O show deve continuar.
Subiu a escada. Não tinha pressa. Para que se apressar
se bloqueavam os seus passos. No topo da escada virou à direita. Levou um
susto. Não esperava encontrar a Andrade.
- Oi! Você por aqui?
- Oi! Pra você vê. Também não esperava te encontrar por
aqui.
- É. Pois é. Quando procuramos nos esconder é que
somos encontrados.
Chata, pensou maldosamente. Aqui não é o seu ponto. Se
manda pra outra freguesia rilhou entre os dentes. A Andrade sabendo-se
indesejada, se afastou para a esquina. Estava na noite quase um mês e, ainda,
não conseguira um lugar fixo. Para evitar brigas mudava sempre de local, uma
noite em cada ponto da cidade. A que mais invocava com ela era a Cabiria. Por
isso ficava sempre longe quando a casualidade colocava as duas na mesma cena.
No entanto, Cabiria não dava a mínima para a Andrade.
Achava que ela tinha era ciúmes, isto porque, de todas Cabiria era a mais
instruída, sabia ler, e nos bons tempos, frequentara muito cinema, tendo tirado
o nome de um filme que, por uma estranha coincidência a personagem era prostituta.
- Puta merda, disse Suzette se aproximando.
- O que foi? Perguntou Cabiria.
- Preciso urgentemente arranjar grana.
- Algum problema?
- O maior de todos.
- Qual?
- Depilar essa porcaria entre as pernas, droga.
- Não está tomando hormônios?
- Estou, mas não adianta, preciso uma vez por mês
depilar essa merda. Se tivesse dinheiro fazia a operação, isso sim.
Cabiria sentiu pena. Por sorte sua descendência
nipônica era praticamente desprovida de pelos. Nisso o carro cinza prateado
surgiu rente a calçada. Parou bem na sua frente. Cabiria se abaixou e, como era
costume, apoiou os cotovelos na porta. No mesmo instante em que o rosto ficou
na altura do vidro baixado, sem dar tempo de ver quem era, recebeu um tremendo
murro que a jogou para traz caindo sentada na calçada. Antes que desmaiasse
ouviu gritarem do carro:
- Travesti de merda, da próxima venho com um trinta e
oito e te mato, filho da puta.
Quando acordou, estava com a cabeça no colo de Rosália
que limpava o nariz sujo de sangue.
- Está bem?
- Estou Rosália, obrigada.
Cabiria levantou o corpo franzino do chão, apoiando-se
no cartaz fixado no muro:
O Show Deve
Continuar - filme musical - direção de Bob Fosse – estreia sábado.
Sorriu ao ler o cartaz.
- É o show não pode parar.
- O que você disse? Perguntou Rosália.
- Nada, estou pensando alto.
Jogou a blusa no ombro.
- Por hoje chega. Vou para casa, meninas.
- É cedo, Cabiria.
- Depois dessa, Suzette não tenho mais ânimo.
- Até amanhã então, Cabiria.
- Até amanhã.
Em passos lentos, rente ao murro, tomou o caminho para
casa.
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