Dois
José e uma Maria.
Como
de costume se sentou no canto onde podia observar toda a movimentação do
restaurante. O que no momento não lhe interessava quem entrava ou quem saia, já
foi à época em que se divertia com a agitação da noite de boemia. Queria apenas tomar cerveja ao sabor de uma
leitura. O movimento não estava tão intenso. Chamou o garçom.
—
Por favor, outra cerveja – pediu assim que ele se aproximou.
Três
segundos depois a cerveja estava a sua frente.
—
Obrigado.
O
garçom se afastou.
Abriu
o livro. A leitura até que era boa, mas se arrastava a ação não saia do mesmo
lugar, quer dizer, ação não havia apenas situações improvisadas. Mesmo assim se
impunha a leitura e, conforme progredia anotava palavras, frases, sentenças.
Fez uma releitura das anotações, riscou algumas, acrescentou outras, retificou
e, por momentos ficou olhando o vazio a sua frente com a caneta na boca quando
notou os olhos de José Augusto fixo nele. Não deu muita importância, continuou
lendo. No entanto o canto dos olhos procurava a direção daqueles olhos a perturbá-lo.
Fechou o livro. Ergueu o copo a altura do rosto e fez um gesto convidando-o.
José Augusto não se sobressaltou com o convite, apenas não esperava que fosse
assim instantâneo. Levantou-se, pegou a garrafa e o copo e se dirigiu a mesa
dele.
—
Prazer, José Augusto, disse ao se aproximar e puxar a cadeira.
—
Prazer, José Antônio.
José
Augusto sorriu cumprimentando-o.
—
Do que está sorrindo, disse José Antônio.
—
Do nosso nome.
—
Ahn!
—
José Augusto e Antônio.
—
Dois José A.
—
Coincidência?
—
Será! Você acredita em coincidência? Perguntou José Augusto.
—
Olha não sei, apenas acredito no imprevisto, como nesse momento.
—
E esse momento para você é um imprevisto?
—
Vamos dizer que sim. Por quê? Para você, não é?
—
Primeiro acho que devemos saber o que é imprevisto.
—
Algo que surpreende que não se prevê...
—
Então sou algo que te surpreende?
—
Sim, por que não!
—
Não sei se posso levar isso como elogio.
—
Creio que sim, disse José Antônio. Estava aqui no meu sossego, lendo, tomando
minha cerveja quando sou surpreendido por seu olhar.
—
Ah quer dizer que tirei você do sossego? Perguntou José Augusto.
—
Sim e não, não fique chateado, pois é sempre bom conhecer novas pessoas, novas
ideias e...
—
E... o que?
José
Antônio ficou sem graça, pensava numa maneira de responder sem que fosse
atrevido.
—
Nada, apenas um pensamento ousado.
—
Diga essa ousadia. Quem pensa em dizer algo e não diz peca duas vezes, como
dizia a senhora minha mãe.
José
Augusto encheu os copos e pediu mais uma cerveja.
—
Sua mãe é sábia...
—
Sim, todas as mães são sábias, respondeu José Augusto. Mas ainda não disse a
sua ousadia.
—
Bem... talvez possamos ser bons amigos.
—
Ah! Para você isso é ousadia?
—
Para quem é tímido não deixa de ser.
—
Você tímido? Você que me convidou...
—
Tudo bem, não vamos discutir.
—
Você que me convida...
—
Porque você estava olhando para mim.
—
Quer dizer que eu dei coragem a você para me convidar?
—
Até pode ser.
—
E se eu não o tivesse dado essa coragem?
—
Estaríamos olhando um para outro e cada um tomando a sua cerveja.
—
Essa conversa está muito absurda para o meu gosto, respondeu José Augusto.
—
É nos absurdos que está à verdade, replicou José Antônio.
—
Quem pediu a última cerveja?
—
Isso tem importância?
—
Não sei curiosidade. Por favor, garçom, outra cerveja.
Já
estavam a bastante tempo conversando asneirice, como dizia José Augusto, e não
repararam que o ambiente agora, movimentado precisavam falar um pouco mais
alto. José Antônio levantou-se.
—
Já vai embora?
—
Vou ao banheiro.
—
Ah! Está bom.
