Para minha mãe, Ruli
Ruli pedalava das oito até
as dezoito horas. Parava algumas vezes para as necessidades do corpo e porque precisava
preparar o almoço. Fora isso, costurava sem parar. Quem passava, pois sua janela
dava para a rua, sendo que o batente era baixo, podia ouvir e ver o tec tec do
pedal. Às vezes, uma ou outra pessoa parava e se debruçava com a cabeça para
dentro e conversava com ela. Ruli respondia sem levantar a cabeça da costura,
ou quando algo lhe interessava, dava a atenção para a ouvinte, erguendo a
cabeça, mas sem parar de pedalar. Todos ficavam assombrados com tal agilidade e
competência ao ver que ela costurava e conversava ao mesmo tempo.
Ju
como era tratada pelos amigos e íntimos, não sabia o que fazer com a máquina.
Para a sua tataravô foi de uma serventia muito grande, até se poderia dizer,
que dali saia todo o sustento da casa, já que o tataravô não parava em emprego
nenhum. As roupas de agora não duram tanto como naqueles tempos, hoje se usa
uma ou duas vezes e, logo são substituídas por outras, numa reciclagem
continua. As linhas, zíperes, botões, alfinetes, colchetes e tudo o que é
relacionado à costura, foram abolidas. Com a máquina reciclável as coisas se
tornaram bem mais fácil. É só jogar a roupa no compartimento de reciclagem,
entrar no provedor, apertar os botões e, ao gosto de cada um, escolher o
modelo, esperar uns dez minutos, pronto, a pessoa sai com uma roupa nova.
-
Você brincava de máquina do tempo com ela. – disse a mãe.
-
É, mas a época inocente acabou. O nada está invadindo tudo, ninguém tem mais
tempo para histórias. Acabou a imaginação, as crianças tornarem-se robôs autômatos
apertadores de botões.
-
Tem razão, Ju. – respondeu a mãe apertando um botão que a transportou para o
andar de cima. Cinco minutos depois, dormia embalada pelo balançar da cama
suspensa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário