Cena 01
Podia
vê-la em pé olhando a rua pela janela. Contemplava as suas costas largas, um
pouco vergada para a frente, mesmo assim, bonita, alta, sentia sua respiração
lenta debaixo da roupa. Vagarosamente ela se virou e veio sentar-se na beira da
cama e pegou a sua mão.
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Espero que tenha passado esses anos feliz. – disse acariciando as costas da mão
dele.
Olhando
para ela, respondeu devagar.
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Por favor, pode chamar a enfermeira.
Ela
pressiona um botão na parede ao lado da cama. Segundos depois entram duas
enfermeiras.
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Pois não.
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Preciso...
Uma
das enfermeiras dirigindo-se a ela, pede:
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Por favor, pode esperar uns instantes lá fora?
Silenciosa
ela sai do quarto. Aproveita para fumar vai para o pátio do hospital. Há uma
quietude ensurdecedora entre as paredes brancas dos corredores. Parece ouvir
gritos e gemidos silenciosos pedindo para viver. Não gosta de hospitais, não
sabe como podem as pessoas trabalharem num ambiente como esse. Ao término do
cigarro, volta para o quarto. Ao chegar encontra ele sentado almoçando.
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Como é ruim essa comida.
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Ninguém gosta.
Nota
que ele respira entrecortado, puxando com força o ar para dentro, com
dificuldade leva a colher a boca.
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Posso?
Pergunta
na tentativa em ajudá-lo. Ele larga a colher no prato e duas lágrimas
silenciosas rolam dos seus olhos apagados. Sem se falarem, ela pega a colher e
devagar leva à boca dele. Não se olham nos olhos, apenas pensamentos se ouve no
espaço do quarto. No silencio da fala por instantes sequem os movimentos da
vida. Pouco depois ouvem baterem na porta.
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Entre.
A
porta se abre e entra um home dos seus quarenta anos, alto, moreno, corpo
largo, sorriso de tristeza.
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Boa tarde. Como está?
Ele
olha para o rapaz e estende a mão para ele. Não é preciso palavras, apenas os
olhares dizem o que os lábios não querem dizer. O rapaz olha para ela e a
cumprimenta.
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Boa tarde.
Ela
responde:
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Boa tarde.
E
sai do quarto, sua presença não é mais necessária. Dois dias depois recebe a
notícia do seu falecimento.
É
isso... ou, não é?
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