sábado, 8 de agosto de 2020

Contos surrealistas 116

 

O pacote

 

 

Lucius Claudius consultou o cardápio. Acabou optando pelo lanche mais barato. Pressionou o botão no centro da mesa e o cardápio holográfico apagou. Logo em seguida o garçom com voz metálica colocou a sua frente o que pedira. Não levou nem dois segundos. A eficiência trazia estampada no quadro do restaurante à nota máxima: dez. Aliás, quase todos os restaurantes, principalmente os do centro, os de prestígios, que possuíam condições financeiras, tinham aderido ao modernismo. Não se via mais a mão humana, tudo era mecanizado, desde o preparo da comida até a mesa do cliente. O que deixava o ambiente meio que frio sem a agitação de garçom de um lado para o outro, vozes reclamando, pedindo, fila de espera, em contrapartida, tudo era rápido, eficiente, limpo, comida saborosa, não se perdia tempo.

Lucius Claudius consultou o relógio estampado na parede. Cedo ainda, resmungou mentalmente enquanto mastigava o pedaço de frango ao molho inglês. Não tinha intenção e nem queira demorar, apenas sentia que algo o atrasaria. Não tinha certeza o que era e nem o que poderia ser, sentiu na pele o vento frio. Nisso, ouviu a voz metálica do garçom:

- Senhor Lucius Claudius?

Espantado, ergueu os olhos para a figura ao lado da mesa:

- Sim.

- Mandaram entregar esse pacote para o senhor.

E sem dizer mais nada e, sem dar tempo de Lucius Claudius retrucar, o garçom colocou o pacote na mesa e foi embora. Que modo rudimentar de entregar encomenda! O certo seria receber e, só depois de aceitar e assinar o aviso holográfico, é que a encomenda seria entregue. Olhou o pacote sem tocar. Que embrulho horrível, papel amassado, cheio de carimbos e selos, o seu nome e endereço estavam escrito na letra antiga. O que poderia ser? Quem mandou para ele? Não havia remetente, apenas um carimbo ilegível. Pensou em devolver. Não, não era aconselhável, teria que passar por um questionário enfadonho explicando por que estava devolvendo.

E se fosse uma bomba? Iguais aquelas de cem atrás? Impossível, terrorismo não existia mais, o mundo tornara-se um só país. E se fosse algum inimigo? Ele tinha inimigo? Acreditava que não. E se esquecesse o pacote em cima da mesa ou da cadeira? De nada adiantaria. Os garçons metálicos estavam programados a levar ao destino qualquer objeto abandonado no restaurante, portanto era bem capaz ao chegar à casa encontrar um deles na portaria do prédio. De duas uma, no caso de bomba: abrir em casa e morrer sozinho ou, abrir aqui e morrer acompanhado. Optou pelo segundo.

- Quero morrer acompanhado, chega de ser sozinho.

Pensando assim, abriu o pacote devagar. Tirou o primeiro papel, tirou o segundo, e, abriu a caixa...

Ninguém sabe explicar, nem a polícia, nem os estudiosos mais capacitados, não sabem o que aconteceu. Até o rapaz, testemunha do caso que disse:

- No momento em que abri a porta o prédio desapareceu, ficou só o espaço vazio do que era o restaurante.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...