Você não está sozinho.
Rian nadava em movimentos precisos. Percorria a
distância com calma sem exageros. Não usava aparelho para respiração. As
quelras desenvolvidas filtravam o oxigênio dando-lhe mobilidade. Com isso
aproveitava à corrente amenizando as forças. As braçadas tinham a beleza dos
volteios dos golfinhos, os pés rasgavam o azul da água impulsionando o corpo, o
tronco em conjunto com o quadril obedecia aos movimentos dos pés e dos braços.
Rian era o único que se adaptara, por isso, descia aos
confins das águas profundas, como dizia. Acostumado com a navalha da maré, sorriu
ao ver o peixe se aproximando. Retraiu os músculos desviando-se do crustáceo.
Não precisava mais dele, fora útil no principio da adaptação, mesmo assim,
acariciou as escamas fazendo-se agradecido. O peixe nadou a sua volta e depois
sumiu nas águas do destino.
Rian mentalmente agradeceu sentindo-se protegido.
Tinha que descer mais um pouco. Foi então que a visão começou a se turvar e a
batida do coração descompassada obrigou-o a lentidão. Os braços e as pernas já
não obedeciam, flutuavam ao movimento da água. Algo lhe dava a sensação de
conforto, de que não estava só nos confins das profundezas.
Rian vinha se sentindo solitário, um peixe fora da
água, singrava aquelas paragens sem ter com quem conversar. Depois do grande
terremoto fora obrigado a viver no mar, o que a principio, teve que usar o
aparelho para respiração. Ousado, como diziam, tirava um pouco por dia o
aparelho e tentava respirar debaixo da água, assim, acredita, desenvolveu as
quelras que, hoje facilita viver mais dentro da água do que fora.
Rian uma vez por semana era designado a colher
alimento, pois a escassez na terra aumentava a proporções alarmantes. E nadando
entre as rochas e escombros, indagava se não haveria outras pessoas iguais a
ele, afinal se conseguira se adaptar por que outros também não conseguiriam?
Mas quem seria esses outros? Não acreditava nessa hipótese.
Rian sentiu algo
tocando seus braços e pernas. Com esforço ergueu a cabeça. Não se mexa, ouviu
em sua mente. Obedeceu e quando pode, reparou que estava cercado por pessoas
iguais a ele. De onde vieram? Quem seria? Nisso ouviu na mente alguém dizer:
Você não está sozinho. Sim, não estava mais sozinho, sorriu e ficou sabendo que
havia muitos na mesma situação, vários que conseguiram se adaptar aos confins
das águas profundas até que a superfície voltasse a ser habitável novamente.
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