Quinhentas palavras.
O sol, depois
de vários dias de chuva, iluminava a lateral do muro e aos poucos, numa evidência
despercebida, entrava pela porta aberta da sala. Lucio em frente ao micro remexia
a mente a procura de palavras. Não se desesperava nunca foi de se desesperar,
aliás, seu lema era não entrar em desespero por nada que fosse. Até o tempo
determinado o texto estará pronto, dizia toda às vezes. Portanto, começou a
digitar e, como sempre faz, não tendo nada programado, nem história, nem personagens,
cenários, clima e muito menos esboço, assim que os dedos pressionaram as teclas
freneticamente sem que lhe desse tempo em pensar ou coordenar as ideias, as
palavras foram digitadas aparecendo letra por letra no monitor.
E ao ver o sol
banhando o meio da sala soube que mais uma vez conseguiria cumprir o projeto
das quinhentas palavras. Os dedos ágeis, uma a uma, pressionavam as teclas numa
rapidez meio que estonteante. O que vinha a mente passava para o monitor sem se
preocupar com as palavras ou erros que fossem surgindo. A sua preocupação era
com o conteúdo e com as frases de efeito, bonitas e consistentes dando ao conto
força e beleza. Depois numa leitura criteriosa eliminaria os excessos e, se
houvesse tempo, passaria por uma revisão cuidadosa.
E quando o sol
deixou o meio da sala, e a sombra dominou todo o ambiente, interrompeu o
trabalho e pressionou o interruptor fazendo com que a luz artificial inundasse
tudo ao redor. Como estava em pé, aproveitou e tirou da geladeira uma cerveja
voltando para a sala com ela aberta. Tomou um bom gole e, duas horas depois, havia
cinquenta latinhas vazias ao seu lado. Continuou escrevendo, só que agora mais
lento, mais devagar. A mente jorrava aos borbotões palavras inundando a tela do
monitor. Percebia o trabalho penoso o qual teria que se impor.
No instante em que
os ponteiros se encavalaram sobre o número doze, concluiu que não tinha mais
nada para dizer e, sendo assim, pressionou o ponto final, salvou, copiou, colou
no corpo do e-mail, endereçou, clicou e enviou. Pronto mais uma missão
cumprida. Já estava desligando o computador quando uma dúvida o sobressaltou.
Abriu o arquivo e leu atenciosamente. Sim, estava bom, o final pecava um pouco,
não era um final verossímil, será que agradaria? O importante não é agradar e,
sim, ter criatividade fazendo o certo. Foi dormir sossegado com a convicção de
que acertara. Porém, Lucio não contava
com uma coisa: a sua distração.
No dia seguinte ao ler os e-mails, recebeu um
da coordenadora do projeto Quinhentas Palavras, dizendo o seguinte:
- Caro Lucio. Você
foi desclassificado, mandou para a lista e não para mim, portanto seu texto não
entra na competição. Como é o seu quarto erro ficará proibido por quatro meses
de participar do projeto Quinhentas Palavras ou você pensa que aqui tem alguém
com cara de palhaço não tem não. Assinado: coordenadora do Projeto Quinhentas
Palavras.
Aparvalhado
chutou as cinquentas latinhas vazias de cerveja.
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