quarta-feira, 5 de maio de 2021

Contos surrealistas 68

                                 O show deve continuar.

 

Subiu a escada. Não tinha pressa. Para que se apressar se bloqueavam os seus passos. No topo da escada virou à direita. Levou um susto. Não esperava encontrar a Andrade.

- Oi! Você por aqui?

- Oi! Pra você vê. Também não esperava te encontrar por aqui.

- É. Pois é. Quando procuramos nos esconder é que somos encontrados.

Chata, pensou maldosamente. Aqui não é o seu ponto. Se manda pra outra freguesia rilhou entre os dentes. A Andrade sabendo-se indesejada, se afastou para a esquina. Estava na noite quase um mês e, ainda, não conseguira um lugar fixo. Para evitar brigas mudava sempre de local, uma noite em cada ponto da cidade. A que mais invocava com ela era a Cabiria. Por isso ficava sempre longe quando a casualidade colocava as duas na mesma cena.

No entanto, Cabiria não dava a mínima para a Andrade. Achava que ela tinha era ciúmes, isto porque, de todas Cabiria era a mais instruída, sabia ler, e nos bons tempos, frequentara muito cinema, tendo tirado o nome de um filme que, por uma estranha coincidência a personagem era prostituta.

- Puta merda, disse Suzette se aproximando.

- O que foi? Perguntou Cabiria.

- Preciso urgentemente arranjar grana.

- Algum problema?

- O maior de todos.

- Qual?

- Depilar essa porcaria entre as pernas, droga.

- Não está tomando hormônios?

- Estou, mas não adianta, preciso uma vez por mês depilar essa merda. Se tivesse dinheiro fazia a operação, isso sim.

Cabiria sentiu pena. Por sorte sua descendência nipônica era praticamente desprovida de pelos. Nisso o carro cinza prateado surgiu rente a calçada. Parou bem na sua frente. Cabiria se abaixou e, como era costume, apoiou os cotovelos na porta. No mesmo instante em que o rosto ficou na altura do vidro baixado, sem dar tempo de ver quem era, recebeu um tremendo murro que a jogou para traz caindo sentada na calçada. Antes que desmaiasse ouviu gritarem do carro:

- Travesti de merda, da próxima venho com um trinta e oito e te mato, filho da puta.

Quando acordou, estava com a cabeça no colo de Rosália que limpava o nariz sujo de sangue.

- Está bem?

- Estou Rosália, obrigada.

Cabiria levantou o corpo franzino do chão, apoiando-se no cartaz fixado no muro:

O Show Deve Continuar - filme musical - direção de Bob Fosse – estreia sábado.

Sorriu ao ler o cartaz.

- É o show não pode parar.

- O que você disse? Perguntou Rosália.

- Nada, estou pensando alto.

Jogou a blusa no ombro.

- Por hoje chega. Vou para casa, meninas.

- É cedo, Cabiria.

- Depois dessa, Suzette não tenho mais ânimo.

- Até amanhã então, Cabiria.

- Até amanhã.

Em passos lentos, rente ao murro, tomou o caminho para casa.

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