segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O rapaz que cheirava livros.


Para Marcos Well.


Confessava. Tinha um vício. Só não sabia se era inofensivo ou não, mas tinha, e, também descobriu ser um fetiche, o que o deixou um tanto quanto preocupado, pois não tinha noção de ser um fetichista. Porém, essas questões não foram relevantes para ele, tinha um vício e pronto. Quem não alimenta seu vício não vive, era o seu lema. Gostava de cheirar livros. Principalmente os novos. A primeira coisa que fazia ao adquirir o livro era cheirar suas páginas, sentir as letras, as palavras, a tinta, o papel novo, imaginar quantas mãos passaram pelo livro até chegar a ele. Imaginava desde o momento em que o escritor começou a dar forma à narrativa, o escreve e reescreve, as folhas, o manuscrito, o final, os estudos para a capa, a gráfica, o empacotamento, a distribuição, até o momento em que a obra exposta para a venda, o excitava. O instante em que tinha o volume em mão o deixava extasiado, inebriado. Um dia o excitamento foi tanto a ponto de sentir uma pequena ereção que o fez fechar o livro rapidamente levando a pessoa ao lado a se assustar. Ao ter em mãos o livro fazia uma análise desde a capa a contracapa, a sinopse, as orelhas, o prefácio quem escreveu, quem ilustrou a capa, olhava folha por folha, numa minucia obsessiva.
Confessava, esse era o um vício. Depois é que saboreava a história. E de vez em quando, durante o processo de leitura, parava alguns momentos e levava o livro ao nariz, como fazia naquele momento. E ao baixar o livro notou dois olhos observando-o. Meio que envergonhado ao ser flagrado, sorriu sem graça, o dono dos dois olhos retribuiu o sorriso e, se levantou indo em sua direção.
- Posso?
- Claro, fique à vontade.
- Vi o seu gesto.
- Percebi.
- Não fique envergonhado ou acanhado com isso.
- Não estou, é que não previa que era observado.
- Além de cheirar livros esse é meu outro vício: observar as pessoas.
- Também as observo, mas não tanto como você.
- Então, posso saber que livro está lendo?
- Novelas nada delicadas, de Marcos Well.
- É bom?
- Excelente, gosto desse escritor.
- Vou procurar comprar.
- Será uma boa compra, não vai se arrepender.
- Espero que não tenha aquelas excessivas discrições sexuais enfadonhas.
- Não é não, aliás, tem, mas aqui é menos explicitas.
- Ainda bem.
- Vou te perguntar uma coisa.
- Pode perguntar.
- Você já fez leitura sexual?
- Que? Como é isso? Me explique.
- Mais ou menos assim, durante a transa, quer dizer, antes fazemos o sorteio de quem começa.
- uhm...
- Por exemplo, se for eu que começo, faço a leitura dum terminado trecho do livro enquanto você inicia as preliminares. Estipulamos a quantidade de página a ser lida.
- E depois?
- Vamos dizer que seja cinco páginas. Durante essas cinco páginas você deita e rola nas preliminares, entende.
- Entendo. Em seguida é minha vez de ler cinco páginas enquanto você me ataca nas preliminares.
- Isso.
- Topo.
- Precisamos apenas escolher o livro, ver a quantidade de páginas...
- Que tal esse?
- Novelas nada delicadas?
- Sim.
- Pode ser.
- E se não conseguirmos chegar ao fim do livro.
- Bom aí veremos.
- Podemos marcar outro dia.
- E, também vai depender se nossa alquimia bater.
- Certo.
- Vamos então.
- Sua ou minha casa?
- Sua.

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