quarta-feira, 8 de abril de 2020

Contos surrealistas 165


A passeata.

Sentia o dedo sujo de verde raspando a pele do rosto perto da faixa amarela. O tédio estava tomando conta do corpo. Poderia ter recusado, mas a promessa de estar ao lado da pessoa que se sentia atraído fez com que dissesse sim. Portanto não cabiam reclamações. Seu lado intimista não suportava politica, não que ficasse por fora dos acontecimentos. Todo politico é um ladrão, dizia com certo desprezo.
Desceu as escadas de dois em dois degraus. Rapidamente chegou a rua. Lá estavam eles, lá estava ele todo pintado, o rosto e peito em faixas de verde e amarelo. O coração acelerou ao abraça-lo. Rindo e contentes se dirigiam para o ponto combinado. Juntou-se aos participantes gritando slogan que, talvez, nem acreditassem. Naquele momento a vida tornava-se positivamente mais alegre e mais confortável. Seu peito encheu-se de euforia.
Ao virarem a esquina, toda a vibração desapareceu para dar lugar a angústia e a opressão. Deram de cara com a patrulha de choque. O pessoal posicionado na frente recuou por segundos, mas empurrados pelos que vinham atrás ergueram a cabeça desafiadora sem medo nenhum. Sentiu a mão dele segurando a sua dando-lhe confiança. Foi quando lançaram bomba de fumaça envolvendo-os totalmente. Não enxergava mais nada, ficou tudo escuro. A mão dele escorregou da sua. Amedrontado foi empurrado de um lado para outro entre gritos de recuem e pega e prende. De repente o silêncio imperou. Não se ouvia mais nada. Abrasador silêncio caiu sobre ele. Sem saber o que fazer, resolveu ficar parado. Numa expectativa apavorante a fumaça foi se dissipando. Quando a claridade invadiu seus olhos que arregalados silenciosamente gritaram medrosos.
Onde estava? O que acontecia? Cadê ele, o pessoal, a tropa de choque? Sumiram! Olhou para cima. Um sol abrasador queimava as costas. Olhou para os lados, nada, apenas vazio. Não se via edifícios, ruas, casas, lojas, tudo desaparecera. Sob os pés apenas a larga estrada de pedras amarelas.  Começou a andar, isto é, sentia que estava andando, mas permanecia parado, quem estava se movendo era estrada como se fosse uma grande esteira, e, horrorizado a estrada se afunilava surgindo paredes dos dois lados. Tentou se virar sair correr em sentido contrário, sem sucesso, estava preso, não podia fazer nenhum gesto, nem piscar. A estrada esteira levava-o não sabia para onde, as paredes se afunilavam ia ser espremido a qualquer momento.     
Nisso surgiu o buraco, a estrada terminava nele para onde estava indo, ou melhor, sendo levado. Horrorizado não ouvia o grito saindo da garganta, não tinha onde se segurar as paredes lisas esticou os braços na vã tentativa de segura-las, sem conseguir. Caiu no escuro do buraco, faltava-lhe ar, sentia-se sufocar. O corpo girava de um lado para outro batendo nas paredes. Ao longe uma pequena luz encheu sei peito de esperança. Um clarão ofuscou seus olhos.
Aos poucos abriu os olhos e ouviu vozes.
- Está acordando.
- Onde estou, perguntou angustiado.
- No crematório.
- O que?
Não houve mais tempo, foi consumido pelo fogo.

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