José
Augusto ao abrir a porta do Box estava perturbado com a conversa, não atinava
como seguia num rumo surrealista. Espero que ao voltar para a mesa José Augusto
tenha ido embora, senão vai ser penoso dispensá-lo sem uma desculpa concreta a
não ser o seu humor sendo deteriorado pela conversa grotesca, pensou ao subir o
zíper da calça jeans, se lavar e sair do banheiro.
Ao
se aproximar da mesa suspirou aliviado, José Augusto tinha ido embora. Sentou
deixando toda a decepção escorrer fora do corpo. Estava chamando o garçom para
fechar a conta quando surgiu José Augusto.
—
Pensei que tinha ido embora, disse José Antônio.
Nisso
o garçom se aproxima.
—
Pois não.
—
Por favor, a conta...
—
Não nada de conta, traz outra cerveja, pediu José Augusto.
O
garçom se retirou.
—
Nem conversamos direito...
—
Achei que tinha ido embora.
—
Já disse isso. Troque o disco, repreendeu José Augusto meio autoritário. Só
porque fui tragar um cigarro não quer dizer que eu tenha ido embora.
—Você fuma? Perguntou
José Antônio demonstrando surpresa.
—
Só quando estou ansioso, porque, isso te incomoda?
—
Não, claro que não.
—
Então por que essa cara de nojo?
—
Não, nada disso, não desaprovo e nem aprovo, gosto é gosto.
—
Ah bom pensei que fosse preconceituoso com os fumantes.
—
Porra cara! Reparou na nossa conversa?
—
O que tem ela?
—
Nunca vi uma conversa surrealista e absurda como essa.
José
Augusto sorriu e tomou mais um gole de cerveja. Sim, é verdade, a conversa
estava mais que absurda a ponto de se arrepender em ter aceitado o convite de
José Antônio. O mais engraçado
é que não conseguia manter-se sério como era do seu feitio e não achava uma
maneira em introduzir assunto que não fosse surreal. Desconfortante sua
posição, mas em fim, em algum ponto do seu corpo algo lhe dizia para não
alterar em nada daquilo, pois estava gostando da situação, da conversa e... de
José Antônio. Após essas reflexões, disse:
—
Agora quem vai ser ousado sou eu.
—
O que?
—
Sim, ousado. Vou ser ousado com você.
—
E por quê?
—
Digamos que eu goste de surpreender os tímidos.
—
Ah! E quer ver minha reação, não é mesmo? Perguntou José Antônio.
—
Puxa! Leu meu pensamento?
—
Intuição intelectual, vamos dizer.
—
Ok por essa não esperava.
—
Então diga a sua ousadia, meu caro José Augusto.
—
Que tal irmos para um hotel?
—
Que?
—
Ops! Desculpe, o que quis dizer é porque não vamos fazer uma viagem?
—
Viagem...?
—
Sim, minha tia tem uma casa no litoral e poderíamos passar um fim de semana na
praia. O que acha?
— Podemos combinar.
—
Combinado, veja quando pode e me diz.
—
Falou.
Maria
José Augusto se levantou cansada, toda dolorida, estomago embrulhado e uma
constante azia que a obrigava arrotar, mesmo assim dirigiu-se a cozinha a fim
de fazer café. Os rapazes ainda dormiam e, ao lembrar-se deles, sorriu. O
cheiro do café bateu em seu nariz obrigando-a a correr para o banheiro e se
ajoelhar em frente ao vaso sanitário. Vomitou o que podia e o que não podia. Um
torpor a invadiu. Droga! Quem manda beber em demasia, disse mentalmente.
Lavou-se e foi terminar de fazer o café.
Estavam
os três comendo pipoca e vendo um filme, quando José Augusto trouxe a garrafa
de tequila e os copos. Timidamente começaram a beber, instantes depois, a
garrafa já estava com três dedos de tequila e o filme tinham o esquecido. José
Augusto propôs um jogo.
—
Que tal jogarmos estripe pôquer?
Maria
José olhou para José Antônio e depois para o sobrinho. Surpreendeu-se com a
ousadia de José Augusto, seu peito batia ansiosa, ousou imaginar como seria ver
José Antônio... Passou a língua pelos lábios.
—
Eu topo, disse com confiança.
