quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Sinfonia inacabada

Primeiro movimento...


Olhava a urina que batia na louça quebrada e suja do vaso sanitário. O estomago dava nó ao sentir o cheiro que entrava pela narina. Teve que urinar ali mesmo, não achou outro lugar para satisfazer as necessidades. Todos estavam piores que aquele. Era uma merda, pois sempre que tinha que urinar acontecia isso. Por que era assim? Essa frescura de se fechar para urinar? Não poderia ser como os outros? Urinar em qualquer lugar, na frente de qualquer um? Não, ele não, tinha que ser em lugar fechado, e quando achava era isso, sujeira, merda, chão molhado, porta que não tranca... reparou que aquilo não era propriamente um banheiro, quando entrou parecia ser,  percebeu que se parecia mais um quarto, a sua frente tinha uma parede toda descascada, e a parede da direita o chão se alongava num estreitamento que mal dava para ver o fim, e a parede da esquerda parecia ter uma cama toda bagunçada.
- Hein, vai demorar, cara? – gritava alguém batendo na porta.
Queria urinar logo, mas a maldita não saia, sentia a bexiga cheia, só uns pingos batiam no chão sujo, não era mais a louça suja e quebrada do vaso. Suava, tinha que terminar, porque a demora? Nisso, os pingos se transformaram em pequenas lâminas de gelo dilacerando o membro. Não podia mais ficar ali. Colocou o membro para dentro da calça, subiu o zíper, puxou a camisa, se virou, abriu a porta e caiu no vazio do quarto batendo a cabeça no assoalho limpo e brilhoso.
- Caralho! De novo não.
Levantou rapidamente arrancando o lençol onde se via uma grande mancha escura e colocou no cesto de roupa suja. Pegou outro do guarda roupa e estendeu na cama e se jogou quase batendo a cabeça na parede.  

Olhava o amarelo da bebida. Amarelo como urina, pensou. Seus pequenos lábios se contraíram num perceptível sorriso. Que merda, não tem graça nenhuma. Tomou um longo gole sentindo o gelado queimar a garganta. Levantou o braço. Quando o garçom se aproximou pediu:
- Me traga uma branquinha, por favor.
O esguio garçom se afastou. Como é que tinha sido mesmo? A todo momento procurava se lembrar. Para começar, assim que chegou, não o encontrou na plataforma. Angustiou-se.  Olhou no relógio. Quase uma hora atrasado. Que merda. Se ele não aparecer como ficarei? O que farei? Dormir na rodoviária ou pegar o próximo ônibus de volta? O celular sem bateria senão teria ligado. Por fim, achou que não deveria se preocupar, não valeria a pena se atazanar por pouco coisa. Se ele não aparecer, arrumo um jeito, pensou sentando pela decima vez no banco da rodoviária. Afinal era cedo, quase vinte horas, talvez ficou preso no trânsito ou saíra atrasado do serviço, vai lá saber. Estava num meio devaneio se cochilava ou não quando um vulto sentou ao seu lado. Levou um susto, quase caiu do banco.
- Desculpe, demorei né.
-  Sim, demorou, estava pegando o próximo ônibus, você teve sorte porque o próximo é só as vinte e três horas.
Olhava o teto. Meio que escuro de manchas. Precisava de uma pintura urgente, pensou. Ele dormia no colchão no chão.

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