A última pá.
O rio o cortava em dois. Corredeira de sentimentos retalhava-o de cima embaixo. Não tinha pretensão em dominar o barco batendo nas margens do ódio ou da intransigente indiferença. Deixava-se levar pelos acontecimentos, mesmo que com isso viesse causar dor física. O escrever já não o prendia as coisas pequenas, aos detalhes da vida, a dor é que conduzia o olhar aos insignificantes momentos, aos instantâneos ínfimos do pensamento.
Precisava comprar pão, tinha necessidade de viver. Não
ia comprar flores, não possuía qualidade para ser anfitrião e dar um jantar,
além do que não conhecia nenhum escritor famoso. A manhã repartia a rua em
sombras e claridade e, apesar da hora, estava quase deserta. O tédio causava
sensação de algo antigo, como uma música tediosamente tocada sem interrupção. Ao
receber o pão e pagar no caixa, surgiu a cruciante pergunta: quem é você? Ora
bolas, sou um sujeito comum igual a qualquer um com quem cruzo na rua! Aí que
estava a questão: comum. Não via empecilho algum nisso. O que recusava entender
é que ele era comum demais, o que chegava às vezes ao cúmulo da estupidez.
Jogou o saco com os cincos pães em cima da mesa
rispidamente. Não viu a esposa que ao sair do banheiro presenciou o gesto
brusco do marido.
- Pra que jogar o pão dessa maneira?
Não deu atenção. Subiu as escadas e se trancou no
quarto. Queria colocar em palavras o que estava sentindo, dar a noção exata do
que se passava. Pousou os dedos em cima das teclas prestas e deixou que
passeassem a vontade pelas letras. Numa agilidade da qual se orgulhava, foram
surgindo no monitor palavras, frases, sentenças, períodos formando ideias não
muito claras do pensamento. Nisso, a mente se abriu e como cenas
cinematográficas, lembrou-se de um fato ocorrido.
Era uma tarde, como a de hoje, clara e quente, quando
do alto da escada ouviu a mulher gritar:
- João, corre, a tia caiu no banheiro.
Esse a tia caiu no banheiro ao invés de acudir
rapidamente, deixou-o preso à cadeira, foi preciso à esposa sacudi-lo. E indeciso,
pensou em procurar outra chave ou forçar a porta com uma ferramenta, até que,
com um chute, conseguiu arrebentar a fechadura.
A tia estava caída entre os cacos do boxe,
ensanguentada e nua. Com a ajuda da mulher, conseguiu leva-la para o corredor. E
ali, em pé, ouvindo a respiração ofegante da pobre mulher, enquanto a esposa
providenciava o socorro, constatou quanto havia de fragilidade em seu intimo ao
ponto de não conseguir salvar e nem derramar uma lágrima pela tia.
E assim que o coveiro jogou a última pá de terra
cobrindo o caixão, tomou conhecimento de como era um ser comum demais.
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