segunda-feira, 23 de março de 2020

Atrás do banheiro azul.


Olhou por cima do ombro do namorado e disse:
- Esse azul.
- O que tem o azul? - perguntou o namorado virando a cabeça.
- É o tom que você gosta.
- Sim, mas está sujo, desbotado, malcuidado.
- É verdade.
- Lembra quando nos conhecemos?
- Sim, como posso esquecer.
- Aquele azul intenso parecia brilhar mais que o sol.
- E você registrou aquele momento numa foto espetacular.
- Que agora está pendurado no seu quarto. Sempre gostou do azul.
- Sim, desde pequeno.
- Cor do mar, tranquilidade, paz...
- Até pensei em fazer um estudo sobre essa cor...
- Na Índia se não me engano representa luto.
- Em cada país representa uma coisa.
- Que horas?
- Meio dia.
- Está na hora, vamos, você prometeu.
- Não sou um Lannister, mas pago minhas dívidas.
- Está assistindo essa porcaria ainda?
- Game of thrones?
- Claro, o que mais poderia ser.
- Sim, estou, sabe que esse seriado é um dos melhores... falta uma temporada para terminar.
- Até que enfim.


 
Eles chegaram, eram mais ou menos umas dez pessoas.
- É aqui?
- Sim porque?
- Atrás do banheiro azul.
- Das outras vezes ficamos aqui também, não tão perto do banheiro, mais perto daquelas árvores.
- Mas veja. O lugar está ocupado pelo que parece ser uma família.
- O parque está movimentado hoje.
- Nem parece que estamos no inverno, olha o sol! Por isso que o parque está cheio.
- Vamos para outro lugar?
- Não vamos ficar aqui.
- Acho melhor irmos para outro lugar.
- Porque?
- Olhe.
- Uma camisinha?
- E povo porco.
- Isso é vida.
- Sujeira?
- Também.
- Se formos para outro lugar temos que avisar o pessoal que não chegaram.
- Não deixe de avisar o Cronista.
- Ele vai ser o primeiro, não quero ficar sem a crônica dele.
- Alô.
- Alô.
- Onde você está?
- Na Brigadeiro ainda.
- Vai demorar a chegar.
- Acho que sim, houve um acidente com um carro e um ônibus... nâo, não com outro ônibus, o carro e o ônibus estão atravessados na avenida, entende?
- Entendo. Olha estamos mudando de local, certo? Porque? Depois te falo. Assim que chegar no Parque me liga para te passar onde vamos ficar. Não, não vamos ficar mais atrás do banheiro azul. Ok. Até mais.
- O que houve?
- Ele está preso num acidente.
- Com ele?
- Não com outro veículo. Que horas?
- Duas horas.
- Vamos?
- Sim, vamos.


O menino que estava com a bola, bateu na parede azul e confirmou:
- Aqui está bom.
- Aqui também está cheio.
- Não tanto como nos outros lugares.
- Não temos espaço para chutar.
- A bola batendo na parede é gol, está bem?
- Ok.
- Eu fico no gol primeiro.
- Está bem.
O menino colocou a bola no chão, deu distância, se afastando de costas, pisou em falso numa pedra, não deu tempo de evitar e acabou caindo em cima do bolo de aniversário da pobre menina que começou a chorar.


Ele segurou a mão dela levando-a a se encostar na parede azul do banheiro.
- Escuta...
E em seguida a beijou intensamente.
- Você sabe como está difícil, não é?
- Sei.
- Então precisa ter mais paciência.
- Escuta branquela do meu coração. Te amo. Ouça o que te digo: TE AMO.
- Também te amo, negão.
- Não fale assim.
- Porque.
- Fico excitado e sou capaz de jogar você no chão e te co...
- Cala a boca, negão.
- Loirinha, eu sei o que está se passando, mas escuta, você é de maior de idade pode fazer o que quiser.
- Sim, eu sei. Gosto muito da minha família e me casando com você eles vão se distanciar de mim, e não vou vê-lo mais. Isso dói para caramba. Meu pai até me disse que não serei mais filha dele.
- Não acredito que ainda existe isso.
- Pois é.
- Ainda bem que não tenho pais, sou sozinho.
- Acho bom só casarmos no civil.
- Por mim, posso casar onde você quiser, até no inf...
- Para negão, não fale besteira.
- Está bem.
- Vamos embora.


