O convite,
será...
O ar noturno
entrava pela porta da varanda balançando levemente as folhas da pequena árvore no
canto da sala. Pegou a caneca, encheu de água e regou a planta que tomava o
vaso todo. Logo precisaria mudar para um maior. Colocou a caneca dentro da pia,
despejou uma dose generosa de uísque no copo e voltou para sala. Seus olhos,
acostumados com a pouca claridade, permitia andar sem bater nos móveis. Estando
no décimo quinto andar, a claridade da cidade lançava para dentro a
luminosidade da madrugada. As sombras emolduravam a angústia desordenando os
pensamentos. Quanto tempo esse estado catatônico permaneceria nele? Há um
niilismo meio que latente nos movimentos, pensou melancólico.
Talvez, o erro
seja a performance nos jogos da vida. Quem sabe se desempenhasse com mais
confiança e corretamente as regras do jogo. Que vão à merda as regras. Para que
servem? Tolher os incautos? Aprisionar os tímidos? Lançar duvida? No escuro da
sala o pulsar dos móveis corria nas veias. Tinha bronca quando algo interrompia
a rotina. Mais de cinco horas esperava dentro do escuro a volta da energia. Preso
dentro de um acontecimento que não esperava, não via alternativa senão sair. Tateando
se vestiu e meio às cegas, tendo apenas uma fraca luz, desceu com cuidado as
escadas.
Chegando à
calçada, contente pela proeza, constatou que uma fina garoa molhava os
alicerces da cidade. Mais essa ainda rilhou entre os dentes. Atravessou a rua e
entrou na padaria vinte e quatro horas. Pediu um maço de cigarros e uma
cerveja. Foi sentar no canto, onde estava mais escuro. Apesar do gerador, a
iluminação fraca construía figuras interessantes na parede branca. Começava
pequena, depois se alongava tomando quase a parede toda, e terminava pequena.
Por um bom tempo ficou perdido nas figuras indo e vindo, se misturando, se complementando,
unindo, desunindo. Terminou a cerveja, pagou e saiu.
Já não chovia
mais. Parado no meio fio tirou um cigarro e ao riscar o fósforo, ouviu buzinar
e um carro parar perto dele. Terminou de acender o cigarro e se inclinou para
ver quem era.
- Pra onde vai?
Quer uma carona?
Pra onde eu
vou? Se quero uma carona? O cara ta pensando o que?
- Quer uma
carona ou não?
Pensou nas
probabilidades. Olhou para o prédio. Subir os quinze andar de escada não era
façanha para ninguém, muito menos para ele, preguiçoso. Depois, não tenho nada para
fazer mesmo.
- Quero sim,
respondeu entrando no carro.
Talvez viesse a
se arrepender desse ato, queria matar o tédio, poderia se arrepender, mas agora
não era momento de pensar nisso, disse sorrindo levemente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário