O amigo
Suportou com reprovação o olhar duro e inquisidor da
enfermeira. Não lhe deu satisfação, pegou as chaves do carro e, ao entrar no
elevador, verificou que estava atrasado. Fazer o que! Não aguentava ficar preso
com um doente que não o reconhecia. Isso não quer dizer que não o amava, claro
que o amava, com toda a força do coração, o que não podia era morrer junto com
ele. E ao deixar sozinho não significava desdém ou falta de amor ou outra coisa
que pudesse passar pela cabeça da enfermeira. Afinal fora contratada para que?
Além do mais, Valter o fizera prometer que não se prendesse com o avançar da
doença. Fosse viver a vida, não foi isso que prometeram um para o outro, viver
a vida. Portanto, nada de remorso ou complexo de culpa.
Girou a chave na ignição, deu um pequeno arranco, e
subiu a pequena rampa da garagem. Passou pelo segurança que, provavelmente,
assim como a enfermeira, deve ter pensado horrores. Que se dane! Cuidem de suas
vidas que é o melhor que fazem, disse ao entrar na pequena rua ladeando o
edifício. Que se danem todos. Pisou no acelerador, assim que o sinal ficou
verde, e, decidido tomou a via expressa.
- Boa noite. Desculpe o atraso.
- Boa noite. Que isso! Valter está melhor?
- Está na mesma. Onde eu sento?
- Fique a vontade...
- Obrigado.
Cansado foi obrigado a admitir. Estava cansado de
tudo, dele próprio, de Valter, doença, obrigações, remédios, médicos, vozes,
bebidas, comida, de sexo, da falta de sexo, de estar ali querendo estar em
outro lugar e, quando estava em outro lugar queria estar ali, enfim, um cansaço
enfadonho reconheceu. Nisso, uma voz se fez ouvir a sua direita.
- Parece que está aborrecido.
- Como?
- É aborrecido, cansado, como se estivesse em outro
lugar e não aqui.
Foi então que percebeu. Sentara ao lado de um rapaz
moreno, cabelos pretos, testa larga, olhos claros acastanhados, nariz pequeno
em confronto com os lábios finos, olhando-o diretamente nos olhos.
- Desculpe se o aborreço.
- Não, nada disso. Apenas espantado.
- Adivinhei?
- Parece que sim.
Sim, adivinhara, como? Estava transparente demais? Não
sabia disfarçar o que se passava dentro dele. Reconheceu a fraqueza. Tinha que
erguer o escudo, se fortalecer, não deveria ser fraco tanto assim. No entanto,
ali estava ouvindo palavras conhecidas na voz de um desconhecido. Colocaram um
peso sobre ele que não conseguia levantar, sair dali, parar de ouvir a voz
desconhecida. Por outro lado, algo na voz daquele sujeito trazia uma espécie de
conforto, de leveza, de suavidade, ao ponto de chegar a dizer:
- Vamos sair daqui, está muito barulho.
- Está certo, vamos.
Eram mais de sete horas quando abria o portão do
prédio sob o olhar interrogador do porteiro. Estacionou o carro, pegou o
elevador e o espelho refletiu outro ele que o deixou satisfeito. Abriu a porta
do apartamento, encontrou a enfermeira dormindo no sofá. Dirigiu-se ao quarto,
Valter também dormia profundamente. Sentou na beirada da cama e ao pegar na mão
do companheiro notou a rigidez fria da morte.
Na cozinha, sem nenhum arrependimento, tomou uma longa
doze de uísque. Quinze minutos depois, se preparou para oferecer ao amigo um
digno enterro.
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