terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Dan

Todos os dias eles se encontravam na quitanda. Escondidos no vão da porta se beijavam. Nos primeiros dias, timidamente, com o passar do tempo os beijos e as caricias se tornarem mais audaciosos. Dan já deixava Marcos alisar por cima da roupa seus seios que emergiam firmes. Um dia, atrevidamente a mão de Marcos procurou o meio das pernas de Dan. Assustado retirou abruptamente com os olhos arregalados.
- Daniela, disse gaguejando.
- Sim, Marcos.
- Você...
- Sim, sou...
Marcos saiu correndo e ficou vários dias sem aparecer. Daniela sabia que isso aconteceria, era sempre assim. Porém, para sua surpresa, numa tarde ensolarada Marcos apareceu e, sem dizer uma palavra retomaram os beijos no vão da porta. Dan percebeu que Marcos a tocava da cintura para cima, não perguntou o porquê, sabia a resposta. Assim passaram dias felizes até que numa manhã, o pai de Dan apareceu de surpresa.
- Dona Genoveva tinha razão. Os veadinhos se escondem na minha quitanda.
E puxou Dan pelo cabelo.
- Já te falei, Daniel, você é um monstro, não merece nem viver.
- Meu nome é Daniela, gritou ao pai.
- Ah! Quer ser mulher.
E dizendo isso, ergueu o vestido e baixou a calcinha.
- Vejam, disse para as pessoas que entraram na quitanda, essa merdinha não é nem homem e nem mulher...
Dos olhos de Dan escorriam grossas lágrimas. Nisso, Marcos empurra o pai da amada que desaba sobre as verduras.
- Corre, Dan, corre.

********

- Marcos... Marcos...
- O que foi Dona Eulália.
- Está escondido, não foi se despedir de Daniel?
- Daniela, Dona Eulália.
- Ele deixou esse bilhete para você.
- Como ela teve a coragem de se suicidar!
- Ele não teve, eu que o ajudei...
- O que?!
- É. O encontrei na cozinha com a faca no pescoço, mas não teve coragem. Então o ajudei...
- Mas poderia fazer uma operação...
- Aqui nesse mundo sem fim, meu filho, iriam só zombar do coitado como vinham fazendo. E onde iriamos arrumar dinheiro... Aliás, só você o entendia. Gostava muito de você, foi o único que o aceitou como ele era.
Ao ficar sozinho abriu o bilhete:

Querido Marcos.

Obrigado pelos bons momentos que passamos juntos.
Você foi o único que me fez feliz.
Desculpe, não aguento mais viver.
Te amo.

Sua Dan.

*************

- Pai, que cheiro de papel queimado...
- Oi, Daniela, está preparada?
- Daniel, pai, já te falei.
- Sei, para mim você ainda é Daniela, a partir de amanhã, aí sim, te chamarei de Daniel. Onde está o Guilherme?
- Chamando um Uber.
- Pegou os documentos?
- Sim.
- Não sei por que precisam dos papéis de adoção.
- Talvez, para confirmar que vocês me adotaram mesmo.
- É pode ser. Guilherme querido, já chegou o Uber?
- Sim Marcos, vamos?
- Vamos amor.
E no cinzeiro ficou um pedaço de papel onde se podia ler: “Dan”.

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