Olhou por cima do
ombro do namorado e disse:
- Esse azul.
- O que tem o azul?
- perguntou o namorado virando a cabeça.
- É o tom que você
gosta.
- Sim, mas está
sujo, desbotado, malcuidado.
- É verdade.
- Lembra quando nos
conhecemos?
- Sim, como posso
esquecer.
- Aquele azul
intenso parecia brilhar mais que o sol.
- E você registrou
aquele momento numa foto espetacular.
- Que agora está
pendurado no seu quarto. Sempre gostou do azul.
- Sim, desde pequeno.
- Cor do mar,
tranquilidade, paz...
- Até pensei em
fazer um estudo sobre essa cor...
- Na Índia se não me
engano representa luto.
- Em cada país
representa uma coisa.
- Que horas?
- Meio dia.
- Está na hora,
vamos, você prometeu.
- Não sou um
Lannister, mas pago minhas dívidas.
- Está assistindo
essa porcaria ainda?
- Game of thrones?
- Claro, o que mais
poderia ser.
- Sim, estou, sabe
que esse seriado é um dos melhores... falta uma temporada para terminar.
- Até que enfim.
Eles chegaram, eram
mais ou menos umas dez pessoas.
- É aqui?
- Sim porque?
- Atrás do banheiro
azul.
- Das outras vezes
ficamos aqui também, não tão perto do banheiro, mais perto daquelas árvores.
- Mas veja. O lugar
está ocupado pelo que parece ser uma família.
- O parque está
movimentado hoje.
- Nem parece que
estamos no inverno, olha o sol! Por isso que o parque está cheio.
- Vamos para outro
lugar?
- Não vamos ficar
aqui.
- Acho melhor irmos
para outro lugar.
- Porque?
- Olhe.
- Uma camisinha?
- E povo porco.
- Isso é vida.
- Sujeira?
- Também.
- Se formos para
outro lugar temos que avisar o pessoal que não chegaram.
- Não deixe de
avisar o Cronista.
- Ele vai ser o
primeiro, não quero ficar sem a crônica dele.
- Alô.
- Alô.
- Onde você está?
- Na Brigadeiro
ainda.
- Vai demorar a
chegar.
- Acho que sim,
houve um acidente com um carro e um ônibus... nâo, não com outro ônibus, o
carro e o ônibus estão atravessados na avenida, entende?
- Entendo. Olha
estamos mudando de local, certo? Porque? Depois te falo. Assim que chegar no
Parque me liga para te passar onde vamos ficar. Não, não vamos ficar mais atrás
do banheiro azul. Ok. Até mais.
- O que houve?
- Ele está preso num
acidente.
- Com ele?
- Não com outro
veículo. Que horas?
- Duas horas.
- Vamos?
- Sim, vamos.
O menino que estava
com a bola, bateu na parede azul e confirmou:
- Aqui está bom.
- Aqui também está
cheio.
- Não tanto como nos
outros lugares.
- Não temos espaço
para chutar.
- A bola batendo na
parede é gol, está bem?
- Ok.
- Eu fico no gol
primeiro.
- Está bem.
O menino colocou a
bola no chão, deu distância, se afastando de costas, pisou em falso numa pedra,
não deu tempo de evitar e acabou caindo em cima do bolo de aniversário da pobre
menina que começou a chorar.
Ele segurou a mão
dela levando-a a se encostar na parede azul do banheiro.
- Escuta...
E em seguida a
beijou intensamente.
- Você sabe como
está difícil, não é?
- Sei.
- Então precisa ter
mais paciência.
- Escuta branquela
do meu coração. Te amo. Ouça o que te digo: TE AMO.
- Também te amo,
negão.
- Não fale assim.
- Porque.
- Fico excitado e
sou capaz de jogar você no chão e te co...
- Cala a boca,
negão.
- Loirinha, eu sei o
que está se passando, mas escuta, você é de maior de idade pode fazer o que
quiser.
- Sim, eu sei. Gosto
muito da minha família e me casando com você eles vão se distanciar de mim, e
não vou vê-lo mais. Isso dói para caramba. Meu pai até me disse que não serei
mais filha dele.
- Não acredito que
ainda existe isso.
- Pois é.
- Ainda bem que não
tenho pais, sou sozinho.
- Acho bom só
casarmos no civil.
- Por mim, posso
casar onde você quiser, até no inf...
- Para negão, não fale
besteira.
- Está bem.
- Vamos embora.