- Será que ele está seguindo a gente?
- Não sei.
- Vamos parar aqui.
- Encostemos naquela parede azul.
- Atrás do banheiro?
- E daí?
- Lá vem ele.
- Não olhe.
- Passou.
- Vamos atrás dele.
- Opa!
- Você parou, não esperávamos que parasse.
- Estava seguindo vocês duas.
- Sabemos.
- Estão afim?
- Claro que estamos.
- Mas somos duas...
- Ah entendi, nada de três...
- Sim, somos meninas comportadas.
- Entendi. Estava com um amigo, vamos procurar por ele.
- Legal. Vamos então.


- Paremos aqui. Andamos o dia todo.
- Então sentemos perto da parede azul do banheiro.
- Certo.
- Quem estava em dúvida com o que falei?
- Eu.
- Porque?
- Como podemos ser ao mesmo tempo matéria e onda?
- A dupla fenda ela que nos diz isso.
- Se o átomo passar por uma fenda ele é matéria, se passar por duas fendas é onda, depende se olharmos para o átomo.
- Espere, se olhamos para um objeto ele é matéria, ele não vibra? Se não estivermos olhando-o está vibrando.
- Mais ou menos isso.
- Complicado?
- Parece.
- O átomo, se olharmos dentro dele, veremos que os elétrons e os prótons estão vibrando. Portanto quando há vibração há... onda. Certo?
- É acho que é.
- Nós somos o que então?
- Carne e osso...
- Somos onda porque somos feitos de átomos assim como todos os objetos, planta, parede azul...
- Quer dizer que tudo é onda?
- Sim. Estamos vibrando numa determinada onda de hertz.
- Pessoal, vamos embora?
- Que horas?
- Vinte.
- Vamos. Já estou cansado de andar e filosofar.


- Aqui?
- Sim aqui. Você prometeu.
- Os Lannister sempre pagam suas dívidas.
- Cala a boca, para com essa bobagem. Abaixa as calças.
- E se chegar alguém.
- Não vai chegar e o combinado foi de transarmos nos lugares mais inusitados, não foi?
- Foi. E aquele dia atrás da Biblioteca Municipal quase fomos presos.
- Vamos logo.
- Ei o que vocês dois estão fazendo?
- ...
- Mijando seu guarda.
- Atrás do banheiro azul?
- Ele já está fechado.
- Vamos, o parque está fechando.
- Está bem, estamos indo.
- Viu o que você fez?
- Pela primeira vez os Lannister não pagam sua dívida.
- Para de ser imbecil.


Aos poucos a parede azul do banheiro é engolida pela escuridão.


- Corta!
- Até que fim.
- O que foi, não gostou?
- Sinceramente...
- Ei onde vocês vão levar essa parede azul.
- Jogar fora.
- É foda cineasta brasileiro e sem dinheiro, não tem nem lugar para guardar o cenário. O que temos amanhã?
- Expansão da Luz.
- Não joguem a parede azul vamos precisar dela amanhã.
- Não vamos.
- Porque?
- Eles acharam um local.
- Onde?
- No Parque do Ibirapuera, atrás de um banheiro azul.
- Esse Expansão da Luz são aqueles doidos de mecânico não sei do que, onda, buraco profundo...
- Sim, eles mesmo, é mecânica quântica e vácuo quântico.
- Buraco e vácuo é tudo a mesma coisa.
- Não é não, buraco tem fim, é finito e vácuo quântico é infinito.
- O que um cineasta tem que passar para sobreviver.
- Escuta, posso dar uma opinião?
- Pode claro, você é meu assistente pra que?
- Esse filme que acabamos hoje não gostei.
- Porque?
- Não sei, achei fraco, principalmente na cena dos peripatéticos.
- Eu gostei.
- Então. Os caras da Expansão da Luz não querem nada de extraordinário, apenas que registre o encontro, simples. Então não precisamos levar toda a parafernália, levamos apenas a câmara e o microfone, e você capricha nas tomadas, nos ângulos inusitados, nas falas e ao invés de colocar Atrás do banheiro azul no festival, coloca esse com os doidos da Expansão da Luz.
- Olha até que é uma boa ideia. Hoje à noite farei um roteiro caprichado.
- É isso aí.
- Até amanhã, estrupício.
- Até amanhã, estrupício mor.

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