O Outro ou Eu Outro?
Nunca imaginei que um dia estaria em frente a uma
agência imobiliária lendo anúncios de casas para alugar. Isso é culpa do Outro
que, sem que eu percebesse, se instalou em casa. Maldito Outro, não maldito
não, maldito eu que o deixei, que não percebi suas tramoias e artimanhas. Agora
estou aqui lendo essas indecências de anúncios um mais ridículo que outro. Como
isso é maçante! Como isso é possível!
Tudo começou quando ele se apresentou dizendo ser
amigo da família, que trabalhava com minha esposa e et cetera e tal. A
princípio, meio que timidamente, conversou por uns quinze minutos e foi embora.
Quinze dias depois, apareceu com um papo enviesado dizendo-se envolvido com
drogas, que precisava de ajuda e outros blás blás. Não sei se Adélia
emotivamente foi envolvida pela falácia conquistadora ou acreditou mesmo. Eu
não estava nem aí se ele tinha se envolvido com drogas ou não, sabe como é,
acabei cedendo e, sugestionado por algo que até hoje não descobri o que foi,
acatei a opinião de Adélia. E assim, o dito cujo, foi se instalando de uma
maneira que não percebi. Quando me dei conta, olha eu aqui em frente à
imobiliária lendo anúncios de casa para alugar.
A história toda virou um novelo onde não se encontrava
mais a ponta para desenrolar. Uma vez por semana estava ele choramingando suas
dores e azares. Seus problemas passaram a serem nossos problemas. Até que um
dia Adélia sugeriu que passasse a morar com a gente. Com certa relutância
fingida num protesto fraco ele aceitou e, mesmo sendo veemente contra fui voto
vencido. Dessa maneira, passou a ocupar o sofá e dali para a cama foi um pulo.
Na altura do campeonato a integridade, a moral, ou mesmo o respeito estava
sendo jogado para debaixo da cama, pois o que valia o que mandava era o desejo
saciado todas as noites. Não estávamos nem aí, pouco nos importava a sociedade
e a moral e os bons costumes, até porque não é crime saciar nossos desejos, é?
Acho que não...
Estava tudo correndo bem, era o que eu pensava, até
que um dia, ou foi uma noite, não sei, só sei que literalmente cai da cama. Sentado
no ladrilho frio do quarto, enregelando a carne nua cruzamos os olhares e,
então compreendi, eu não tinha mais lugar naquela cama. A partir daquele dia,
ou foi noite, passei a dormir no sofá e, do sofá para a rua, foi um pulo.
E aqui estou lendo essas merdas de anúncios mal
redigidos. Como é maçante tudo isso! Foi então, que virando a cabeça para ver o
que estava acontecendo ao ouvir uma freada, estarrecido percebi a metamorfose e
me perguntei: afinal eu sou Eu ou Eu sou o Outro? Quem está lá com Adélia é o
Outro Eu ou é Eu Outro? De repente nada mais fez sentido, estar aqui como estar
lá, procurar ou não procurar, não sei mais quem sou...
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