Retorno
Todos ouviram. Ela não pode se conter, agora sabiam
da situação. O que fazer, perguntou olhando para as mãos. Nada foi a resposta.
Nada repetiu mentalmente. E nada fez durante o dia todo. Fechou-se no quarto,
ligou o som e desligou-se de tudo. Passou dois dias trancada. No terceiro dia
abriu a porta para o coordenador:
- Bom dia.
- Bom dia, respondeu a contra gosto.
- Afinal o que foi aquele grito? Correu o risco
em ser desconectada.
- Como assim!?
- Você foi criada para satisfazer as pessoas.
- Espere ai, não sou uma boneca sexual, não.
- Você não entende...
- O que?
- Olha não sou eu que vou lhe dizer. Aqui está
o anel, se colocar no dedo, aceitaremos o teu retorno, se não colocar saberemos
que não retornará.
- E se eu não retornar?
- Será desconectada.
- E se eu retornar?
- Bom terá que passar por todo o processo, como
se fosse à primeira vez, e sabe como é doloroso, pois vai reiniciar desde a
parte baixa do sistema até chegar onde estava.
Ficaram em silêncio.
- Aí está o anel, disse o coordenado se
levantando. Tem mais dois dias para pensar, se nesses dois dias você não
aparecer saberemos que não retornará.
O coordenador saiu fechando a porta bem
devagar.
Ficou um bom tempo fixando o anel. Como névoa
que aos poucos se dissipa, sua mente obscurecida foi clareando e as lembranças surgiram
como onda que arrebenta na praia.
Naquele dia eram duas para satisfazer o público
que, consistia praticamente de homens, e o que pediam elas tinham que obedecer.
Afinal, eram inferiores, nascidas escravas. Estavam nuas dançando no tablado,
isto é, ela, a 3030 não tinha nada no corpo, a sua companheira, a 3012 estava
só de calcinha E em volta olhares cobiçosos apreciavam suas performances. Foi
quando alguém gritou:
- Quero sexo explícito.
3030 mordeu o lábio inferior numa atitude
resignada, como se dissesse para a companheira:
- É agora.
3012 aproximou-se dela e levemente acariciou
sua face dando-lhe um beijo bem devagar. Sentiu um formigamento subindo por
entre as pernas que a deixou meio bamba. Já tinha transado com outras naquele
mesmo palco, por isso ficou meio envergonhada pelos sentimentos que afloravam
naquele momento. Não sabia por que, mas deixou-se levar. Ou melhor, foram se
conduzindo conforme a excitação aumentava. Num beijo ardoroso, onde as línguas
se enroscavam 3030 admirava a perícia de ambas, afinal, bonecas como eram,
estavam tecnologicamente avançadas para serem simples robôs.
Algo a perturbava, e ao deslizar a mão entre a
calcinha percebeu o por que. Tentou se desvencilhar, mas 3012 segurou com força
seu corpo contra o dela e sussurrou em seu ouvido:
- Fique calma. Continue, estamos aqui para satisfazer
essa plateia avida de prazeres. Não tenha receio.
Abraçadas, seios espremidos um no outro, notava
os bicos rígidos. Numa atitude despercebida pela companheira, 3030 abaixou a
calcinha e saiu da frente dela.
No primeiro momento, ouviu-se um OH! geral,
seguido de um silêncio estático como se todos não estivessem acreditando no que
viam. Imóveis, pegas de surpresa, ficaram as duas, principalmente 3012 que não
espera tal reação da amiga, e, 3030 que não se supunha tão audaciosa.
Imobilidade essa quebrada pelos aplausos, assovios, e apupos de:
- Boa!
- Magnifico!
- Continuem!
- Não parem!
3012 sem controlar a raiva, puxou 3030 para o
meio do palco, violentando-a sem dar tempo de qualquer reação da companheira.
3030 a principio quis reagir, no entanto se entregou ao furor da amiga que cega
a penetrou por vários minutos.
A plateia ensurdecedora incentivava as duas num
clímax tribal e, quando chegaram ao orgasmo, parecia que todos sem exceção,
gozaram junto. Mas ninguém percebeu o desmaio e o grito da 3012 e o anel saindo
do seu dedo e rolando pelo chão do teatro.
Ali no silêncio do quarto, decidiu o que
deveria fazer. Não podia ser desconectada, passaria fome. Retornando para o
sistema, apesar do reinicio doloroso, teriam, ela e o filho, teto e comida.
Abraçou o ventre imaginando-o, dali uns quatros meses enorme, e enfiou o anel
no dedo.
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