quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 104

                                 A verdade dói mais que a mentira

 Em uma engrenagem perfeita a roda gira dentro dos eixos, talvez infinitamente, se a manutenção for rigorosa e constante. Mesmo assim há o desgaste das peças, o que é natural. Quando a porta mudou de cor, de vermelho para o verde e abriu ao mesmo tempo ouviu a voz metálica:

- Estação Planetária de Sirius. Ao ouvirem o sinal não entrem e nem saiam do trem. A faixa amarela é a sua segurança.

Ao descer na plataforma, subiu a escada e saiu da estação, entrando no carro estacionado em frente onde leu no parabrisa: Truman – destino: Centro Comercial de Sirius. No momento em que se acomodou e a porta fechou, ouviu um sibilar agudo e o pequeno carro levitou por cima da esteira na direção do centro.

O que fazia nesse planeta distante numa galáxia distante? Tudo indicava, como lhe disseram, viera para coordenar uma pesquisa de urgência. Só espero não encontrar nenhum monólito gigante. Apesar dos avanços tecnológicos, algumas coisas ainda permaneciam os mesmos, refletiu vendo a paisagem monótona correr diante dos olhos.

Ouviu também que, quem vinha para Sirius era por defeito ou, por não servir mais na engrenagem do sistema. Em qual categoria se enquadrava? Defeito ou não servia mais? Tudo bem sentia às vezes a máquina óssea falhar, como se dois ossos raspassem um no outro causando uma pequena dor. Não era caso para alarme, discreto como sempre fora, achava que ninguém soubesse. No entanto estava nesse planeta horrível, fazendo o que? Coordenar uma pesquisa estúpida, talvez até inventada, apenas uma farsa para cobrir a verdade. E por que é preciso de subterfúgios, por que não ser direto, dizer logo por que o mandaram para Sirius? A verdade dói mais que a mentira. A mentira suaviza a dor, tem-se o baque da descoberta, mas depois certa compreensão dos fatos ameniza o sofrimento.

Há muito tempo tinha o pressentimento de viver falsamente, como marionete obedecendo ao comando de mãos invisíveis. A dúvida o atormentava. Seria ele máquina ou somente um item descartável? Se fosse máquina não estaria aqui, trocava-se a peça ruim por uma boa e estaria novinho novamente. Era um item descartável, chegou à conclusão. Será desmontado, partes por partes, cabeça, tronco, membros, órgãos, classificados e expostos à venda no caso de algum ser humano ou máquina precisarem ou, se no caso a validade for vencida, as peças serão derretidas para a fabricação de novas.   

E da prateleira, no meio de diversas cabeças, mudo sem poder pronunciar uma sílaba, foi que viu suas partes serem derretidas no grande caldeirão bem no meio do galpão.

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