Onde está ela?
Para
Caroline
Suspirou satisfeita. A comida estava saborosa.
Encostou a cabeça na parede apoiando o queixo na mão direita. Gostaria de ficar
assim a tarde toda. Pediu um café. Lembrou de uma coisa. Precisava convencer o
chefe sobre a remessa das fichas contábeis enviadas para a filial. Tinham
pontos de vista divergentes quanto ao arquivamento delas, apesar de que ficaria
uma cópia nos arquivos da matriz. O rapaz responsável se prontificou em
acompanhar o envio para a filial. O medo era que as fichas se extraviassem ou
fossem mal arquivadas. É preciso verificar isso, disse mentalmente ao pagar a
conta do almoço no caixa.
Chegando a sua sala, jogou as coisas rapidamente sobre
a mesa e se dirigiu ao banheiro. Ao olhar-se no espelho ficou horrorizada.
Estava sem cabeça. Passou a mão e sentiu apenas um buraco onde deveria estar à
cabeça. O que aconteceu? Esqueceu a cabeça onde? Voltou ao restaurante.
- Por favor, perguntou ao garçom, você viu minha
cabeça? Acho que a deixei aqui.
- Vi sim, ela estava grudada na parede.
- Na parede?
- É na parede. Fui lá dentro e quando voltei não a vi
mais.
- Eu vi quando a moça pegou, falou outro garçom que
passava por perto.
- Que moça?
- Uma loira, alta... Olhe ela lá. Ta com a tua cabeça.
Saiu correndo atrás da ladra de cabeça.
- Ei, você. É você com a minha cabeça.
- Sim, pois não, o que foi?
- Ora! O que foi você está com a minha cabeça.
- O que é achado não é roubado.
- Não disse que você roubou e, sim, que está com a
minha cabeça.
- Ela estava ali dando sopa grudada à parede, pensei
quem sabe se futuramente precise de uma, já que se perdem tudo hoje em dia,
posso vir a perder a minha, aí terei uma sobressalente, não é?
- Mas acontece que a minha não serve ao se corpo.
- Ora, não damos um jeito para tudo, não damos? Então
eu daria um jeito dela servir.
- Que monstruosidade!
- Olha moça...
- Sei que a esqueci grudada na parede do restaurante,
mas ela é minha...
- Ei moça, que isso?
- Desculpe. Nossa estava sonhando?
- Acho que sim, respondeu o garçom. Eu hein, cada
uma...
Levantou-se sem jeito, envergonhada por cochilar. Pagou a conta e ao sair viu a loira com a
cabeça atravessando a rua. Correu ao encalço da moça.
- Aonde você vai com essa cabeça, gritou puxando o
braço da loira.
- Que cabeça, maluca. Não está vendo que é meu filho.
- Desculpe, me enganei.
- Cada uma que me aparece!
Ela ficou parada no meio da rua desorientada até que um carro buzinou assustando-a.
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