domingo, 19 de julho de 2020

Contos surrealistas 127


Uma comédia nonsense.

01 – Primeiro e único ato.

Cena 01

Andando de um lado para outro, Alex esbravejava com sua voz estridente e indignada.
- Isso não tem nexo, é absurdo. – gritava batendo com as costas da mão no texto. NÃO CONTINUE! É o que eu digo para mim mesmo, e é o que eu tenho vontade de fazer. Não continuar. Portanto acho melhor, pensarem onde estão pisando. Isso é um lixo. Lixo. Onde já se viu um título como esse: Abacates com olho aberto, e subtítulo: uma comédia nonsense. Quem vai acreditar nisso. É um absurdo.
- É no absurdo que vivemos o tempo todo. - responde Angel numa atitude dramática.
- Não venha com essa, não. – retruca Alex.
GWEN JÁ ESTAVA MASTIGANDO UM BISCOITO, quando perguntou:
- Onde está Satin. Ninguém sabe dele? Tudo isso SÃO IDIOTICES DO SATIN, SUPONHO QUE VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR EM ABACATES COM OLHO ABERTO. Ou será que alguém acredita nisso?
- Vê se não come todos os biscoitos. Não vou comprar outros. Todo ensaio tenho que repor. – disse Salvador.
Gewn deu ombros.
- Eu acredito tanto em abacates assim como acredito no ser humano e na vida.
- Ora, Angel! Você é uma romântica incurável.
Nisso entra o Agenor:
- Pessoal, dez minutos para o ensaio.
- ELE SE FECHOU, ENVOLVIDO POR UMA TRAMA DE SENTIMENTOS E SENSAÇÕES, E ENTROU EM UM CASULO LOCALIZADO EM ALGUM CANTO REMOTO DE SUA CONSCIÊNCIA.
- Que isso, Rafael?
- É a minha fala, a única em toda a peça e, depois o diretor diz que meu personagem é importante. Não dá para acreditar.
- Todos os personagens são importante, isso é verdade.
- Acredito! E você, Miguel, qual a sua fala?
- O CERTO É QUE EU NÃO QUERO MAIS FICAR AQUI.
- O que! Você vai embora, Miguel?
- Não, Angel. Essa é a minha fala na peça.
- Que susto, pois o Alex está querendo desistir.
- Mas ele não pode, é o diretor.
- E daí? Rompe o contrato e pronto. Ele já fez isso muitas vezes.
Agenor aparece dando ordem:
- Vamos pessoal. Hora do ensaio, todos para o palco.

Cena 02

Alex entrou e fechou a porta. Salvador ainda não tinha chegado. Deu de ombros, já estava cansado de Salvador. Por outro lado, essa peça que Satin arrumou estava deixando-o em frangalhos. Onde se viu uma peça só de frases sem sentido, jogadas no ar, como se fossem balões estourando na plateia. É verdade. Estava deprimido, rompera o contrato e os produtores exigiram a cabeça dele. Teve que pagar uma quantia enorme e com isso foi obrigado a aceitar essa merda de peça. Bebia a sexta dose quando ouviu alguém lhe dizer: NÃO FOSSE PELA CÓLERA, JAMAIS TERÍAMOS APRENDIDO A NOS CONHECER, UM AO OUTRO. Era Salvador com o manuscrito da peça embaixo do braço. Estava atrás de um diretor e, propôs a ele dirigir a peça. Assim se conheceram e, agora estava com dois problemas. Continuar ou não com a peça e romper com Salvador. Jogou o cigarro na privada, deu descarga, tomou banho e foi dormir. Amanhã é outro dia, pensou ao colocar a cabeça no travesseiro.

