sábado, 15 de fevereiro de 2020

0s dedos.


Meu Deus, disse alguém ao passar pelo local. Mecanicamente, repetiu: Meu Deus mesmo sendo ateu como dizia, repetiu Meu Deus horrorizado. Ali ainda estava o corpo estirado no frio olhando o vazio com as orbitas ocas. Terrível frustração o dominou levando-o a desacreditar em si mesmo e nos outros, talvez mais nos outros do que em si mesmo. Desolado constatou que estava perdido, tanto ele como o mundo. Ele poderia ter salvação? Mas e o mundo, teria salvação? Ou seria ao contrário, ele não teria e, o mundo sim é que teria salvação? Observando o que o ocorria neste pequeno mundo de partículas ínfimas, desacreditava tanto dele como do mundo. No entanto não impediu que a chama fluísse de si para o fato exposto e, parece que surtiu efeito e, ao dirigir o olhar para as mãos notou algo inusitado: os dedos, faltavam os dedos. O que? É os dedos. Como nos olhos, não havia sinais de corte, de brutalidade, apenas ausência dos dedos. Olhando com mais atenção, não tinha sinais de cicatriz, o que provava que não foram cortados. Em seu lugar havia só pele lisa, como se nunca tivessem dedos. E outra coisa que notava: decomposição, não havia putrescência. Porque? Seria brincadeira ou, aquelas piadinhas de mau gosto que a mídia execrável gosta de impingir nos incautos burros? Poderia ser um boneco o que não era. As pessoas passavam, algumas até desviavam, outras chegavam a pular, e ninguém fazia nada, não tomavam providência. O que poderia ou, melhor, deveria fazer? Olhou para os lados, observou o vai e vem tumultuado da pressa, consultou o relógio e, achou melhor não fazer nada. Aquilo não era problema seu. Deu de ombros e seguiu seu caminho.     

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