terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O corpo


Estava ali. Quieto. Petrificado. Frio, talvez enregelado. Não ousava tocar, aliás, ninguém ousava. Alguns passavam, paravam por segundos, continuavam andando. Outros, com um pouco de ousadia mínima, sacava o celular e tirava uma foto. Para que? Vai se saber, talvez postar em alguma rede de inúteis. A quanto tempo estava ali? Não se sabia. Se preocupavam com isso? Claro que não. Olhando-o notava-se algo de errado, quer dizer, se parasse um pouco prestando uma certa atenção interrogativa. Faltava-lhe os olhos. É! Os olhos. Apenas os olhos, não, isso não, não se percebia que tivessem sido arrancados, não havia vestígios de que o fossem. A cavidade ocular não apresentava vestígios algum de ferida, corte, sangue coagulado, nada. Intacta. Aproximando-se, olhando por cima, com clareza, dava para ver os nervos, as veias, as cartilagens pulsando numa pasmaceira normal, apenas não se via o olho e seus componentes a córnea, o nervo ótico, a íris, o cristalino, nada disso se via. Alguém passando disse:
- Olho invisível, cara.
Será? Pode ser, nessa vida de burlescos e maltrapilhos com crendices mil, tudo pode ser. Mas se realmente é isso, olho invisível para que? Com a finalidade de assustar não era. Pois se olhando para a cavidade ocular, não provocava medo, apenas curiosidade. Bom vai se saber, não é, com tanta esquisitice o impossível de ontem torna-se possível hoje.

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