Cena 03

- O que você está fazendo, minha filha?
- Estou olhando essa pintura e tendo uma ideia.
- O sol pode estragar ela.
- Eu sei, estou pensando em ilumina-la com luz artificial, acho que ficaria bem na peça.
- Vai levar isso também? Levou a mesinha, a cadeira de vime... O que mais vai levar? Não esqueça que é um presente do seu pai para mim.
- Eu sei mãe. Não esqueço não.
- Essa companhia não tem dinheiro não?
- Não.
É não tem dinheiro. Angel esperava fazer um bom trabalho, dar tudo de si, quem sabe surgisse um olheiro. Entrou na companhia depois de muita procura. Acabara de se formar e, para se sustentar trabalhou em diversos ramos e atividades fazendo bico aqui e ali. Portanto esse era o seu primeiro trabalho como atriz, não podia fracassar e, fazia de tudo, para que a peça, mesmo maluca como dizia o diretor, fosse estreada. Tanto é que quando o produtor precisou de uma mesa, não pensou duas vezes, levou a mesinha e a cadeira de vime. Agora tinha a ideia de levar o quadro para ilustrar a frase que será proferida por ela: ANGEL DÁ AS COSTAS PARA ELA, SEGURANDO A PINTURA PARA QUE A LUZ DO SOL A ATINJA DE DIFERENTES ÂNGULOS.


Cena 04

Gwen abriu uma cerveja e sentou em frente à televisão. Balançou a cabeça meio que enfastiado sem saber o do por que. Quer dizer, sabia, mas tinha esperança que as coisas mudassem para melhor, ficar xingando, dando bronca em tudo e em todos não era o certo. Sentia raiva de Alex. Tem um material bom nas mãos e não sabia aproveitar. Não acreditava muito nele não, aliás, não confiava nele. Não podia e achava que não devia romper o contrato. Sua opinião era: aceitou agora tem que cumprir, só se o projeto não for pra frente.

Cena 05

Salvador estava nessa por ser amigo de Satin que lhe prometera um emprego. E pelo andar da carroça tudo lhe dizia que estava trabalhando de graça. Não sabia dizer quem era o responsável, a quem se dirigir se não recebesse. Tudo porque Satin tinha o manuscrito de uma peça muito boa e precisava de um diretor. E como Salvador vivia entre amigos teatrais e dizia conhecer muita gente, Satin pediu ajuda.
- FAREI COMO PEDE... , disse Salvador.
Salvador entrou no bar e de cara notou Alex cabisbaixo tomando o seu terceiro ou quarto copo numa atitude relaxada. Sentou ao seu lado, pediu um uísque e, soltou a frase que fez com que Alex prestasse atenção a ele. A partir daí, o gelo foi quebrado e, passaram horas conversando. Ao sair, Salvador tinha ganhado um amigo, um diretor, um emprego e um lugar para dormir, pelo menos, até a temporada da peça. No dia seguinte apresentou Satin a Alex e, na semana seguinte, estava definitivamente morando com Alex.

Cena 06

- Oras! EXCELENTE TRABALHO, ALIÁS, FIZERA O EMPALHADOR, disse Agenor ao mostrar o gato preto ao diretor.
- O que você fez Agenor? Não me vá dizer que matou e mandou empalhar o gato preto.
- Oras! Não só fiz como ele está aqui. Vocês não estavam precisando de um gato?
- Sim, mas não precisava chega a esse...
- Oras! Ele estava só atrapalhando.
- E se aparecer alguém procurando- o.
- Oras! Não vai aparecer ninguém.
- Não quero problema, já chega os que tenho, portanto se vira caso venha alguém reclamá-lo e, outra coisa, como pagou essa porcaria?
- Oras! Não paguei.
- O que?
- Oras! É não paguei. O cara me devia uma grana, agora estamos quites, não me deve mais nada.
Agenor era um cara simplório, não pensava duas vezes quando tomava uma decisão. Tinha que ser feito ou, precisava ser feito, porque não fazer. Todos maltratavam o gato, não gostavam dele, e queriam um empalhado para uma das cenas, então, porque não matar o felino e empalhar! E foi o que fez. Não tinha remorso, muito menos arrependimento. Esse era o seu jeito.

Cena 07

Rafael PÔS AS MÃOS EM CONCHA AO REDOR DA BOCA E UIVOU PARA ELES, AHUUUUUUUU, AHUUUUUUUU. Em seguida virou para o barman:
- Por favor, mais uma cerveja.
Rafael entrara no projeto por falta de opção. Folheava o jornal por folhear quando uma pequena nota chamou a sua atenção. “Companhia de Teatro Amadorística seleciona pessoal para compor seu elenco para próxima temporada.” Apresentou-se, fez o teste, foi selecionado como ator secundário. A peça era um amontoado de palavras que cada ator tinha que, numa ordem meio que aleatória, dizer em cena. Eram frases desconexas proferidas como se estivesse declamando sem a importância de sentirem o que elas significassem. Rafael achou estranho, começando pelo título: “Abacates com olho aberto: uma comédia nonsense”. Não tinha experiência, amador se apresentara em produções pequenas, de pouca importância. E ao pisar pela primeira vez no palco, escreveu no caderno de notas: FIZ ALI UMA SECRETA PROMESSA. Sorriu ao lembrar-se desse fato. Nisso viu do outro lado do balcão a loira sorrindo para ele. Instantes depois saiam da boate.
Cena 08

Miguel não compreendia por que foi escolhido para o papel principal. Não tinha se saído bem nos testes, por mais que se esforçasse o vazio entre as cenas não o impressionou como lhe dissera o diretor. Tinha porte, beleza física, sabia quando e onde colocar a voz nem suave e nem branda. Ouviu dizer que o diretor se encantou com ele, o que não lhe dizia nada. HÁ PELOS MENOS TRÊS RESPOSTAS POSSÍVEIS para tentar compreender isso. Primeiro: foi bem nos testes e, confirmava o que se diziam dele: era bom ator; segundo: conseguira o papel por sua beleza a ponto de impressionar o diretor, o que não acreditava e, terceiro: porque ele estava no lugar certo e na hora certa, isto é, tinha que estar ali, queira ou não. Era o seu destino e, com o destino não se brinca.

Cena 09

Satin não lembrava o que estava lendo no momento em que teve a ideia da peça. Apenas que, ao ler a frase: SIM, RESPONDEU MESTRE HORA-. E COM ISSO QUEREM ME IMPRESSIONAR, escreveu a frase no caderno de notas e, num vapt vupt outras foram aparecendo espontâneas. Em outras peças fizera isso, entre uma cena e outra, introduziu frases soltas que nada tinha com a peça e, parece que poucos notaram um ou outro crítico comentou o fato. Com Abacates Com Olho Aberto corria o risco de não dar certo, o que seria a ruína total ou, por outro lado, seria estrondoso sucesso, por isso, assinou com um pseudônimo e se lançou como produtor. E propagou a noticia que comprara os direitos e, dessa vez, seria o produtor. E, por outro lado, achou melhor propor a um diretor desconhecido e, com atores não famosos. Por isso, pediu para Salvador contratar o diretor e todo o elenco. Preferia ficar o mais longe até a estreia, o que faltava poucos dias.

Cena final

Um mês depois a peça foi estreada.
Duas semanas seguintes foi retirada de cartaz, apesar da critica elogiosa e do prêmio para a melhor atriz, Abacates Com Olho Aberto estava dando prejuízo.
Alex, o diretor, caiu no anonimato e ninguém mais falou dele.
Angel, atriz principal, apesar do prêmio, teve um relativo sucesso na televisão e em um ou dois filmes, sendo logo esquecida.
Gwe, ator coadjuvante, voltou à sua cidade natal, casou, teve filhos morrendo assim seu sonho de ator.
Salvador, contra regra, não conseguiu outro emprego, teve mais alguns casos e, três meses depois, morreu abandonado no hospital.
Agenor, assistente de diretor, trabalhou mais uns dois meses e, numa discussão morreu esfaqueado.
Rafael, ator secundário, desistiu da profissão de ator, arrumou emprego num escritório, dali a dois anos se formava em advogado.
Miguel, ator principal, ainda trabalhou em mais duas peças, trabalhou, também, em televisão fazendo sucesso, e se aposentou por invalidez, ao fazer uma cena perigosa, perdeu a perna esquerda.
Satin, o produtor, foi desmascarado, a mídia descobrira o seu pseudônimo e não teve piedade, chamando-o de charlatão, plagiador e outros adjetivos, levando-o ao suicídio.
E, por fim, o teatro foi transformado em amplo estacionamento.

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