sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.574(2020)

            Feliz ano novo.

 

            Dona Amélia acendeu as duas velas, fez o sinal da cruz e se levantou agradecendo a santa de sua fé por mais um ano que todos estavam juntos, filhos, genros, noras, netos e a caminho o primeiro bisneto, até o namorado do seu filho estava com eles. Com o peito leve saiu do quarto. Ao chegar na sala ouviu o primogênito dizer:

            — Quem vai discursar esse ano?

            Todos olharam um para o outro quietos. E logo seguida sem esperar resposta disse:

            — O Norberto.

            Na mesma hora Norberto retrucou:

            — Não, eu não, sou tímido, não sei falar em público, passo a minha vez.

            — É né, tímido, sei, mas para...

            — Cala essa boca Francisco, retrucou Dona Amélia.

            — Isso mesmo irmão, não fale besteira, falou Fabio abraçando Norberto

            — Não ia dizer nada, eita gente desconfiada.

            — Te conheço, irmão.

            — Isso mesmo, Francisco fecha essa boca pecadora.

E virando-se para o namorado do seu filho Dona Amélia perguntou:

— Norberto vai fazer o discurso ou não?

            Todo envergonhado Norberto se levantou e de leve com a colher bateu no copo.

            — Ok, pessoal. Por favor a atenção. Apesar desse ano ruim com a pandemia que passamos, temos sorte de todos estarmos aqui. Quero agradecer a todos o carinho por me aceitarem, sei que fiquei faltando com vocês, principalmente com Norberto que ficamos todos esses anos separados. Te amo, Norberto. E espero ver em todos os rostos a satisfação e alegria nesse dia, agradecermos a Deus e mais uma vez obrigado.

            E ao som de viva e aplausos, Norberto beijou Fábio.

            De repente se fez um enorme silencio. Na porta da sala apareceu um casal jovem com os olhos assustados como se descobrissem algo extraordinário.

            — Rodrigo, Gisele o que vocês estão fazendo aqui?

            — Recebemos um telefonema de Dona Amélia nos convidando.

            — Filho deixe te explicar...

            — Pai, não precisa explicar nada, entendemos, Dona Amélia conversou com a gente por muito tempo e concluímos que cada um deve viver a sua vida.

            — É o que sempre tentei te explicar, mas parecia que vocês não entendiam isso.

            — Sim, Senhor Norberto, desculpe o que falamos outro dia, queremos que o Senhor seja feliz.

            — Obrigado, meus filhos, me deem um abraço, e desculpe também pelo transtorno que causei a vocês e aquele bate boca que tivemos, também quero que sejam felizes.

            Nisso Fabio chegou perto e se apresentou:

            — Prazer, Fabio. Quantos meses?

            — Desculpe, Fabio meus filhos Rodrigo e Gisele e meu futuro neto.

            — Prazer Rodrigo.

            — Já escolheram o nome?

            — Sim, Fabricio.

            — Bonito nome.

            — Venham, vamos comer, se acheguem, disse Dona Amélia para Rodrigo.

            — Desculpe, Dona Amélia, não vamos ficar, só passamos porque a senhora nos convidou e para ver e me desculpar com o meu pai. Agradeço por essa ajuda, tirou um peso dos nossos ombros. E ao senhor, meu pai, mais uma vez seja feliz, não estamos mais magoados com o senhor, entendemos que cada um tem que ter a sua própria vida seja ela qual for.

            — Obrigado, meu filho. Não querem ficar mesmo?

            — Não, combinamos com os pais da Gisele...

            — Entendo. Vão em paz, então.

            Pouco tempo depois.

            — Fabio.

            — Desculpe, fuçar o seu celular. Vi que você estava meio triste, peguei o número do seu filho, aliás tem por quem puxar, bonito como o pai, e pedi para minha mãe ligar para ele.

            — Está desculpado, foi por uma boa causa.

            — Que foi, querido, está chorando?

            — Não, estou emocionado.

            — Bobo. Vamos nos alegrar.

            — Estou alegre.      

            E erguendo os copos.

            — Feliz ano novo.

 

            É isso... ou, não é?

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