Obrigada, querido.
Ela olhou para o espelho. Refletido no desbotado vidro
na parede, acima da pia do banheiro, estava o seu destino. Mas será que era o
seu destino mesmo? Não acreditava. Aquela pele enrugada com mancha escura por
baixo dos olhos não estava ali ontem! O que aconteceu? Não há resposta para os
mistérios quando não são respondidas no momento certo. Deixou passar e agora
apenas o vazio de algo que não sabe o que é que lhe responde: “Não sei.”
E como dói ouvir sua própria mente dizer: “Não sei”!
Talvez dentro desse “não sei” esteja o tempo perdido, esteja o ponto, o momento
certo em que devia mudar o curso do seu destino, embrenhando-se por outro
caminho, outra rua, outro braço, outro corpo e não esse caminho, essa rua, esse
braço, esse corpo que por todos esses anos vem acompanhando-a.
- Querida! Está pronta? Vamos chegar atrasados.
Está pronta! Chegar atrasados... Nunca esteve pronta e
sempre estava atrasada, disse o seu eu em seu ouvido. Quem sabe ainda exista
uma chance? Abrir a porta e gritar:
- Querido, vá à merda...
No entanto mecanicamente, abriu a porta e respondeu:
- Um minuto, estou terminando de me maquiar, querido.
É o que vem fazendo todos esses anos: maquiando o
tempo, tapando o destino com ruge, batom, lápis de sobrancelhas e jóias sem
valor. O marido a esperava quando desceu a escada.
- Nossa! Como você está bonita, querida.
- Obrigada.
E ao entrar no carro, sentada ao lado do marido,
sentiu-se satisfeita, descobriu gostar de estar ali, naquele momento, naquele
exato instante e, ao mirar-se no pequeno espelho de mão, percebeu que amava
responder “obrigada” todos esses anos e que responderia sempre “obrigada” pouco
se importando com o seu destino.
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