- Encontro Quântico?
- Sim.
- O que é isso?
- São estudantes da Mecânica Quântica que se
reúnem para debater, se esclarecerem, se iluminarem.
- Eu hein! Mecânica Quântica?! Debater,
estudar, não sou louco.
- Vamos?
- E perder o jogo da Copa! Ocê pirou na
batatinha né não!
- Ok bom jogo para você então.
- Vai doido encontrar tua turma.
E assim, no domingo acordei antes das noves e,
pela decima vez consultei o Google Map e localizei o endereço. A sorte que
alguém um dia antes dissera no WhatsApp que ao chegar na Estação do Metrô
Mariana, deveria virar à direita e pegar a saída para a Rua Domingos de Morais.
O que não foi difícil. Até aí não houve dificuldade. A dificuldade foi calcular
o tempo que levaria da minha casa até o Espaço Niss, na Rua Capitão Cavalcante.
E a manhã toda fiquei pensando que horas sairia para não chegar muito cedo,
pois minha ansiedade me faz sempre ser o primeiro a chegar aos encontros, sejam
eles quais forem. Portanto calculei um horário e ao meio dia e quarenta e cinco
sai. Subi a Avenida Aliança, até a Avenida Cangaíba e peguei o ônibus Metrô
Penha. Nem vinte minutos depois descia na plataforma do metrô e depois de uma
baldeação na Sé, tomei o que ia para a Estação Mariana. No trajeto da Sé para
Mariana, entrou no trem um senhor guiando um cadeirante solicitando ajuda. Lamuriando
dizia que a pessoa não podia se mexer, precisava de ajuda para tudo, até para
ficar sentado era necessário amarrar o coitado, que sozinho, não tinha ninguém
que o ajudasse... Aí mentalmente pensei: e como você está ajudando, nesse caso
tem você. Passaram por mim e na estação seguinte desceram. Foi fácil achar a
Capitão Cavalcante, uma rua estreita, com diversas casas até que atraentes. O
cento e setenta e um ficava bem no termino da descida que não era muito grande.
A casa, pois era o que parecia, se não me engano, amarela, com dois portões, um
grande para carro e um pequeno. Tentei o grande estava fechado, o pequeno
também, mas tinha um interfone que ao pressionar foi destravado. Entrei e
perguntei para o senhor sentado atrás da mesa numa pequena sala.
- Encontro Quântico...
- Lá embaixo.
- Obrigado.
Desci uma pequena rampa e a primeira pessoa que
me cumprimentou foi a sorridente e bonita Ariadne:
- Olá, Osvaldo, você veio, que bom.
- Olá, tudo bom.
- Fique à vontade, estamos dando os últimos
preparos para o encontro.
- Cheguei cedo, não é?
- Não tem problema. Se quiser subir e esperar
lá em cima a vontade.
- Ok, vou esperar lá em cima então.
- Ah, vem cá. Coloque isso, seu nome.
E me deu um pedaço de papel adesivo com meu
nome que eu coloquei na camisa. Bem pensado isso, evita de perguntar:
- Oi como é seu nome? Sou Osvaldo, prazer.
Assim a pessoa já chega:
- Olá, Osvaldo tudo bem?
- Tudo bem, Gerusa.
Entrei no ambiente e estavam três pessoas dando
os ajustes das músicas que iriam apresentar. Me desculpe, mas não lembro o nome
do rapaz que estava na percussão, a Nina num violão e o João Cássio em outro
cantavam. Fiz um pequeno cumprimento para o João e fui me sentar nas últimas
fileiras, não gosto de ficar em evidência. Depois de uns cinco minutos troquei
de cadeira e sentei encostado na parede quase embaixo do ar condicionado. Assim
que acabou os ensaios João veio me cumprimentar:
- Olá, Osvaldo, tudo bem?
- Tudo bem, e você? Não sabia que estavam
ensaiando.
- Que isso. Senta-se mais na frente.
- Aqui está bom.
- Ah! Gosta do fundão.
Ri e ele pediu licença e saiu. As pessoas foram
chegando, se cumprimentando e se sentando. Notei que a presença feminina era
maior, homem não gosta dessas coisas de louco, não é. Dali a pouco, a Mariane
empunhando o microfone anunciou a primeira atração, uma meditação sob a batuta
do Mestre João Cássio deixando o ambiente e as pessoas conectadas com o que
seria apresentado ali. Depois, Mariane anunciou o estudo do livro Mentes in-informadas
– penso que seja isso, perdoe se estou errado -, apresentada pela Adriana que
com sua voz iluminada explicou vários itens como paradigma, auto sabotagem,
arquétipos e outros itens relevantes para expandir da luz.
