terça-feira, 7 de abril de 2020

Contos surrealistas 166


Dois José e uma Maria.

Como de costume se sentou no canto onde podia observar toda a movimentação do restaurante. O que no momento não lhe interessava quem entrava ou quem saia, já foi à época em que se divertia com a agitação da noite de boemia.  Queria apenas tomar cerveja ao sabor de uma leitura. O movimento não estava tão intenso. Chamou o garçom.
— Por favor, outra cerveja – pediu assim que ele se aproximou.
Três segundos depois a cerveja estava a sua frente.
— Obrigado.
O garçom se afastou.
Abriu o livro. A leitura até que era boa, mas se arrastava a ação não saia do mesmo lugar, quer dizer, ação não havia apenas situações improvisadas. Mesmo assim se impunha a leitura e, conforme progredia anotava palavras, frases, sentenças. Fez uma releitura das anotações, riscou algumas, acrescentou outras, retificou e, por momentos ficou olhando o vazio a sua frente com a caneta na boca quando notou os olhos de José Augusto fixo nele. Não deu muita importância, continuou lendo. No entanto o canto dos olhos procurava a direção daqueles olhos a perturbá-lo. Fechou o livro. Ergueu o copo a altura do rosto e fez um gesto convidando-o. José Augusto não se sobressaltou com o convite, apenas não esperava que fosse assim instantâneo. Levantou-se, pegou a garrafa e o copo e se dirigiu a mesa dele.
— Prazer, José Augusto, disse ao se aproximar e puxar a cadeira.
— Prazer, José Antônio.
José Augusto sorriu cumprimentando-o.
— Do que está sorrindo, disse José Antônio.
— Do nosso nome.
— Ahn!
— José Augusto e Antônio.
— Dois José A.
— Coincidência?
— Será! Você acredita em coincidência? Perguntou José Augusto.
— Olha não sei, apenas acredito no imprevisto, como nesse momento.
— E esse momento para você é um imprevisto?
— Vamos dizer que sim. Por quê? Para você, não é?
— Primeiro acho que devemos saber o que é imprevisto.
— Algo que surpreende que não se prevê...
— Então sou algo que te surpreende?
— Sim, por que não!
— Não sei se posso levar isso como elogio.
— Creio que sim, disse José Antônio. Estava aqui no meu sossego, lendo, tomando minha cerveja quando sou surpreendido por seu olhar.
— Ah quer dizer que tirei você do sossego? Perguntou José Augusto.
— Sim e não, não fique chateado, pois é sempre bom conhecer novas pessoas, novas ideias e...
— E... o que?
José Antônio ficou sem graça, pensava numa maneira de responder sem que fosse atrevido.
— Nada, apenas um pensamento ousado.
— Diga essa ousadia. Quem pensa em dizer algo e não diz peca duas vezes, como dizia a senhora minha mãe.
José Augusto encheu os copos e pediu mais uma cerveja.
— Sua mãe é sábia...
— Sim, todas as mães são sábias, respondeu José Augusto. Mas ainda não disse a sua ousadia.
— Bem... talvez possamos ser bons amigos.
— Ah! Para você isso é ousadia?
— Para quem é tímido não deixa de ser.
— Você tímido? Você que me convidou...
— Tudo bem, não vamos discutir.
— Você que me convida...
— Porque você estava olhando para mim.
— Quer dizer que eu dei coragem a você para me convidar?
— Até pode ser.
— E se eu não o tivesse dado essa coragem?
— Estaríamos olhando um para outro e cada um tomando a sua cerveja.
— Essa conversa está muito absurda para o meu gosto, respondeu José Augusto.
— É nos absurdos que está à verdade, replicou José Antônio.
— Quem pediu a última cerveja?
— Isso tem importância?
— Não sei curiosidade. Por favor, garçom, outra cerveja.
Já estavam a bastante tempo conversando asneirice, como dizia José Augusto, e não repararam que o ambiente agora, movimentado precisavam falar um pouco mais alto. José Antônio levantou-se.
— Já vai embora?
— Vou ao banheiro.
— Ah! Está bom.
José Augusto ao abrir a porta do Box estava perturbado com a conversa, não atinava como seguia num rumo surrealista. Espero que ao voltar para a mesa José Augusto tenha ido embora, senão vai ser penoso dispensá-lo sem uma desculpa concreta a não ser o seu humor sendo deteriorado pela conversa grotesca, pensou ao subir o zíper da calça jeans, se lavar e sair do banheiro.
Ao se aproximar da mesa suspirou aliviado, José Augusto tinha ido embora. Sentou deixando toda a decepção escorrer fora do corpo. Estava chamando o garçom para fechar a conta quando surgiu José Augusto.
— Pensei que tinha ido embora, disse José Antônio.
Nisso o garçom se aproxima.
— Pois não.
— Por favor, a conta...
— Não nada de conta, traz outra cerveja, pediu José Augusto.
O garçom se retirou.
— Nem conversamos direito...
— Achei que tinha ido embora.
— Já disse isso. Troque o disco, repreendeu José Augusto meio autoritário. Só porque fui tragar um cigarro não quer dizer que eu tenha ido embora.
—Você fuma? Perguntou José Antônio demonstrando surpresa.
— Só quando estou ansioso, porque, isso te incomoda?
— Não, claro que não.
— Então por que essa cara de nojo?
— Não, nada disso, não desaprovo e nem aprovo, gosto é gosto.
— Ah bom pensei que fosse preconceituoso com os fumantes.
— Porra cara! Reparou na nossa conversa?
— O que tem ela?
— Nunca vi uma conversa surrealista e absurda como essa.
José Augusto sorriu e tomou mais um gole de cerveja. Sim, é verdade, a conversa estava mais que absurda a ponto de se arrepender em ter aceitado o convite de José Antônio. O             mais engraçado é que não conseguia manter-se sério como era do seu feitio e não achava uma maneira em introduzir assunto que não fosse surreal. Desconfortante sua posição, mas em fim, em algum ponto do seu corpo algo lhe dizia para não alterar em nada daquilo, pois estava gostando da situação, da conversa e... de José Antônio. Após essas reflexões, disse:
— Agora quem vai ser ousado sou eu.
— O que?
— Sim, ousado. Vou ser ousado com você.
— E por quê?
— Digamos que eu goste de surpreender os tímidos.
— Ah! E quer ver minha reação, não é mesmo? Perguntou José Antônio.
— Puxa! Leu meu pensamento?
— Intuição intelectual, vamos dizer.
— Ok por essa não esperava.
— Então diga a sua ousadia, meu caro José Augusto.
— Que tal irmos para um hotel?
— Que?
— Ops! Desculpe, o que quis dizer é porque não vamos fazer uma viagem?
— Viagem...?
— Sim, minha tia tem uma casa no litoral e poderíamos passar um fim de semana na praia. O que acha?
— Podemos combinar.
— Combinado, veja quando pode e me diz.
— Falou.


Maria José Augusto se levantou cansada, toda dolorida, estomago embrulhado e uma constante azia que a obrigava arrotar, mesmo assim dirigiu-se a cozinha a fim de fazer café. Os rapazes ainda dormiam e, ao lembrar-se deles, sorriu. O cheiro do café bateu em seu nariz obrigando-a a correr para o banheiro e se ajoelhar em frente ao vaso sanitário. Vomitou o que podia e o que não podia. Um torpor a invadiu. Droga! Quem manda beber em demasia, disse mentalmente. Lavou-se e foi terminar de fazer o café.


Estavam os três comendo pipoca e vendo um filme, quando José Augusto trouxe a garrafa de tequila e os copos. Timidamente começaram a beber, instantes depois, a garrafa já estava com três dedos de tequila e o filme tinham o esquecido. José Augusto propôs um jogo.
— Que tal jogarmos estripe pôquer?
Maria José olhou para José Antônio e depois para o sobrinho. Surpreendeu-se com a ousadia de José Augusto, seu peito batia ansiosa, ousou imaginar como seria ver José Antônio... Passou a língua pelos lábios.
— Eu topo, disse com confiança.
 José Antônio intrigado com a proposta do jogo analisou rapidamente a situação. Um dos dois se interessava por ele. Seria Maria José? Desde que chegou ao ser apresentado, notou nos olhos castanhos um brilho explodindo que traduziu como paixão repentina. Quanto a José Augusto desde o primeiro dia percebeu nele o interesse mantido a uma distância não muito grande, se quisesse era só esticar a mão, no que, como notou José Antônio, retardava o gesto não sabia por quê. Por fim, disse meio tímido:
— Também topo.
José Augusto por sua vez vivia com a alma agitada, sem sossego, quase sempre no limite do desespero. E ao aceitar o convite de José Antônio nada mais fez do que alimentar a ansiedade ativa, levando-o a agir inesperadamente. José Antônio para ele era apenas uma pessoa, claro a princípio, viu certa resistência travada pela conversa surrealista, mas agora, ali numa brincadeira erótica, notou algo que poderia render sabe-se lá o que, pensou ao distribuir as cartas.


— Quanto tempo nós dormimos? Perguntou José Augusto parado a porta da cozinha só de cueca.
Maria José se assustou:
— Merda! Assustou-me!
— Desculpe, não tive a intenção, respondeu José Augusto levando a mão à cabeça. Credo! Que ressaca!
— Vai se vestir, caramba.
— Porra! Desculpe, disse José Augusto.
Saiu dando um giro de cento e oitenta graus. Pouco depois foi a vez de José Antônio aparecer.
— Bom dia, disse bocejando.
Vestia uma bermuda jeans e uma camisa branca, os cabelos castanhos claros desalinhados, os olhos acusava uma noite mal dormida.
— Onde está José Augusto? Perguntou passando a mão pelos cabelos.
— Não sei, foi se vestir. Apareceu aqui só de cueca, respondeu Maria José. Senta e tome café.
 José Antônio encheu a xícara de café com leite, cortou o pão, passou manteiga e se sentou. Maria José saboreava o corpo enxuto do amigo se movimentando pela cozinha numa desenvoltura descontraída. Quando o sobrinho falou que vinha acompanhado, não imaginou como ficaria perturbada com tal fato. O caso é que fazia tempo que não tinha uma relação afetiva e amorosa com ninguém e, ao ver José Antônio, viu-se descontrolada emotivamente. Sentiu toda a virilidade no aperto de mão firme e contagiante. Por sua vez, José Antônio percebeu que sua figura masculina afetava os sentimentos de Maria José. Ficou na retaguarda a espera de algum sinal, afinal era apenas convidado.
Sendo tímido, quase se podia dizer, extremo, sentia-se estranho por agir espontâneo, sem ter aquele sentimento de estar fazendo algo alheio ao seu desejo. E, também, por ter dormido com José Augusto, coisa que nunca passou por sua mente que aconteceria isso algum dia. Sem preocupação nenhuma, sentou à mesa para o café sem constrangimento puxando conversa com Maria José.
— Caramba! Bebemos demais ontem, me desculpe, devo ter passado para você má figura. Disse José Antônio.
— Até que horas ficaram jogando? Eu não aguentei, estava vendo que vomitaria se não saísse do quarto.
— Sinceramente não sei só me lembro de que seu sobrinho estava sem cueca e dançando no meio do quarto. Acho que depois apaguei.
— É a primeira vez que vem para cá?
— Sim, primeira vez.
— Espero que venha mais vezes.
— Tudo depende se eu for convidado...
— Por mim está convidado sempre, não precisa nem avisar. Respondeu Maria José sentando-se a sua frente.
Nisso José Augusto se joga na cadeira ao lado de José Antônio que pego de surpresa se afasta um pouco.
— O que foi?
— Nada, apenas me assustei não te esperava.
— Caramba! Só lembro o momento que você saiu do quarto e depois não me lembro de mais nada.
— Nem que dançou pelado? Perguntou José Antônio.
— Não lembro. Fiz isso?
— E o pior.
— Tem pior?
— Queria sair para rua...
— Está brincando! José Augusto envergonhado não acreditava, o amigo tirava sarro dele, pensou.
— Estou falando sério. Deu-me um trabalho segurar você no quarto. Teve um momento que me pegou desprevenido e abriu a porta da rua e, para te impedir, acabei derrubando a iluminaria. Não sei se quebrou.
Todos olharam para a iluminaria tombada perto da porta. Maria José ergueu o objeto.
— Não acredito, disse José Augusto rancoroso.
— Olha aqui.
José Antônio esticou o braço, havia um arranhão seguido de uma mancha vermelha.
— Isso foi de puxar você para dentro do quarto. Ainda bem que logo em seguida você desmaiou em cima de mim.
José Augusto corou, não sabia o que dizer. Por fim só conseguiu agradecer e se desculpar.
— Oh! Cara me desculpe, não sabia o que estava fazendo.
 — Eu sei, entendo, não sei como pude te segurar, estava bêbado também, só sei que riamos à beça. Você não escutou nada, Maria José?
— Não, eu apaguei assim que meu corpo se encostou ao colchão. Dormi atravessada na cama do jeito que eu estava. Fiquei toda dolorida.
José Antônio sentia-se bem entre os dois, apesar de não ser muito comunicativo, até que estava se saindo bem. E o fato de estar com ressaca não o deixava envergonhado e, muito menos, ao acordar abraçado ao amigo. Levantou-se foi ao banheiro, tomou banho, e viu que José Augusto não estava mais lá. Vestiu-se e no corredor cruzou com o amigo que voltava ao quarto, talvez, para se vestir, pois estava só de cueca. Na cozinha encontrou Maria José fazendo café. Estava com a cara própria de quem está com ressaca, riu mentalmente, porém se sobressaltou com a pergunta de Maria José.
— O que foi?
—Nada, observando seus movimentos pós embriagues.
— Faz favor, não repare isso não é sempre que acontece.
— Não estou criticando.
Maria José apesar da idade tinha seus encantos, não muito alta, cabelo castanho claro, mais para loiro, olhos penetrantes não parando num lugar só, corpo bem torneado de quem faz academia, mexia com José Antônio de uma maneira, inusitada, sensação de impotência por ser tia do seu amigo. Mas isso não queria dizer nada, crescia nele uma pontada de desejo que o excitava. Desviou os olhos.
Por sua vez Maria José notou que sua feminilidade perturbava o amigo do seu sobrinho. Não o provocava isto porque se sabia ser mulher que já passou dos seus momentos de conquistas. Não se desprezava por causa da sua idade, não era isso, tinha ainda pontos fortes em que os homens a fitavam com avidez, era apenas, talvez, paz interior em que não sentia mais a necessidade de se saciar femininamente.


 José Augusto parou na porta do quarto. Lentamente se aproximou dos dois. Quando estava perto é que o perceberam.
— José Augusto! – gritou Maria José rolando para o lado e se cobrindo.
José Antônio assustado arregalou os olhos e cobriu o sexo encabulado.
Com o olhar vazio, sem dizer nada, acariciou a face com suavidade o rosto e o beijou. José Antônio retribuiu sorvendo o desejo dos dois. Maria José sentiu a mão de José Antônio acariciando seu seio. A princípio, por causa, do sobrinho se retraiu, mas ao ver a mão deliciosa de José Antônio em sua pele, não se preocupou, deixou-se levar aproveitando o sabor de tudo aquilo.
José Augusto não olhava para a tia, se entregava completamente as caricias de outro homem. José Antônio ao ver o amigo entrando no quarto, no entanto, o que esperava fosse acontecer não aconteceu, para sua surpresa foi além do que imaginara. Assim sendo, sem se importar com a Maria José deixou-se levar nas caricias de José Augusto.
Em poucos instantes três corpos rolavam na cama sem pudor e sem acanhamento. Quando o dia amanheceu José Antônio acordou com o corpo colado ao corpo de José Augusto e Maria José estava na cozinha fazendo café.


— Bom dia.
— Bom dia.
— Tomei uma decisão.
— Qual?
— Vou embora essa tarde.
— Por quê?
— É melhor para nós três.
— Se você acha...
— Já conversei com José Augusto e ele concordou.
— Mas e vocês?
— O que temos nós?
— Bem... Não estão...
— Namorando?
— Sim.
— Não, somos apenas bons amigos e nada mais.
— Então é melhor mesmo.
— O que?
— Você ir.
— Também acho.


Seis meses depois Maria José estava grávida.

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