terça-feira, 23 de junho de 2020

Contos surrealistas 140


O Outro ou Eu Outro?

Nunca imaginei que um dia estaria em frente a uma agência imobiliária lendo anúncios de casas para alugar. Isso é culpa do Outro que, sem que eu percebesse, se instalou em casa. Maldito Outro, não maldito não, maldito eu que o deixei, que não percebi suas tramoias e artimanhas. Agora estou aqui lendo essas indecências de anúncios um mais ridículo que outro. Como isso é maçante! Como isso é possível!
Tudo começou quando ele se apresentou dizendo ser amigo da família, que trabalhava com minha esposa e et cetera e tal. A princípio, meio que timidamente, conversou por uns quinze minutos e foi embora. Quinze dias depois, apareceu com um papo enviesado dizendo-se envolvido com drogas, que precisava de ajuda e outros blás blás. Não sei se Adélia emotivamente foi envolvida pela falácia conquistadora ou acreditou mesmo. Eu não estava nem aí se ele tinha se envolvido com drogas ou não, sabe como é, acabei cedendo e, sugestionado por algo que até hoje não descobri o que foi, acatei a opinião de Adélia. E assim, o dito cujo, foi se instalando de uma maneira que não percebi. Quando me dei conta, olha eu aqui em frente à imobiliária lendo anúncios de casa para alugar.
A história toda virou um novelo onde não se encontrava mais a ponta para desenrolar. Uma vez por semana estava ele choramingando suas dores e azares. Seus problemas passaram a serem nossos problemas. Até que um dia Adélia sugeriu que passasse a morar com a gente. Com certa relutância fingida num protesto fraco ele aceitou e, mesmo sendo veemente contra fui voto vencido. Dessa maneira, passou a ocupar o sofá e dali para a cama foi um pulo. Na altura do campeonato a integridade, a moral, ou mesmo o respeito estava sendo jogado para debaixo da cama, pois o que valia o que mandava era o desejo saciado todas as noites. Não estávamos nem aí, pouco nos importava a sociedade e a moral e os bons costumes, até porque não é crime saciar nossos desejos, é? Acho que não...
Estava tudo correndo bem, era o que eu pensava, até que um dia, ou foi uma noite, não sei, só sei que literalmente cai da cama. Sentado no ladrilho frio do quarto, enregelando a carne nua cruzamos os olhares e, então compreendi, eu não tinha mais lugar naquela cama. A partir daquele dia, ou foi noite, passei a dormir no sofá e, do sofá para a rua, foi um pulo.
E aqui estou lendo essas merdas de anúncios mal redigidos. Como é maçante tudo isso! Foi então, que virando a cabeça para ver o que estava acontecendo ao ouvir uma freada, estarrecido percebi a metamorfose e me perguntei: afinal eu sou Eu ou Eu sou o Outro? Quem está lá com Adélia é o Outro Eu ou é Eu Outro? De repente nada mais fez sentido, estar aqui como estar lá, procurar ou não procurar, não sei mais quem sou...

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