Depois a Taróloga e Terapeuta Maat Menkeru numa
desenvoltura de fazer inveja ao tímido mais tímido, discorreu sobre seus
estudos e como ela se formou em taróloga, terapeuta e reprogramadora mental. Assim
que a Maat terminou seu depoimento, foi anunciado que embaixo das cadeiras
tinha algo que era para nós. De repente estavam todos eufóricos em achar o que
diziam ser para nós, e encontramos uma tira de papel com uma palavra. A minha
estava escrito CARIDADE, assim que li me veio à mente o cadeirante no metrô e,
era para trocarmos o papel com a pessoa ao lado e abraçarmos. Como o rapaz que
estava ao meu lado, trocou o seu com a pessoa a frente dele, eu troquei o meu e
abracei a Nina que sentara atrás de mim e, coincidência ou não, no papel dela
estava escrito AMIZADE, palavra que eu escolhi no piquenique quântico.
- Pensei que você fosse o dono do local ao ver
sentado aqui, disse Nina ao me abraçar.
- Não. É que cheguei cedo mesmo e desculpe se
atrapalhei o ensaio.
- Não atrapalhou nada.
Se não estou engando, em seguida foi o coffee
break. Porque usar termos inglês: coffee break, para mim é intervalo para o
café. E vou dizer uma coisa, estava perfeitamente caprichado, café, chá, suco,
sanduiches, e agradáveis conversas, uma pausa para nos conhecermos um ao outro.
E uma descoberta surpreendente: Adriana poeta. Pendurados por vários lugares
diversos poemas da Adriana com profundo conteúdo quântico, muito bons.
Terminado o intervalo para o café, subimos para ouvirmos a palestra final,
talvez a mais esperada até o momento, onde o casal simpático Marli Fabreti e
Ricardo Maraia falaram sobre Relacionamento e o amor quântico, esclarecendo e
informando as dúvidas e questões amorosas com argumentos sólidos e exemplos
vivenciados por eles. E por fim, a apresentação da bela Nina com suas
composições e canções levando o pessoal a dançar. Assim, passei mais um domingo
doido entre loucos e queridos. Após o que me despedi de todos e comecei meu
caminho inverso, isto é, subi a Capitão Cavalcanti, tomei o metrô e novamente
fui surpreendido por um pedinte. Um senhor de mais ou menos, quarenta anos, com
uma máscara no rosto, e um bolsa cirúrgica pendurada na cintura, mostrando um
pouco sua barriga pedindo ajuda, dizia estar com câncer e que não tinha como
viver. Olhei para ele com um pouco de indignação e lembrei da palavra que tinha
pegado embaixo da cadeira: CARIDADE. Fiquei matutando sobre isso, caridade,
tenho que fazer caridade era o que as circunstâncias estava me dizendo. Mas
como se ainda não me julgo, não caridoso, sou caridoso, mas não ao extremo,
digno de fazer caridade, pois já me aconteceram tantas coisas em relação a
pedintes que... acho que por isso me travo, como por exemplo: trabalhava no
Conjunto Nacional e um dia vendo a vitrine da Livraria Cultura uma senhora
segurando uma criança pela mão, cutucou meu ombro. Estavam até que bem
arrumados.
- Por favor, poderia ajudar, viemos de longe
para fazer um exame no meu filho e não tenho dinheiro para voltar, qualquer
coisa que puder dar, dinheiro, ticket restaurante, estamos o dia inteiro sem
comer.
Estava levando a mão na carteira, quando
desisti.
- Sinto muito, minha senhora, não tenho.
Ela agradeceu e foi embora. Dias depois, não
sei quantos dias, essa mesma senhora, com o mesmo menino, cutucou o meu ombro.
Me virei e quando a vi eu disse:
- Como! Ainda não conseguiu voltar para a sua
cidade?
Ela ficou vermelha me reconhecendo, virou as
costas e foi embora rapidamente. E talvez, também, por coisas que ouço:
- “Fulano vivia mendigando e descobriram que
ele tinha carro e mansão do outro lado da cidade”. “Você viu aquela velhinha
que vivia pedindo esmola na estação? Então quando ela morreu acharam um monte
de dinheiro embaixo do colchão dela”. E por aí a fora. Sei que um dia vou
romper esse travamento... Chegando na plataforma da Sé, na linha vermelha
presenciei um fato inusitado.
Não o fato em si, mas pelos dois rapazes, bem
se é que posso chamar de rapazes, não sei. Acho que não tinham nem doze anos ou
quatorze anos, eles batiam no meio do tórax, aos beijos e abraços numa boa, não
estavam nem aí.
Já vi duas lésbicas nessa mesma plataforma, já
vi gays, mas não aos beijos como estavam aqueles dois. A primeira coisa que
veio à mente foi se trombassem com algum homofóbico o que aconteceria. Bem, sentei-me
e cai numa modorra e quando vi já estava no meu destino.
E assim, passei um belo domingo entre loucos
queridos.
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