segunda-feira, 15 de março de 2021

Contos surrealistas 90

 

Desaparecidos.


A noite se infiltrando pela persiana banha os corpos na serenidade do sono. Ao longe a sirene de algum carro policial quebra a quietude do quarto acordando Leandro. Sonolento puxa as cobertas ao ver as horas no rádio relógio.

- Droga!

Arrastando os chinelos como se fosse chumbo, entra no banheiro, abre a torneira do chuveiro e deixa-se lamber pela água morna. Em vinte minutos toma banho, se veste, e ao passar pela cama, cobre o corpo nu do amigo. Em frente ao espelho, confere a roupa, o cabelo e sorri satisfeito.

Na lanchonete da esquina, pede café com pão na chapa, quando surge o carro da policia parando em frente ao prédio. Enquanto se dirige a mesa perto da janela, vê dois homens saindo do carro e entrarem no edifício. Instantes depois, os dois homens entram na lanchonete.

- Bom dia, posso? – pergunta o homem sem chapéu.

- Claro, estava esperando os senhores.

- Como assim?

- Meu nome é Leandro e os senhores encontraram o meu amigo Rafael morto no meu apartamento.

- Certo.

- Para não prolongar muito, eu matei o Rafael a pedido dele, isto é, do destino.

- Então temos que levá-lo preso.

- Espere deixe contar como tudo aconteceu.

- Estamos ouvindo.

- Estava jogando pôquer na casa de outro amigo quando Rafael chegou. Ficou observando até o final quando os perdedores, como o combinado, tiveram que jogar a Roleta Russa. Eu estava entre os perdedores. Colocaram uma bala no revolver, giraram o tambor e a arma foi passando de mão em mão. Aí que está o inusitado, a bala não disparou, ela simplesmente sumiu do tambor, tinha desaparecido. Ficamos assombrados, queriam jogar de novo, nos os perdedores não queríamos, por fim, depois de muito bate boca, sem chegarmos a uma conclusão, fomos embora. Rafael saiu comigo, e na rua me mostrou a bala. Foi então que fiquei sabendo do que ele era capaz. Não só fazer uma bala desaparecer como levitar, atravessar paredes, obrigar qualquer pessoa a fazer o que ele quisesse, em fim, o cara era poderoso, e tinha me escolhido para ser substituto dele. A partir daquele dia passaria a acompanhar e aprender todos os poderes dele. E assim, mais de cinqüenta anos fui aprendendo e hoje sou tão poderoso como ele foi. E assim será daqui a mais cem anos, vou encontrar alguém para me substituir e esse alguém vai me matar. É o destino, diz que não podem existir dois poderosos, entende?

- Não, sinceramente não entendi. – disse o delegado chefe para os dois homens a sua frente.

- Foi o que ele nos contou, chefe.

- E onde está ele?

- Sumiu.

- O que? – berrou o chefe – Sumiu como?

- Não sabemos, quando chegamos aqui só achamos a roupa dele no banco do carro. Ele tinha desaparecido.

- E vocês querem que eu acredite nessa história? Vou dizer uma coisa: sumam da minha frente, senão eu desapareço com vocês, só voltem quando tiverem uma boa história para publicar, compreendem?

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