sexta-feira, 23 de abril de 2021

Contos surrealistas 74

                                 Obrigada, querido.

 

Ela olhou para o espelho. Refletido no desbotado vidro na parede, acima da pia do banheiro, estava o seu destino. Mas será que era o seu destino mesmo? Não acreditava. Aquela pele enrugada com mancha escura por baixo dos olhos não estava ali ontem! O que aconteceu? Não há resposta para os mistérios quando não são respondidas no momento certo. Deixou passar e agora apenas o vazio de algo que não sabe o que é que lhe responde: “Não sei.”

E como dói ouvir sua própria mente dizer: “Não sei”! Talvez dentro desse “não sei” esteja o tempo perdido, esteja o ponto, o momento certo em que devia mudar o curso do seu destino, embrenhando-se por outro caminho, outra rua, outro braço, outro corpo e não esse caminho, essa rua, esse braço, esse corpo que por todos esses anos vem acompanhando-a.

- Querida! Está pronta? Vamos chegar atrasados.

Está pronta! Chegar atrasados... Nunca esteve pronta e sempre estava atrasada, disse o seu eu em seu ouvido. Quem sabe ainda exista uma chance? Abrir a porta e gritar:

- Querido, vá à merda...

No entanto mecanicamente, abriu a porta e respondeu:

- Um minuto, estou terminando de me maquiar, querido.

É o que vem fazendo todos esses anos: maquiando o tempo, tapando o destino com ruge, batom, lápis de sobrancelhas e jóias sem valor. O marido a esperava quando desceu a escada.

- Nossa! Como você está bonita, querida.

- Obrigada.

E ao entrar no carro, sentada ao lado do marido, sentiu-se satisfeita, descobriu gostar de estar ali, naquele momento, naquele exato instante e, ao mirar-se no pequeno espelho de mão, percebeu que amava responder “obrigada” todos esses anos e que responderia sempre “obrigada” pouco se importando com o seu destino.

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