Estava ali. Quieto. Petrificado. Frio, talvez
enregelado. Não ousava tocar, aliás, ninguém ousava. Alguns passavam, paravam
por segundos, continuavam andando. Outros, com um pouco de ousadia mínima,
sacava o celular e tirava uma foto. Para que? Vai se saber, talvez postar em
alguma rede de inúteis. A quanto tempo estava ali? Não se sabia. Se preocupavam
com isso? Claro que não. Olhando-o notava-se algo de errado, quer dizer, se
parasse um pouco prestando uma certa atenção interrogativa. Faltava-lhe os
olhos. É! Os olhos. Apenas os olhos, não, isso não, não se percebia que
tivessem sido arrancados, não havia vestígios de que o fossem. A cavidade
ocular não apresentava vestígios algum de ferida, corte, sangue coagulado,
nada. Intacta. Aproximando-se, olhando por cima, com clareza, dava para ver os
nervos, as veias, as cartilagens pulsando numa pasmaceira normal, apenas não se
via o olho e seus componentes a córnea, o nervo ótico, a íris, o cristalino,
nada disso se via. Alguém passando disse:
- Olho invisível, cara.
Será? Pode ser, nessa vida de burlescos e
maltrapilhos com crendices mil, tudo pode ser. Mas se realmente é isso, olho
invisível para que? Com a finalidade de assustar não era. Pois se olhando para
a cavidade ocular, não provocava medo, apenas curiosidade. Bom vai se saber,
não é, com tanta esquisitice o impossível de ontem torna-se possível hoje.
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