segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 106

 

O convite, será...

 

O ar noturno entrava pela porta da varanda balançando levemente as folhas da pequena árvore no canto da sala. Pegou a caneca, encheu de água e regou a planta que tomava o vaso todo. Logo precisaria mudar para um maior. Colocou a caneca dentro da pia, despejou uma dose generosa de uísque no copo e voltou para sala. Seus olhos, acostumados com a pouca claridade, permitia andar sem bater nos móveis. Estando no décimo quinto andar, a claridade da cidade lançava para dentro a luminosidade da madrugada. As sombras emolduravam a angústia desordenando os pensamentos. Quanto tempo esse estado catatônico permaneceria nele? Há um niilismo meio que latente nos movimentos, pensou melancólico.

Talvez, o erro seja a performance nos jogos da vida. Quem sabe se desempenhasse com mais confiança e corretamente as regras do jogo. Que vão à merda as regras. Para que servem? Tolher os incautos? Aprisionar os tímidos? Lançar duvida? No escuro da sala o pulsar dos móveis corria nas veias. Tinha bronca quando algo interrompia a rotina. Mais de cinco horas esperava dentro do escuro a volta da energia. Preso dentro de um acontecimento que não esperava, não via alternativa senão sair. Tateando se vestiu e meio às cegas, tendo apenas uma fraca luz, desceu com cuidado as escadas.

Chegando à calçada, contente pela proeza, constatou que uma fina garoa molhava os alicerces da cidade. Mais essa ainda rilhou entre os dentes. Atravessou a rua e entrou na padaria vinte e quatro horas. Pediu um maço de cigarros e uma cerveja. Foi sentar no canto, onde estava mais escuro. Apesar do gerador, a iluminação fraca construía figuras interessantes na parede branca. Começava pequena, depois se alongava tomando quase a parede toda, e terminava pequena. Por um bom tempo ficou perdido nas figuras indo e vindo, se misturando, se complementando, unindo, desunindo. Terminou a cerveja, pagou e saiu.

Já não chovia mais. Parado no meio fio tirou um cigarro e ao riscar o fósforo, ouviu buzinar e um carro parar perto dele. Terminou de acender o cigarro e se inclinou para ver quem era.

- Pra onde vai? Quer uma carona?

Pra onde eu vou? Se quero uma carona? O cara ta pensando o que?

- Quer uma carona ou não?

Pensou nas probabilidades. Olhou para o prédio. Subir os quinze andar de escada não era façanha para ninguém, muito menos para ele, preguiçoso. Depois, não tenho nada para fazer mesmo.

- Quero sim, respondeu entrando no carro.

Talvez viesse a se arrepender desse ato, queria matar o tédio, poderia se arrepender, mas agora não era momento de pensar nisso, disse sorrindo levemente.

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