sábado, 17 de abril de 2021

Contos surrealistas 77

                                     Inesperado vôo.

 

A cápsula, em cima da pia ao lado do copo com água me provoca náusea. Antecipadamente sinto a aspereza da droga, como lixa ferindo a parede da garganta, seguido de um regurgitamento obrigando-me a engolir a dor antes de senti-la. Forço a mente a se preocupar com outras coisas, com a limpeza do apartamento, com obrigações a serem cumpridas, recolho a correspondência deixada no aparador perto da porta verifico uma por uma com um cuidado demasiado. Há de tudo, propaganda, panfletos de vereadores, cartões de natal e ano novo, contas a serem pagas, avisos bancários, até uma nota fiscal feita virtualmente num dos sites de vendas. Guardo as contas e jogo o resto no lixo. Dou comida e água para o gato que se enrosca nas minhas pernas.

A cápsula continua em cima da pia ao lado do copo, então faço algo inesperado, sem pensar. Jogo a cápsula dentro do copo, quem sabe a água amolece essa camada de plástico ou sei lá o que seja. Meio dia e cinqüenta. Preciso fazer o almoço. Antes vou até o banco pagar as contas, passar no supermercado comprar algo, pois comer arroz e feijão sem mistura é pobreza. Como esse bairro é medíocre, tem o aspecto de cidade do interior, apesar de certos estabelecimentos apresentarem uma fachada até que agradável, a maioria demonstram relapso dando impressão de decadência.

A primeira coisa que faço ao abrir a porta do apartamento é ver a cápsula dentro do copo. Continua inteira, apenas um pouco inchada, estufada, como se a água estivesse entrado nela. Deixo as compras em cima da mesa, guardo cada uma no seu lugar, acendo o fogão, descasco a cebola, o alho, tempero e jogo dentro da panela para fazer o refogado de carne. Daqui a cinco ou quinze minutos estará pronto. Não dou atenção ao gato com seu miado irritante. Pego uma cerveja e vou para a sacada. Olhando a cidade do vigésimo quinto andar, parece uma grande maquete onde um menino gigante brinca com ela. Daqui a alguns anos não terei mais essa visão ampla, se o crescimento populacional continuar desenfreado, isto aqui estará cheio de edifícios.

Um cheiro de queimado invade a sacada. Nossa! Corro até a cozinha, apago o fogo. Consigo salvar o refogado de carne. Demorasse mais um pouquinho adeus refogado. Ao colocar a panela em cima da pia, deparo com o copo de água e a cápsula. Que merda! Ainda bem que esse é o último, preciso tomar para o tratamento ter efeito. Viro o copo de uma vez, com água e cápsula goela abaixo. A maldita se enrosca, sinto como se mãozinhas pequenas agarram o músculo da garganta. Bebo mais uns dois copos de água. A lixa desce rasgando a carne e cai no estomago como pedra ao bater na água do lago. Ao mesmo tempo uma queimação sobe pelo esôfago com gosto podre de ferrugem. Corro para o banheiro e me ajoelho em frente ao vaso sanitário.

Instante depois, aliviado, sinto-me estranho, as mãos ficam pesadas, as pernas engrossam, o rosto incha feito bola. Não toco mais o chão com os pés, flutuo me tornei um balão humano ricocheteando pelas paredes. Tenho que me segurar, pois estou indo para a sacada, não consigo evitar. Num último desespero agarro o varal o que se mostra inútil, ele arrebenta e lá vou eu flutuando ao sabor do vento.

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