- Será que ele está
seguindo a gente?
- Não sei.
- Vamos parar aqui.
- Encostemos naquela
parede azul.
- Atrás do banheiro?
- E daí?
- Lá vem ele.
- Não olhe.
- Passou.
- Vamos atrás dele.
- Opa!
- Você parou, não
esperávamos que parasse.
- Estava seguindo
vocês duas.
- Sabemos.
- Estão afim?
- Claro que estamos.
- Mas somos duas...
- Ah entendi, nada
de três...
- Sim, somos meninas
comportadas.
- Entendi. Estava
com um amigo, vamos procurar por ele.
- Legal. Vamos
então.
- Paremos aqui.
Andamos o dia todo.
- Então sentemos
perto da parede azul do banheiro.
- Certo.
- Quem estava em
dúvida com o que falei?
- Eu.
- Porque?
- Como podemos ser
ao mesmo tempo matéria e onda?
- A dupla fenda ela
que nos diz isso.
- Se o átomo passar
por uma fenda ele é matéria, se passar por duas fendas é onda, depende se
olharmos para o átomo.
- Espere, se olhamos
para um objeto ele é matéria, ele não vibra? Se não estivermos olhando-o está
vibrando.
- Mais ou menos
isso.
- Complicado?
- Parece.
- O átomo, se
olharmos dentro dele, veremos que os elétrons e os prótons estão vibrando.
Portanto quando há vibração há... onda. Certo?
- É acho que é.
- Nós somos o que
então?
- Carne e osso...
- Somos onda porque
somos feitos de átomos assim como todos os objetos, planta, parede azul...
- Quer dizer que
tudo é onda?
- Sim. Estamos
vibrando numa determinada onda de hertz.
- Pessoal, vamos
embora?
- Que horas?
- Vinte.
- Vamos. Já estou
cansado de andar e filosofar.
- Aqui?
- Sim aqui. Você
prometeu.
- Os Lannister
sempre pagam suas dívidas.
- Cala a boca, para
com essa bobagem. Abaixa as calças.
- E se chegar
alguém.
- Não vai chegar e o
combinado foi de transarmos nos lugares mais inusitados, não foi?
- Foi. E aquele dia
atrás da Biblioteca Municipal quase fomos presos.
- Vamos logo.
- Ei o que vocês
dois estão fazendo?
- ...
- Mijando seu
guarda.
- Atrás do banheiro
azul?
- Ele já está
fechado.
- Vamos, o parque
está fechando.
- Está bem, estamos
indo.
- Viu o que você
fez?
- Pela primeira vez
os Lannister não pagam sua dívida.
- Para de ser
imbecil.
Aos poucos a parede
azul do banheiro é engolida pela escuridão.
- Corta!
- Até que fim.
- O que foi, não
gostou?
- Sinceramente...
- Ei onde vocês vão
levar essa parede azul.
- Jogar fora.
- É foda cineasta
brasileiro e sem dinheiro, não tem nem lugar para guardar o cenário. O que
temos amanhã?
- Expansão da Luz.
- Não joguem a
parede azul vamos precisar dela amanhã.
- Não vamos.
- Porque?
- Eles acharam um
local.
- Onde?
- No Parque do
Ibirapuera, atrás de um banheiro azul.
- Esse Expansão da
Luz são aqueles doidos de mecânico não sei do que, onda, buraco profundo...
- Sim, eles mesmo, é
mecânica quântica e vácuo quântico.
- Buraco e vácuo é
tudo a mesma coisa.
- Não é não, buraco
tem fim, é finito e vácuo quântico é infinito.
- O que um cineasta
tem que passar para sobreviver.
- Escuta, posso dar
uma opinião?
- Pode claro, você é
meu assistente pra que?
- Esse filme que
acabamos hoje não gostei.
- Porque?
- Não sei, achei
fraco, principalmente na cena dos peripatéticos.
- Eu gostei.
- Então. Os caras da
Expansão da Luz não querem nada de extraordinário, apenas que registre o
encontro, simples. Então não precisamos levar toda a parafernália, levamos
apenas a câmara e o microfone, e você capricha nas tomadas, nos ângulos
inusitados, nas falas e ao invés de colocar Atrás do banheiro azul no festival,
coloca esse com os doidos da Expansão da Luz.
- Olha até que é uma
boa ideia. Hoje à noite farei um roteiro caprichado.
- É isso aí.
- Até amanhã,
estrupício.
- Até amanhã,
estrupício mor.
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