A porta de madeira trabalhada.
Teodoro bateu na porta duas vezes, três vezes, na quarta esmurrou até sentir dor. Então parou de bater. Escorregou encostado na madeira trabalhada por algum artista desconhecido, sem se importar que as protuberâncias o machucassem. Sentiu o frio do chão se infiltrar pelo tecido da calça e magoar a carne. Encolheu-se como se com isso fosse eliminar a feridade que o impulsionava. Rolou pelas lágrimas da decepção, bebeu o fel do sentimento e abraçou a fatalidade no intuito de se levantar. No entanto, continuou onde estava no frio chão de lajota preta com desenho branco encostado a porta de, talvez, carvalho quando, sem perceber, dormiu. E para seu desespero sonhou.
Onde estava e para onde estava indo não sabia.
Caminhava por uma rua estreita deserta com casas antigas dando a impressão que
ninguém vivia nelas. Sentia-se nu apesar da calça jeans. Foi então que notou,
estava sem camisa o que o deixou constrangido, não tem costume de sair desse jeito.
Percebeu que os pés moviam automáticos, impulsionados por alguma coisa que não
definia o que era. Deixou-se levar, não se opôs, não adiantava lutar. O destino
é que dava as ordens.
Nisso viu-se dentro do cemitério. Lia as lápides sem
sair do lugar, elas passavam a sua frente feito slides. Lá estava à lápide da tia,
do tio, dos primos, alguns conhecidos, o vizinho chato, a cunhada, foi lendo
uma por uma, quando de repente, surgiu a sua. Por que lia seu nome, a data do
nascimento, a data da morte, se estava vivo? É alguma piada? Como podia? Aos
poucos foi envolvido por um turbilhão de palavras, perguntas, dúvidas, angustia
medo arremessando-o longe.
Foi jogado de um lado para o outro, até que sentiu o
chão aos seus pés. Olhou a escuridão que o envolvia. Aos poucos os olhos foram
divisando os contornos das sombras. Sufocou o grito. Estava dentro da cripta. A
cripta da família. Leu os nomes dos pais, do irmão que morreu atropelado, da
avó, do avô, e lá em cima na última prateleira seu nome. Mas ela estava vazia,
não tinha nada. Foi então que viu o caixão estraçalhado aos seus pés.
Correu para a porta de madeira trabalhada, bateu uma
vez, duas vezes, três vezes, e na quarta esmurrou mesmo sabendo que de nada
adiantava.
O raio do sol pela pequena janela no alto iluminou a
cripta indo bater em cheio ao corpo em decomposição encostado a porta de
madeira trabalhada.
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