José Antônio intrigado com a proposta do jogo
analisou rapidamente a situação. Um dos dois se interessava por ele. Seria
Maria José? Desde que chegou ao ser apresentado, notou nos olhos castanhos um
brilho explodindo que traduziu como paixão repentina. Quanto a José Augusto
desde o primeiro dia percebeu nele o interesse mantido a uma distância não
muito grande, se quisesse era só esticar a mão, no que, como notou José
Antônio, retardava o gesto não sabia por quê. Por fim, disse meio tímido:
—
Também topo.
José
Augusto por sua vez vivia com a alma agitada, sem sossego, quase sempre no
limite do desespero. E ao aceitar o convite de José Antônio nada mais fez do que
alimentar a ansiedade ativa, levando-o a agir inesperadamente. José Antônio
para ele era apenas uma pessoa, claro a princípio, viu certa resistência
travada pela conversa surrealista, mas agora, ali numa brincadeira erótica,
notou algo que poderia render sabe-se lá o que, pensou ao distribuir as cartas.
—
Quanto tempo nós dormimos? Perguntou José Augusto parado a porta da cozinha só
de cueca.
Maria
José se assustou:
—
Merda! Assustou-me!
—
Desculpe, não tive a intenção, respondeu José Augusto levando a mão à cabeça.
Credo! Que ressaca!
—
Vai se vestir, caramba.
—
Porra! Desculpe, disse José Augusto.
Saiu
dando um giro de cento e oitenta graus. Pouco depois foi a vez de José Antônio
aparecer.
—
Bom dia, disse bocejando.
Vestia
uma bermuda jeans e uma camisa branca, os cabelos castanhos claros
desalinhados, os olhos acusava uma noite mal dormida.
—
Onde está José Augusto? Perguntou passando a mão pelos cabelos.
—
Não sei, foi se vestir. Apareceu aqui só de cueca, respondeu Maria José. Senta
e tome café.
José Antônio encheu a xícara de café com
leite, cortou o pão, passou manteiga e se sentou. Maria José saboreava o corpo enxuto
do amigo se movimentando pela cozinha numa desenvoltura descontraída. Quando o
sobrinho falou que vinha acompanhado, não imaginou como ficaria perturbada com
tal fato. O caso é que fazia tempo que não tinha uma relação afetiva e amorosa
com ninguém e, ao ver José Antônio, viu-se descontrolada emotivamente. Sentiu
toda a virilidade no aperto de mão firme e contagiante. Por sua vez, José Antônio
percebeu que sua figura masculina afetava os sentimentos de Maria José. Ficou
na retaguarda a espera de algum sinal, afinal era apenas convidado.
Sendo
tímido, quase se podia dizer, extremo, sentia-se estranho por agir espontâneo,
sem ter aquele sentimento de estar fazendo algo alheio ao seu desejo. E,
também, por ter dormido com José Augusto, coisa que nunca passou por sua mente
que aconteceria isso algum dia. Sem preocupação nenhuma, sentou à mesa para o
café sem constrangimento puxando conversa com Maria José.
—
Caramba! Bebemos demais ontem, me desculpe, devo ter passado para você má
figura. Disse José Antônio.
—
Até que horas ficaram jogando? Eu não aguentei, estava vendo que vomitaria se
não saísse do quarto.
—
Sinceramente não sei só me lembro de que seu sobrinho estava sem cueca e
dançando no meio do quarto. Acho que depois apaguei.
—
É a primeira vez que vem para cá?
—
Sim, primeira vez.
—
Espero que venha mais vezes.
—
Tudo depende se eu for convidado...
—
Por mim está convidado sempre, não precisa nem avisar. Respondeu Maria José sentando-se
a sua frente.
Nisso
José Augusto se joga na cadeira ao lado de José Antônio que pego de surpresa se
afasta um pouco.
—
O que foi?
—
Nada, apenas me assustei não te esperava.
—
Caramba! Só lembro o momento que você saiu do quarto e depois não me lembro de
mais nada.
—
Nem que dançou pelado? Perguntou José Antônio.
—
Não lembro. Fiz isso?
—
E o pior.
—
Tem pior?
—
Queria sair para rua...
—
Está brincando! José Augusto envergonhado não acreditava, o amigo tirava sarro
dele, pensou.
—
Estou falando sério. Deu-me um trabalho segurar você no quarto. Teve um momento
que me pegou desprevenido e abriu a porta da rua e, para te impedir, acabei
derrubando a iluminaria. Não sei se quebrou.
