sexta-feira, 7 de maio de 2021

Contos surrealistas 67

                                         Onde está ela?

 

       Para Caroline

 

Suspirou satisfeita. A comida estava saborosa. Encostou a cabeça na parede apoiando o queixo na mão direita. Gostaria de ficar assim a tarde toda. Pediu um café. Lembrou de uma coisa. Precisava convencer o chefe sobre a remessa das fichas contábeis enviadas para a filial. Tinham pontos de vista divergentes quanto ao arquivamento delas, apesar de que ficaria uma cópia nos arquivos da matriz. O rapaz responsável se prontificou em acompanhar o envio para a filial. O medo era que as fichas se extraviassem ou fossem mal arquivadas. É preciso verificar isso, disse mentalmente ao pagar a conta do almoço no caixa.

Chegando a sua sala, jogou as coisas rapidamente sobre a mesa e se dirigiu ao banheiro. Ao olhar-se no espelho ficou horrorizada. Estava sem cabeça. Passou a mão e sentiu apenas um buraco onde deveria estar à cabeça. O que aconteceu? Esqueceu a cabeça onde? Voltou ao restaurante.

- Por favor, perguntou ao garçom, você viu minha cabeça? Acho que a deixei aqui.

- Vi sim, ela estava grudada na parede.

- Na parede?

- É na parede. Fui lá dentro e quando voltei não a vi mais.

- Eu vi quando a moça pegou, falou outro garçom que passava por perto.

- Que moça?

- Uma loira, alta... Olhe ela lá. Ta com a tua cabeça.

Saiu correndo atrás da ladra de cabeça.

- Ei, você. É você com a minha cabeça.

- Sim, pois não, o que foi?

- Ora! O que foi você está com a minha cabeça.

- O que é achado não é roubado.

- Não disse que você roubou e, sim, que está com a minha cabeça.

- Ela estava ali dando sopa grudada à parede, pensei quem sabe se futuramente precise de uma, já que se perdem tudo hoje em dia, posso vir a perder a minha, aí terei uma sobressalente, não é?

- Mas acontece que a minha não serve ao se corpo.

- Ora, não damos um jeito para tudo, não damos? Então eu daria um jeito dela servir.

- Que monstruosidade!

- Olha moça...

- Sei que a esqueci grudada na parede do restaurante, mas ela é minha...

- Ei moça, que isso?

- Desculpe. Nossa estava sonhando?

- Acho que sim, respondeu o garçom. Eu hein, cada uma...

Levantou-se sem jeito, envergonhada por cochilar.  Pagou a conta e ao sair viu a loira com a cabeça atravessando a rua. Correu ao encalço da moça.

- Aonde você vai com essa cabeça, gritou puxando o braço da loira.

- Que cabeça, maluca. Não está vendo que é meu filho.

- Desculpe, me enganei.

- Cada uma que me aparece!

Ela ficou parada no meio da rua desorientada até que um carro buzinou assustando-a.

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