Inesperado vôo.
A cápsula, em cima da pia ao lado do copo com água me
provoca náusea. Antecipadamente sinto a aspereza da droga, como lixa ferindo a
parede da garganta, seguido de um regurgitamento obrigando-me a engolir a dor
antes de senti-la. Forço a mente a se preocupar com outras coisas, com a
limpeza do apartamento, com obrigações a serem cumpridas, recolho a
correspondência deixada no aparador perto da porta verifico uma por uma com um
cuidado demasiado. Há de tudo, propaganda, panfletos de vereadores, cartões de
natal e ano novo, contas a serem pagas, avisos bancários, até uma nota fiscal
feita virtualmente num dos sites de vendas. Guardo as contas e jogo o resto no
lixo. Dou comida e água para o gato que se enrosca nas minhas pernas.
A cápsula continua em cima da pia ao lado do copo,
então faço algo inesperado, sem pensar. Jogo a cápsula dentro do copo, quem
sabe a água amolece essa camada de plástico ou sei lá o que seja. Meio dia e
cinqüenta. Preciso fazer o almoço. Antes vou até o banco pagar as contas,
passar no supermercado comprar algo, pois comer arroz e feijão sem mistura é pobreza.
Como esse bairro é medíocre, tem o aspecto de cidade do interior, apesar de
certos estabelecimentos apresentarem uma fachada até que agradável, a maioria
demonstram relapso dando impressão de decadência.
A primeira coisa que faço ao abrir a porta do
apartamento é ver a cápsula dentro do copo. Continua inteira, apenas um pouco
inchada, estufada, como se a água estivesse entrado nela. Deixo as compras em
cima da mesa, guardo cada uma no seu lugar, acendo o fogão, descasco a cebola,
o alho, tempero e jogo dentro da panela para fazer o refogado de carne. Daqui a
cinco ou quinze minutos estará pronto. Não dou atenção ao gato com seu miado
irritante. Pego uma cerveja e vou para a sacada. Olhando a cidade do vigésimo
quinto andar, parece uma grande maquete onde um menino gigante brinca com ela.
Daqui a alguns anos não terei mais essa visão ampla, se o crescimento populacional
continuar desenfreado, isto aqui estará cheio de edifícios.
Um cheiro de queimado invade a sacada. Nossa! Corro
até a cozinha, apago o fogo. Consigo salvar o refogado de carne. Demorasse mais
um pouquinho adeus refogado. Ao colocar a panela em cima da pia, deparo com o
copo de água e a cápsula. Que merda! Ainda bem que esse é o último, preciso tomar
para o tratamento ter efeito. Viro o copo de uma vez, com água e cápsula goela
abaixo. A maldita se enrosca, sinto como se mãozinhas pequenas agarram o
músculo da garganta. Bebo mais uns dois copos de água. A lixa desce rasgando a
carne e cai no estomago como pedra ao bater na água do lago. Ao mesmo tempo uma
queimação sobe pelo esôfago com gosto podre de ferrugem. Corro para o banheiro
e me ajoelho em frente ao vaso sanitário.
Instante depois, aliviado, sinto-me estranho, as mãos
ficam pesadas, as pernas engrossam, o rosto incha feito bola. Não toco mais o
chão com os pés, flutuo me tornei um balão humano ricocheteando pelas paredes.
Tenho que me segurar, pois estou indo para a sacada, não consigo evitar. Num
último desespero agarro o varal o que se mostra inútil, ele arrebenta e lá vou
eu flutuando ao sabor do vento.
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