Todos os dias eles se encontravam na quitanda.
Escondidos no vão da porta se beijavam. Nos primeiros dias, timidamente, com o
passar do tempo os beijos e as caricias se tornarem mais audaciosos. Dan já
deixava Marcos alisar por cima da roupa seus seios que emergiam firmes. Um dia,
atrevidamente a mão de Marcos procurou o meio das pernas de Dan. Assustado
retirou abruptamente com os olhos arregalados.
- Daniela, disse gaguejando.
- Sim, Marcos.
- Você...
- Sim, sou...
Marcos saiu correndo e ficou vários dias sem
aparecer. Daniela sabia que isso aconteceria, era sempre assim. Porém, para sua
surpresa, numa tarde ensolarada Marcos apareceu e, sem dizer uma palavra
retomaram os beijos no vão da porta. Dan percebeu que Marcos a tocava da
cintura para cima, não perguntou o porquê, sabia a resposta. Assim passaram
dias felizes até que numa manhã, o pai de Dan apareceu de surpresa.
- Dona Genoveva tinha razão. Os veadinhos se
escondem na minha quitanda.
E puxou Dan pelo cabelo.
- Já te falei, Daniel, você é um monstro, não
merece nem viver.
- Meu nome é Daniela, gritou ao pai.
- Ah! Quer ser mulher.
E dizendo isso, ergueu o vestido e baixou a
calcinha.
- Vejam, disse para as pessoas que entraram na
quitanda, essa merdinha não é nem homem e nem mulher...
Dos olhos de Dan escorriam grossas lágrimas.
Nisso, Marcos empurra o pai da amada que desaba sobre as verduras.
- Corre, Dan, corre.
********
- Marcos... Marcos...
- O que foi Dona Eulália.
- Está escondido, não foi se despedir de
Daniel?
- Daniela, Dona Eulália.
- Ele deixou esse bilhete para você.
- Como ela teve a coragem de se suicidar!
- Ele não teve, eu que o ajudei...
- O que?!
- É. O encontrei na cozinha com a faca no
pescoço, mas não teve coragem. Então o ajudei...
- Mas poderia fazer uma operação...
- Aqui nesse mundo sem fim, meu filho, iriam só
zombar do coitado como vinham fazendo. E onde iriamos arrumar dinheiro...
Aliás, só você o entendia. Gostava muito de você, foi o único que o aceitou
como ele era.
Ao ficar sozinho abriu o bilhete:
Querido Marcos.
Obrigado pelos bons momentos que passamos
juntos.
Você foi o único que me fez feliz.
Desculpe, não aguento mais viver.
Te amo.
Sua Dan.
*************
- Pai, que cheiro de papel queimado...
- Oi, Daniela, está preparada?
- Daniel, pai, já te falei.
- Sei, para mim você ainda é Daniela, a partir
de amanhã, aí sim, te chamarei de Daniel. Onde está o Guilherme?
- Chamando um Uber.
- Pegou os documentos?
- Sim.
- Não sei por que precisam dos papéis de
adoção.
- Talvez, para confirmar que vocês me adotaram
mesmo.
- É pode ser. Guilherme querido, já chegou o
Uber?
- Sim Marcos, vamos?
- Vamos amor.
E no cinzeiro ficou um pedaço de papel onde se
podia ler: “Dan”.
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