E viveram felizes para sempre
- Só preciso de um tempo, se é que me entende, depois podemos viver
juntos, compreende?
Jorge acreditava nas palavras só não sabia se Andrea o levava a sério.
Tinha a certeza que sim, isto porque, olhava-o bem nos olhos. Prometera vida
melhor, um lugar decente para trabalhar, sair da boate onde toda a noite se
travestia, promessas que pretendia cumprir. No entanto preso à vida de casado as
soluções tornavam-se lentas.
Doralice ofendida vivia se perguntando: como foram chegar ao ridículo
de tamanha proporção em que estavam? Como foi tão cega e não ver o que se
passava? Tinha alguma culpa? Talvez, deveria ser mais atuante, menos passiva,
exigente até com o marido... O que lhe adiantava agora as perguntas? O que foi
não volta mais, foi e pronto.
Andrea vivia, comia, dormia e trabalhava na boate, não tinha outra
opção. Conhecera Jorge numa noite depois de show em que ele foi até o camarim
para conhecê-la. Admirado por ela, Jorge propôs que fossem morar juntos.
Aceitou, não podia perder tal oportunidade, era uma forma de sair, pelo menos
algumas horas da boate, mas com uma condição, que ele largasse a mulher. Foi
nesse momento que Jorge lhe disse:
- Só preciso de um tempo para falar com Doralice, entende?
- Certo – respondeu Andrea antevendo uma possível decepção.
Para sua surpresa, dez dias depois, Jorge chegou e lhe disse:
- Aluguei um flat, pegue suas coisas e vamos.
Assim estavam os dois vivendo docemente quando uma tarde surge Doralice
esbravejando porta adentro.
- Escuta aqui, Jorge. Essa situação ridícula não pode continuar. Faz um
mês que não aparece em casa. Depois que conheceu... Esse... Essa... Anor...
- Anormalidade não, meu bem. Travesti, não vamos engrossar não, ouviu?
- Doralice, sejamos maduros. Gosto da Andrea, prometi morar com ela...
- E eu? Você não prometeu nada?
- Nem somos casados... Também, gosto de você, mas é diferente, é um
gostar de outra maneira...
- Diferente no que? Diga-me? É o que há no meio das pernas, é isso?
- Doralice, seja sensata, por favor.
Nisso, de dentro da bolsa, Doralice tira uma arma e aponta para os dois
que, assustados recuam.
- Doralice, cuidado, veja o que vai fazer.
- Vou matar os dois, você e ela... Ou ele... Ou é melhor matar só você,
hein Jorge? O que acha? Talvez, ela, aí você fica só para mim.
- Espere, vamos conversar. – disse Andrea.
- Conversar uma ova!
- Escuta que tal se morássemos todos juntos. – disse Jorge.
- O que? Você está louco? Isso é...
- É o que, Doralice?
- É ridículo.
- Não é não. Pense bem, você terá duas pessoas para amar e que te amam.
Não precisará trabalhar, eu e Jorge trabalhamos para você. Só terá que cuidar
da casa, lavar roupa e cozinhar. O que acha?
Enquanto falava, Andrea foi chegando perto até que tirou o revolver da
mão de Doralice e abraçou-a.
Assim viveram felizes para sempre.
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