segunda-feira, 20 de abril de 2020

Contos surrealistas 154


O amigo

Suportou com reprovação o olhar duro e inquisidor da enfermeira. Não lhe deu satisfação, pegou as chaves do carro e, ao entrar no elevador, verificou que estava atrasado. Fazer o que! Não aguentava ficar preso com um doente que não o reconhecia. Isso não quer dizer que não o amava, claro que o amava, com toda a força do coração, o que não podia era morrer junto com ele. E ao deixar sozinho não significava desdém ou falta de amor ou outra coisa que pudesse passar pela cabeça da enfermeira. Afinal fora contratada para que? Além do mais, Valter o fizera prometer que não se prendesse com o avançar da doença. Fosse viver a vida, não foi isso que prometeram um para o outro, viver a vida. Portanto, nada de remorso ou complexo de culpa.
Girou a chave na ignição, deu um pequeno arranco, e subiu a pequena rampa da garagem. Passou pelo segurança que, provavelmente, assim como a enfermeira, deve ter pensado horrores. Que se dane! Cuidem de suas vidas que é o melhor que fazem, disse ao entrar na pequena rua ladeando o edifício. Que se danem todos. Pisou no acelerador, assim que o sinal ficou verde, e, decidido tomou a via expressa.

- Boa noite. Desculpe o atraso.
- Boa noite. Que isso! Valter está melhor?
- Está na mesma. Onde eu sento?
- Fique a vontade...
- Obrigado.
Cansado foi obrigado a admitir. Estava cansado de tudo, dele próprio, de Valter, doença, obrigações, remédios, médicos, vozes, bebidas, comida, de sexo, da falta de sexo, de estar ali querendo estar em outro lugar e, quando estava em outro lugar queria estar ali, enfim, um cansaço enfadonho reconheceu. Nisso, uma voz se fez ouvir a sua direita.
- Parece que está aborrecido.
- Como?
- É aborrecido, cansado, como se estivesse em outro lugar e não aqui.
Foi então que percebeu. Sentara ao lado de um rapaz moreno, cabelos pretos, testa larga, olhos claros acastanhados, nariz pequeno em confronto com os lábios finos, olhando-o diretamente nos olhos.
- Desculpe se o aborreço.
- Não, nada disso. Apenas espantado.
- Adivinhei?
- Parece que sim.
Sim, adivinhara, como? Estava transparente demais? Não sabia disfarçar o que se passava dentro dele. Reconheceu a fraqueza. Tinha que erguer o escudo, se fortalecer, não deveria ser fraco tanto assim. No entanto, ali estava ouvindo palavras conhecidas na voz de um desconhecido. Colocaram um peso sobre ele que não conseguia levantar, sair dali, parar de ouvir a voz desconhecida. Por outro lado, algo na voz daquele sujeito trazia uma espécie de conforto, de leveza, de suavidade, ao ponto de chegar a dizer:
- Vamos sair daqui, está muito barulho.
- Está certo, vamos.

Eram mais de sete horas quando abria o portão do prédio sob o olhar interrogador do porteiro. Estacionou o carro, pegou o elevador e o espelho refletiu outro ele que o deixou satisfeito. Abriu a porta do apartamento, encontrou a enfermeira dormindo no sofá. Dirigiu-se ao quarto, Valter também dormia profundamente. Sentou na beirada da cama e ao pegar na mão do companheiro notou a rigidez fria da morte.
Na cozinha, sem nenhum arrependimento, tomou uma longa doze de uísque. Quinze minutos depois, se preparou para oferecer ao amigo um digno enterro.

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