Todos
olharam para a iluminaria tombada perto da porta. Maria José ergueu o objeto.
—
Não acredito, disse José Augusto rancoroso.
—
Olha aqui.
José
Antônio esticou o braço, havia um arranhão seguido de uma mancha vermelha.
—
Isso foi de puxar você para dentro do quarto. Ainda bem que logo em seguida
você desmaiou em cima de mim.
José
Augusto corou, não sabia o que dizer. Por fim só conseguiu agradecer e se
desculpar.
—
Oh! Cara me desculpe, não sabia o que estava fazendo.
— Eu sei, entendo, não sei como pude te
segurar, estava bêbado também, só sei que riamos à beça. Você não escutou nada,
Maria José?
—
Não, eu apaguei assim que meu corpo se encostou ao colchão. Dormi atravessada
na cama do jeito que eu estava. Fiquei toda dolorida.
José
Antônio sentia-se bem entre os dois, apesar de não ser muito comunicativo, até
que estava se saindo bem. E o fato de estar com ressaca não o deixava
envergonhado e, muito menos, ao acordar abraçado ao amigo. Levantou-se foi ao
banheiro, tomou banho, e viu que José Augusto não estava mais lá. Vestiu-se e
no corredor cruzou com o amigo que voltava ao quarto, talvez, para se vestir,
pois estava só de cueca. Na cozinha encontrou Maria José fazendo café. Estava
com a cara própria de quem está com ressaca, riu mentalmente, porém se
sobressaltou com a pergunta de Maria José.
—
O que foi?
—Nada,
observando seus movimentos pós embriagues.
—
Faz favor, não repare isso não é sempre que acontece.
—
Não estou criticando.
Maria
José apesar da idade tinha seus encantos, não muito alta, cabelo castanho claro,
mais para loiro, olhos penetrantes não parando num lugar só, corpo bem torneado
de quem faz academia, mexia com José Antônio de uma maneira, inusitada, sensação
de impotência por ser tia do seu amigo. Mas isso não queria dizer nada, crescia
nele uma pontada de desejo que o excitava. Desviou os olhos.
Por
sua vez Maria José notou que sua feminilidade perturbava o amigo do seu
sobrinho. Não o provocava isto porque se sabia ser mulher que já passou dos
seus momentos de conquistas. Não se desprezava por causa da sua idade, não era
isso, tinha ainda pontos fortes em que os homens a fitavam com avidez, era
apenas, talvez, paz interior em que não sentia mais a necessidade de se saciar
femininamente.
José Augusto parou na porta do quarto. Lentamente
se aproximou dos dois. Quando estava perto é que o perceberam.
—
José Augusto! – gritou Maria José rolando para o lado e se cobrindo.
José
Antônio assustado arregalou os olhos e cobriu o sexo encabulado.
Com
o olhar vazio, sem dizer nada, acariciou a face com suavidade o rosto e o
beijou. José Antônio retribuiu sorvendo o desejo dos dois. Maria José sentiu a
mão de José Antônio acariciando seu seio. A princípio, por causa, do sobrinho
se retraiu, mas ao ver a mão deliciosa de José Antônio em sua pele, não se
preocupou, deixou-se levar aproveitando o sabor de tudo aquilo.
José
Augusto não olhava para a tia, se entregava completamente as caricias de outro
homem. José Antônio ao ver o amigo entrando no quarto, no entanto, o que
esperava fosse acontecer não aconteceu, para sua surpresa foi além do que
imaginara. Assim sendo, sem se importar com a Maria José deixou-se levar nas
caricias de José Augusto.
Em
poucos instantes três corpos rolavam na cama sem pudor e sem acanhamento.
Quando o dia amanheceu José Antônio acordou com o corpo colado ao corpo de José
Augusto e Maria José estava na cozinha fazendo café.
—
Bom dia.
—
Bom dia.
—
Tomei uma decisão.
—
Qual?
—
Vou embora essa tarde.
—
Por quê?
—
É melhor para nós três.
—
Se você acha...
—
Já conversei com José Augusto e ele concordou.
—
Mas e vocês?
—
O que temos nós?
—
Bem... Não estão...
—
Namorando?
—
Sim.
—
Não, somos apenas bons amigos e nada mais.
—
Então é melhor mesmo.
—
O que?
—
Você ir.
—
Também acho.
Seis
meses depois Maria José estava grávida.
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