Eu hein!
Everaldo era um senhor de seus cinquenta ou sessenta
anos que, apesar de casado, pai de duas filhas, tinha trejeitos afeminados que
deixavam dúvidas na cabeça dos maldosos. Gerente do departamento vivia de papo
com as meninas trocando receitas, contando causos e, sempre que chegava do
almoço, distribuía bala para o pessoal.
Nessa época eu trabalhava no arquivo que, apesar de
toda a tecnologia, ainda tinha papel que não acabava mais. Teodoro era um rapaz
baixo, com o corpo meio sarado, com o olhar profundo e irritado, por qualquer
coisa se irritava, homófico, tinha raiva de gay. Vindo da expedição almejando
cargo e salário melhor, eu o ajudava no arquivo.
Nossa mesa ficava logo na entrada da seção, portanto,
quando Everaldo vinha do almoço éramos o primeiro a quem ele dava a bala. Era
infalível, raramente essa rotina mudava. E um dia falei:
- Reparou uma coisa, Teo.
- O que?
- Nessas balas que todos os dias o Everaldo traz pra
gente.
- O que têm elas?
- Viu onde elas ficam?
- Sim. No bolso da calça.
- Então...
- Então o que?
- Ficam batendo na coxa quase perto do saco dele, já
imaginou?
A partir desse dia Teodoro não pegou mais bala nenhuma
de Everaldo.
Eu hein!
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