-o-reflexo-reverso-do-espelho-da-coragem-adf5fe264991

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