Meu Deus, disse
alguém ao passar pelo local. Mecanicamente, repetiu: Meu Deus mesmo sendo ateu
como dizia, repetiu Meu Deus horrorizado. Ali ainda estava o corpo estirado no
frio olhando o vazio com as orbitas ocas. Terrível frustração o dominou
levando-o a desacreditar em si mesmo e nos outros, talvez mais nos outros do
que em si mesmo. Desolado constatou que estava perdido, tanto ele como o mundo.
Ele poderia ter salvação? Mas e o mundo, teria salvação? Ou seria ao contrário,
ele não teria e, o mundo sim é que teria salvação? Observando o que o ocorria
neste pequeno mundo de partículas ínfimas, desacreditava tanto dele como do
mundo. No entanto não impediu que a chama fluísse de si para o fato exposto e,
parece que surtiu efeito e, ao dirigir o olhar para as mãos notou algo inusitado:
os dedos, faltavam os dedos. O que? É os dedos. Como nos olhos, não havia
sinais de corte, de brutalidade, apenas ausência dos dedos. Olhando com mais
atenção, não tinha sinais de cicatriz, o que provava que não foram cortados. Em
seu lugar havia só pele lisa, como se nunca tivessem dedos. E outra coisa que
notava: decomposição, não havia putrescência. Porque? Seria brincadeira ou,
aquelas piadinhas de mau gosto que a mídia execrável gosta de impingir nos
incautos burros? Poderia ser um boneco o que não era. As pessoas passavam,
algumas até desviavam, outras chegavam a pular, e ninguém fazia nada, não
tomavam providência. O que poderia ou, melhor, deveria fazer? Olhou para os
lados, observou o vai e vem tumultuado da pressa, consultou o relógio e, achou
melhor não fazer nada. Aquilo não era problema seu. Deu de ombros e seguiu seu
caminho.
sábado, 15 de fevereiro de 2020
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