quarta-feira, 26 de maio de 2021

Contos surrealistas 58

                                 O último drink.

 

- Quem se importa com o que você pensa, disse-me ele ao sairmos da boate.

Eram mais de três horas da madrugada, apesar do verão um vento frio percorria os nervos da cidade. Aos poucos a pele se acostumou com o vento deixando de senti-la arrepiada. Carlos acionou o controle para descobrir o carro, pois toda vez ficava perdido por esquecer onde o deixara. Uma noite, acompanhado de uma bela mulher, ficou quase uma hora procurando, pois tinha esquecido o controle dentro do carro.

- Aonde vamos? – perguntou Carlos ligando o veiculo.

- Não sei, será que acharemos o último bar aberto?

- Conheço um que fica aberto até o último freguês.

- Vamos para lá então.

Assim que o corpo sentiu a almofada do banco, uma sonolência invadiu-o caindo numa esquisita modorra. Não conseguia ficar de olho aberto, deixou-se levar pelos solavancos do carro. Não percebeu como e muito menos o momento, quando deu por si, Carlos tinha encostado o carro numa praça e se debruçara no volante. Dormiu, disse ele. Procurou fazer o mesmo. Cruzou os braços, afrouxou o cinto de segurança, virou a cabeça para o lado esquerdo e... Nisso, do outro lado da praça viu uma luz piscando. Era um letreiro, provavelmente o último bar aberto. Tomara, pensou, preciso aliviar a bexiga. E o Carlos? Acordo ele? Não é melhor deixar dormindo, levo a chave, por precaução.

Ao entrar notou a portinhola de vai e vem igual aos filmes de faroeste. Deu uma olhada em geral. Achou estranho, estava onde? Por que as pessoas estavam vestidas daquele jeito? Viu-se num espelho. Estava vestido como um caubói, com arma, botas e esporas... O que é isso? Pensou em sair, mas uma delicada mão feminina o segurou.

- Aonde vai? Nem bem chegou e já vai? Aqui todos se importam com o que você pensa.

- Eu... Só queria...

- Tomar o último drink.

- Bem... É isso, o último drink.

- Então, vamos tomar o nosso último drink.

Gozado os caras passam o filme todo bebendo e nunca vão ao banheiro. Será que nos saloons não tinham banheiros? Pensamento bobo, disse mentalmente, também não estou mais com vontade de urinar. Engraçado.

- Dickie dois drinks, por favor.

- Margie cuidado, Wayne está na cidade.

- Está? Tudo bem, não tenho mais nada com ele.

- Você tem mais nada comigo, mas eu tenho com você, Margie.

Todos olharam para a porta em direção da voz forte que soou no saloon.

- Wayne, deixe te explicar...

- Não tem que explicar nada, disse Wayne empurrando Margie que caiu sentada numa cadeira.

- Quem é você fedelho?

Disse dirigindo-se a ele.

- Bem, eu... Entrei aqui só para urinar...

- E eu com isso, não sabe que em saloon não tem banheiro?

- Era o que eu me perguntava agora a pouco.

- E quem te autorizou a beber com minha garota.

- Desculpa, não sabia que era sua garota. Ela que me convidou a tomar o último drink.

- Mentiroso, dando em cima da minha garota. Puxe a arma que eu quero te matar.

Dois tiros soaram pelo saloon.

Ao abrir os olhos notou que estava na cama abraçado com Carlos. O sol entrava pela janela aberta trazendo lá de fora o barulho da manhã que nascia. Ao longe soou a sirene da policia.

Estarrecido, olhava para o amigo morto numa poça vermelha. Em pé, segurava um revolver e, na parede escrito com sangue liam-se as palavras: “Aqui todos se importam com o que você pensa.”

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