segunda-feira, 1 de março de 2021

Contos surrealistas 95

Separação

 O vento batia nas folhas balançando-as ao sabor do sol aquecendo a manhã. Renato não conseguia tirar as palavras da mente. “Não vá embora” disse ao se despedirem. Enquanto o vento batia nas folhas da árvore, mentalizava todos os momentos da noite passada. Revia os instantes no quarto do motel com morbidez e satisfação. Tentava criar as fibras de cada letra assim como sentia as fibras das folhas arrastadas e presas aos galhos. Não vá embora ouviu deixando-o preso ao som da voz nasalada. No entanto não foi embora, ficou sozinho no quarto dentro da noite perdida de neons e sons arrastado pelo vento dos sentimentos. Onde estava o tom das letras? Não ouviu, o tom certo de quem deseja mesmo o que fala. Impossível, se não percebeu quando foram proferidas, agora por mais que pronunciasse mil vezes não iria sentir o tom certo.

Caminhou até a pequena árvore Segurou uma folha. Sentiu toda a complexidade das nervuras da planta. No entanto como era frágil diante do intricado sentimento arvorando o peito em dor e angústia. Mas nessa fragilidade estava à força da folha enfrentando as intempéries da natureza. Renato descobria-se forte contra a fragilidade da paixão. Estaria com pena de si mesmo? Talvez, apesar de não entender se era verdadeiro ou não. Tinha dúvidas.

Renato, no entanto, não acreditava nas pessoas. O que poderiam elas lhe proporcionar? Possuíam o que chamavam de amor sem saber no que implicava as dores, dúvidas, angústia, falta de sinceridade... Ao ouvir as palavras nasaladas deixou de acreditar nas pessoas, deixou de acreditar no amor, na vida, nele...

Debaixo do chuveiro, lentamente, a água quente despregou dos seus pelos a mistura de esperma incrustada na pele.

Ao sair do banho, o vento não agitava as folhas da pequena árvore, e as palavras não o infernizavam mais. A leveza da manhã invadia a alma trazendo ao peito a alegria de se estar vivo.

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