segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 7.611(2020)

                                     Cena 01

 

                        Podia vê-la em pé olhando a rua pela janela. Contemplava as suas costas largas, um pouco vergada para a frente, mesmo assim, bonita, alta, sentia sua respiração lenta debaixo da roupa. Vagarosamente ela se virou e veio sentar-se na beira da cama e pegou a sua mão.

                        --- Espero que tenha passado esses anos feliz. – disse acariciando as costas da mão dele.

                        Olhando para ela, respondeu devagar.

                        --- Por favor, pode chamar a enfermeira.

                        Ela pressiona um botão na parede ao lado da cama. Segundos depois entram duas enfermeiras.

                        --- Pois não.

                        --- Preciso...

                        Uma das enfermeiras dirigindo-se a ela, pede:

                        --- Por favor, pode esperar uns instantes lá fora?

                        Silenciosa ela sai do quarto. Aproveita para fumar vai para o pátio do hospital. Há uma quietude ensurdecedora entre as paredes brancas dos corredores. Parece ouvir gritos e gemidos silenciosos pedindo para viver. Não gosta de hospitais, não sabe como podem as pessoas trabalharem num ambiente como esse. Ao término do cigarro, volta para o quarto. Ao chegar encontra ele sentado almoçando.

                        --- Como é ruim essa comida.

                        --- Ninguém gosta.

                        Nota que ele respira entrecortado, puxando com força o ar para dentro, com dificuldade leva a colher a boca.

                        --- Posso?

                        Pergunta na tentativa em ajudá-lo. Ele larga a colher no prato e duas lágrimas silenciosas rolam dos seus olhos apagados. Sem se falarem, ela pega a colher e devagar leva à boca dele. Não se olham nos olhos, apenas pensamentos se ouve no espaço do quarto. No silencio da fala por instantes sequem os movimentos da vida. Pouco depois ouvem baterem na porta.

                        --- Entre.

                        A porta se abre e entra um home dos seus quarenta anos, alto, moreno, corpo largo, sorriso de tristeza.

                        --- Boa tarde. Como está?

                        Ele olha para o rapaz e estende a mão para ele. Não é preciso palavras, apenas os olhares dizem o que os lábios não querem dizer. O rapaz olha para ela e a cumprimenta.

                        --- Boa tarde.

                        Ela responde:

                        --- Boa tarde.

                        E sai do quarto, sua presença não é mais necessária. Dois dias depois recebe a notícia do seu falecimento.

                        É isso... ou, não é?

 

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