sábado, 18 de abril de 2020

Contos surrealistas 156


Usado

Edgar estava no décimo copo e não via probabilidade alguma de acontecer algo que o fizesse permanecer na festa. Deveria ter ficado em casa, pensou. Nisso foi empurrado para dentro do banheiro e sentiu-se beijado não dando chance para que revidasse.
- Desculpe. Preciso dar uma mijada disse o estranho.
Quieto encostado á porta, Edgar viu que Álvaro presenciara tudo. Porra! La vem cena de ciúmes, pensou.
Edgar e Álvaro se conheceram numa boate em que frequentavam uma vez por mês. Cruzando entre os corredores e os ambientes, numa dança aqui, outra ali, descobriram afinidades e decidiram morar juntos. E agora, depois de cinco anos, talvez estivesse na hora de terminarem.
Com o copo pela metade, indeciso, tomado por sentimento de culpa, olhava para o rosto de Álvaro esperando que lhe dissesse alguma coisa. Talvez, uma reprimenda por presenciar a cena do beijo. Afinal o beijo não representava nada para ele, mas sabia que para o ciumento do namorado fora o cúmulo da infidelidade, por outro lado, não adiantaria nada dizer que não fora ele quem beijou e, sim, foi beijado, não houve reciprocidade.  
Na verdade Álvaro não estava preocupado ao ver o namorado beijando outro homem, aliás, tudo fazia parte de uma trama, pois não tinha coragem em romper com Edgar. Vinha saindo às escondidas com Cristiano há algum tempo acabando por se apaixonarem. Fossem onde fossem, à surdina, evitando que Edgar o visse, Cristiano estava onde eles estavam com a finalidade de, um pequeno acidente, causar ciúmes e assim provocar a separação entre eles. A princípio Cristiano não topou o plano de Edgar, porém, como a paixão sendo mais forte, e só o fato da aventura acabou cedendo. E, ao que tudo indicava, essa foi à noite decisiva.
A festa estava bastante animada, o que era uma característica da Arlete. Trabalhando como promotora em eventos, tanto restrito como em shows, sabia promover festa decente, e as festas da Arlete eram de arrasar quarteirão, como dizia os amigos. Edgar quase não perdia uma, claro desde que fosse convidado, e quando Arlete convidava não podia recusar para não correr o risco de perder a amizade. Havia um lema: tudo o que Arlete pede, quer ou ordena deve ser cumprida. E assim era. Por isso ao serem puxados pela mão não fizeram objeção nenhuma e, obedientes foram apresentados à Lucia e Cida.
Lucia e Cida conhecidas por uma produção artística muito elevada precisavam de uma pessoa de confiança para o projeto que estavam elaborando. Sabendo das qualidades intelectuais e produtivas de Edgar, o contrataram para trabalhar com elas. Edgar como queria pensar na sua relação com Álvaro, aceitou o serviço e passou três anos viajando por vários lugares, coletando, analisando as fotos de Lucia e organizando textos para a edição do livro.
Sendo o trabalho árduo passou a conviver intimamente lada a lado com Lucia quase todos os dias e, também logo a publicação do livro, estavam constantemente dando entrevistas em jornais, revistas e televisão. Corria o boato que estavam noivos, o casamento seria breve e outras fofocas que nenhum dos dois desmentiam. Até a briga e o quase rompimento entre Lucia e Cida, foi alvo das fofocas a ponto de mencionarem o relacionamento sexual entre eles. No mesmo instante em que o contrato acabou Edgar retornava.
Cansado da correia, das bajulações, Edgar estava contente em voltar, apenas ignorava como seria recebido pelos amigos e, principalmente pela cidade. Ele que mudou ou foi à cidade que mudou, era a sua pergunta enquanto o taxi corria pelas ruas. Não era pretencioso a ponto de procurar Álvaro, soubera da sua união com Cristiano, portanto deveria esquecer e começar do zero, o que era desgastante. Aos poucos foi ajustando os sentimentos, se enfurnou no trabalho que nem lembrava mais de Álvaro, Lucia e Cida e, muito menos livro...
Por isso foi com espanto que, ao ser tocado no ombro, deparou com Lucia a sua frente. Trazia ao colo uma criança, um menino dos seus três anos de idade. Sabia que elas queriam adotar uma criança e, felicitou-a desejando tudo de bom. Durante a conversa, sem se controlar, uma força o obrigava a olhar a criança no colo da mãe. Os traços, os olhos principalmente, a boca, a forma do queixo, os lábios, o cabelo, a cor, dava a sensação de já ter visto aquelas características. Foi quando viu seu reflexo no espelho atrás de Lucia. Sem perceber, soltou:
- Eu te conheço.
E sem que Lucia tivesse tempo em retrucar, Edgar num ímpeto disse quase ríspido:
- Esse menino é meu filho, gritou convincente do que dizia.
Lucia desmentiu dizendo que o adotaram, que só porque transaram uma vez não lhe dava o direito em ser o pai, que ele estava louco, e em seguida, despediu-se rapidamente com a desculpa de se encontrar com a Cida.
Semanas depois, numa das festas da Arlete, estando numa roda de amigos cujo tema da conversa era criança, filho, gravidez e sexo, ouviu de alguém dizer que havia pessoas que usavam outras pessoas conscientemente,  e deu como exemplo Lucia e Cida, que estavam à procura de um homem para engravidar uma delas, e completou enfática:
- Ouvi dizer que conseguiram, não sei quem foi o felizardo se é que se pode chamar o cara de felizardo.
Edgar sentiu olhares dirigidos a ele. Sem dizer nada, foi até onde estavam as bebidas, se serviu uma boa dose de uísque que bebeu numa golada só. Caminhando na noite enluarada, fechou a jaqueta e respirando fundo, murmúrio:
- Merda. Fui usado duas vezes...

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