Otávio e Otilia – uma história verdadeira.
Ouviram:
- Até que a morte os separe.
Em seguida o padre fez o sinal da cruz e disse:
- Pode beijar a noiva.
Depois de não sei quantos anos é que beijava pela
primeira vez a mulher que amava. Quantos anos depois? Não lembrava. Estava com
cinqüenta e dois anos, Otília com quarenta e três.
Conheceram-se na casa da prima de Otávio. Otilia
sentada no canto do sofá demonstrava uma timidez apaixonante que atiçou Otávio.
Após trocarem um olhar rápido com que fez Otilia abaixar a cabeça, gesto que encantou
Otávio, pediu licença e sentou ao lado dela. Apesar do corpo franzino Otilia
transbordava simpatia e encanto aos olhos de Otávio. A princípio a conversa foi
monossilábica e ao se despedirem prometeram não deixar de se verem.
Assim, dois meses depois, oficializaram o namoro,
passando Otávio a freqüentar a casa da namorada. Otilia na flor de idade com
seus vinte anos, tímida e submissa, não tinha voz própria, por viver sob o
comando do irmão mais velho, desde os nove anos, obedecia cegamente o irmão e a
cunhada.
Otávio apesar do defeito da perna obrigando-o a usar
bengala era bonito e atraente. Como alfaiate trabalhava em casa, o qual proporcionava
viver mais ou menos bem. Era o terceiro de cinco irmãos e por causa da
deficiência não se sentia na obrigação em ajudar financeiramente os pais. Com
isso podia usufruir do ganho como quisesse o que fez com que Otilia pensasse
fosse rico.
Otávio, aos poucos, foi se revoltando com tanta
submissão de Otilia. Tudo o que ocorria entre eles, contava em casa. Do mais
corriqueiro gesto ao mais importante dos momentos. O pior é que contava para
Otávio que fulano ou sicrano dizia que ela devia agir assim ou assado e o que
devia ela dizer para ele.
Um dia, quatro meses depois, Otávio revoltou-se com
Otilia rompendo o namoro, sumiu da vida dela. Conformista Otilia não sofreu, dizia:
- Aconteceu é porque tinha que acontecer.
Continuou com a vida submissa sem se preocupar se
estava sofrendo ou não. Por sua vez, sem ter explicação para o caso, Otávio
chegou à conclusão que realmente não a amava como julgava. Tudo não passou de mera
ilusão.
Transcorreram, talvez, vinte anos sem saberem da vida
um do outro.
Uma noite, Otilia sentada no canto do sofá na casa da
prima viu Otávio e reataram a conversa que, como da primeira vez, foi
monossilábica e um mês depois estavam se casando ouvindo o padre dizer:
- Até que a morte os separe.
Ao saírem da igreja, o carro dos noivos, sem saberem o
motivo, desgovernou e entrou debaixo de um caminhão que estava parado. Otilia e
Otávio foram hospitalizados com ferimentos graves. Otávio duas semanas depois
veio a falecer por complicações sem que os médicos soubessem o motivo. Otilia
ficou ainda um mês hospitalizada e, ao saber da morte do marido, passou a viver
em estado depressivo até um dia em que morreu no silêncio do seu quarto.
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