terça-feira, 17 de março de 2020

Como é bom estar entre loucos!


- Encontro Quântico?
- Sim.
- O que é isso?
- São estudantes da Mecânica Quântica que se reúnem para debater, se esclarecerem, se iluminarem.
- Eu hein! Mecânica Quântica?! Debater, estudar, não sou louco.
- Vamos?
- E perder o jogo da Copa! Ocê pirou na batatinha né não!
- Ok bom jogo para você então.
- Vai doido encontrar tua turma.
E assim, no domingo acordei antes das noves e, pela decima vez consultei o Google Map e localizei o endereço. A sorte que alguém um dia antes dissera no WhatsApp que ao chegar na Estação do Metrô Mariana, deveria virar à direita e pegar a saída para a Rua Domingos de Morais. O que não foi difícil. Até aí não houve dificuldade. A dificuldade foi calcular o tempo que levaria da minha casa até o Espaço Niss, na Rua Capitão Cavalcante. E a manhã toda fiquei pensando que horas sairia para não chegar muito cedo, pois minha ansiedade me faz sempre ser o primeiro a chegar aos encontros, sejam eles quais forem. Portanto calculei um horário e ao meio dia e quarenta e cinco sai. Subi a Avenida Aliança, até a Avenida Cangaíba e peguei o ônibus Metrô Penha. Nem vinte minutos depois descia na plataforma do metrô e depois de uma baldeação na Sé, tomei o que ia para a Estação Mariana. No trajeto da Sé para Mariana, entrou no trem um senhor guiando um cadeirante solicitando ajuda. Lamuriando dizia que a pessoa não podia se mexer, precisava de ajuda para tudo, até para ficar sentado era necessário amarrar o coitado, que sozinho, não tinha ninguém que o ajudasse... Aí mentalmente pensei: e como você está ajudando, nesse caso tem você. Passaram por mim e na estação seguinte desceram. Foi fácil achar a Capitão Cavalcante, uma rua estreita, com diversas casas até que atraentes. O cento e setenta e um ficava bem no termino da descida que não era muito grande. A casa, pois era o que parecia, se não me engano, amarela, com dois portões, um grande para carro e um pequeno. Tentei o grande estava fechado, o pequeno também, mas tinha um interfone que ao pressionar foi destravado. Entrei e perguntei para o senhor sentado atrás da mesa numa pequena sala.
- Encontro Quântico...
- Lá embaixo.
- Obrigado.
Desci uma pequena rampa e a primeira pessoa que me cumprimentou foi a sorridente e bonita Ariadne:
- Olá, Osvaldo, você veio, que bom.
- Olá, tudo bom.
- Fique à vontade, estamos dando os últimos preparos para o encontro.
- Cheguei cedo, não é?
- Não tem problema. Se quiser subir e esperar lá em cima a vontade.
- Ok, vou esperar lá em cima então.
- Ah, vem cá. Coloque isso, seu nome.
E me deu um pedaço de papel adesivo com meu nome que eu coloquei na camisa. Bem pensado isso, evita de perguntar:
- Oi como é seu nome? Sou Osvaldo, prazer.
Assim a pessoa já chega:
- Olá, Osvaldo tudo bem?
- Tudo bem, Gerusa.
Entrei no ambiente e estavam três pessoas dando os ajustes das músicas que iriam apresentar. Me desculpe, mas não lembro o nome do rapaz que estava na percussão, a Nina num violão e o João Cássio em outro cantavam. Fiz um pequeno cumprimento para o João e fui me sentar nas últimas fileiras, não gosto de ficar em evidência. Depois de uns cinco minutos troquei de cadeira e sentei encostado na parede quase embaixo do ar condicionado. Assim que acabou os ensaios João veio me cumprimentar:
- Olá, Osvaldo, tudo bem?
- Tudo bem, e você? Não sabia que estavam ensaiando.
- Que isso. Senta-se mais na frente.
- Aqui está bom.
- Ah! Gosta do fundão.
Ri e ele pediu licença e saiu. As pessoas foram chegando, se cumprimentando e se sentando. Notei que a presença feminina era maior, homem não gosta dessas coisas de louco, não é. Dali a pouco, a Mariane empunhando o microfone anunciou a primeira atração, uma meditação sob a batuta do Mestre João Cássio deixando o ambiente e as pessoas conectadas com o que seria apresentado ali. Depois, Mariane anunciou o estudo do livro Mentes in-informadas – penso que seja isso, perdoe se estou errado -, apresentada pela Adriana que com sua voz iluminada explicou vários itens como paradigma, auto sabotagem, arquétipos e outros itens relevantes para expandir da luz.
Depois a Taróloga e Terapeuta Maat Menkeru numa desenvoltura de fazer inveja ao tímido mais tímido, discorreu sobre seus estudos e como ela se formou em taróloga, terapeuta e reprogramadora mental. Assim que a Maat terminou seu depoimento, foi anunciado que embaixo das cadeiras tinha algo que era para nós. De repente estavam todos eufóricos em achar o que diziam ser para nós, e encontramos uma tira de papel com uma palavra. A minha estava escrito CARIDADE, assim que li me veio à mente o cadeirante no metrô e, era para trocarmos o papel com a pessoa ao lado e abraçarmos. Como o rapaz que estava ao meu lado, trocou o seu com a pessoa a frente dele, eu troquei o meu e abracei a Nina que sentara atrás de mim e, coincidência ou não, no papel dela estava escrito AMIZADE, palavra que eu escolhi no piquenique quântico.
- Pensei que você fosse o dono do local ao ver sentado aqui, disse Nina ao me abraçar.
- Não. É que cheguei cedo mesmo e desculpe se atrapalhei o ensaio.
- Não atrapalhou nada.
Se não estou engando, em seguida foi o coffee break. Porque usar termos inglês: coffee break, para mim é intervalo para o café. E vou dizer uma coisa, estava perfeitamente caprichado, café, chá, suco, sanduiches, e agradáveis conversas, uma pausa para nos conhecermos um ao outro. E uma descoberta surpreendente: Adriana poeta. Pendurados por vários lugares diversos poemas da Adriana com profundo conteúdo quântico, muito bons. Terminado o intervalo para o café, subimos para ouvirmos a palestra final, talvez a mais esperada até o momento, onde o casal simpático Marli Fabreti e Ricardo Maraia falaram sobre Relacionamento e o amor quântico, esclarecendo e informando as dúvidas e questões amorosas com argumentos sólidos e exemplos vivenciados por eles. E por fim, a apresentação da bela Nina com suas composições e canções levando o pessoal a dançar. Assim, passei mais um domingo doido entre loucos e queridos. Após o que me despedi de todos e comecei meu caminho inverso, isto é, subi a Capitão Cavalcanti, tomei o metrô e novamente fui surpreendido por um pedinte. Um senhor de mais ou menos, quarenta anos, com uma máscara no rosto, e um bolsa cirúrgica pendurada na cintura, mostrando um pouco sua barriga pedindo ajuda, dizia estar com câncer e que não tinha como viver. Olhei para ele com um pouco de indignação e lembrei da palavra que tinha pegado embaixo da cadeira: CARIDADE. Fiquei matutando sobre isso, caridade, tenho que fazer caridade era o que as circunstâncias estava me dizendo. Mas como se ainda não me julgo, não caridoso, sou caridoso, mas não ao extremo, digno de fazer caridade, pois já me aconteceram tantas coisas em relação a pedintes que... acho que por isso me travo, como por exemplo: trabalhava no Conjunto Nacional e um dia vendo a vitrine da Livraria Cultura uma senhora segurando uma criança pela mão, cutucou meu ombro. Estavam até que bem arrumados.
- Por favor, poderia ajudar, viemos de longe para fazer um exame no meu filho e não tenho dinheiro para voltar, qualquer coisa que puder dar, dinheiro, ticket restaurante, estamos o dia inteiro sem comer.
Estava levando a mão na carteira, quando desisti.
- Sinto muito, minha senhora, não tenho.
Ela agradeceu e foi embora. Dias depois, não sei quantos dias, essa mesma senhora, com o mesmo menino, cutucou o meu ombro. Me virei e quando a vi eu disse:
- Como! Ainda não conseguiu voltar para a sua cidade?
Ela ficou vermelha me reconhecendo, virou as costas e foi embora rapidamente. E talvez, também, por coisas que ouço:
- “Fulano vivia mendigando e descobriram que ele tinha carro e mansão do outro lado da cidade”. “Você viu aquela velhinha que vivia pedindo esmola na estação? Então quando ela morreu acharam um monte de dinheiro embaixo do colchão dela”. E por aí a fora. Sei que um dia vou romper esse travamento... Chegando na plataforma da Sé, na linha vermelha presenciei um fato inusitado.
Não o fato em si, mas pelos dois rapazes, bem se é que posso chamar de rapazes, não sei. Acho que não tinham nem doze anos ou quatorze anos, eles batiam no meio do tórax, aos beijos e abraços numa boa, não estavam nem aí.
Já vi duas lésbicas nessa mesma plataforma, já vi gays, mas não aos beijos como estavam aqueles dois. A primeira coisa que veio à mente foi se trombassem com algum homofóbico o que aconteceria. Bem, sentei-me e cai numa modorra e quando vi já estava no meu destino.
E assim, passei um belo domingo entre loucos queridos.

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