quarta-feira, 10 de junho de 2020

Contos surrealistas 146


Ninguém é de ferro.

Ana Helena ergueu bem no alto a criança. Olhou para o rosto rechonchudo da filha. Estava com fome. Colocou a menina no berço novamente. Na cozinha preparou um suculento sanduiche com café e leite gelado e olhando, pela sacada, o movimento da vida entre avenidas, viadutos e linhas de trem e metrô. Onde estaria ela se não tivesse a Ana Heloisa? Perguntou ao mastigar o pão recheado de presunto e mussarela. Onde? Não sabia responder, é claro. Se a vida fosse de perguntas com respostas prontas não teria graça nenhuma. Realmente estava com fome. Preparou outro sanduiche. Fez menção de tomar leite, mas desistiu. Foi até armário no fundo da sala e colocou uma boa dose de uísque no copo. O relógio marcava sete horas da manhã.
Quando da apresentação do processo de divórcio, a juíza motivada pela queixa do advogado do ex-marido, a reprovou não muito categoricamente, pois Ana Helena entendeu que a Sua Excelência lhe deu razão ao argumento que ela apresentou. Isto porque, antes do nascimento de Ana Heloisa ela não bebia nada alcoólico e, como a situação se agravou, ficando só ela e a filha, o uísque a ajudava a aguentar os trancos da vida. Com ênfase meio dramática acreditou que tinha convencido a autoridade. Portanto estava apenas tomando sua dose diária de uísque.
Da porta do quarto olhou para a pequena deitada no berço. Do peito evaporou-se um suspiro de resignação. Estava começando mais uma batalha. Pegou os doze quilos no colo, a sacola, fechou a porta do apartamento, chamou o elevador e, meia hora depois, estava com a filha dentro da piscina em mais uma hidroginástica. Uma hora mais tarde, nos aparelhos exercitava as pernas de Ana Heloisa. Em seguida foi à vez dos braços como se estivesse remando um barco abstrato. E por último, a menina estava com vários fios conectados à outra máquina que lhe dava pequenos choques elétricos com a finalidade em estimular os nervos do corpo.
Ao meio dia e trinta e quatro, com mais uma dose de uísque, olhava para o seu “monstrinho” como carinhosamente chamava a filha, a sua criação. Estava difícil, mas sabia que com persistência, amor e coragem e, muita paciência venceria a batalha. Deu beijo nas bochechas de Ana Heloisa, fechou a porta, sentou em frente à televisão pra assistir o seu programa favorito, isto porque, ninguém é de ferro, era o que sempre dizia.

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