De Lorean
Ivy mudou a marcha
dando um tranco no cambio, um para frente e depois outro para trás ao mesmo
tempo para o lado. O carro foi impulsionado para frente cantando pneu. Não
tinha o costume de tratar o veiculo dessa maneira, talvez preocupada com os
papéis que precisava levar para o cartório, não prestou atenção no que fazia.
Ivy compreendeu que
chegava num estágio de equilíbrio na vida. Não que a vida fosse ou tivesse lhe
proporcionado momentos ruins. Houve, é claro, os altos e baixos como todo
casal. Lembrava com perfeição todos os detalhes da festa que, devido aos
problemas de saúde, foi preparada as pressas. Depois de quatro anos estava
completamente recuperada. Devido a isso, com filhos adultos, entendeu que não
podia mais agüentar aquela relação, vamos dizer, desequilibrada. Portanto,
enfrentando comentários nada estimuladores, separou-se e, como dizia a quem a
recriminasse: “Agora vou viver a minha vida, chega de viver a vida dos outros.”
Nessa altura, com
quatro netos, passou a se dedicar quase exclusivamente a eles. Aonde ia levava
todos a tiracolo, aniversários, festas, teatros, cinema, parques, zoológicos,
com isso deu outro impulso a vida. Foi então que um fato interessante a
surpreendeu, pois não contava com o inesperado, o que para ela nesse momento da
vida não fazia diferença nenhuma. Os fatos sejam eles interessantes ou não, a
mim não me interessam, dizia
Foi então que, Walter
vendo-a na fila do cinema para comprar ingressos toda atrapalhada, foi em seu
socorro. Comprou dois saquinhos de pipoca e levou para os meninos. A partir daí
criou-se entre eles uma camaradagem muito forte que, para o namoro e depois o
casamento foi um pulo. Ivy percebeu naquele sorriso largo emoldurado por um
bigode grisalho uma possível felicidade e, sendo assim, agarrou com as duas
mãos os saquinhos de pipoca agradecendo gentilmente a ajuda.
Virando a esquerda no
seu De Lorean rumo ao futuro, a sua máquina do tempo como dizia sempre que
entrava no Passat verde, sentia-se leve, confiante e segura, parou no sinal
vermelho. Quando foi pegar a bolsa que estava no banco do passageiro, viu o
vidro ser quebrada e um braço passar pela janela e arrebatar a bolsa. Ivy deu
um grito, abriu a porta e saiu atrás do ladrão gritando: “Meus documentos...
pega... meus papéis de casamento, vou casar amanhã,” Um homem que, depois se
apresentou como policial a paisana, saindo da loja, socorreu-a em perseguição
ao ladrão. Por infelicidade do ladrão, ao virar a esquina, deu de cara com um
policial, prendendo-o
No dia seguinte, saiu a noticia no jornal: “Noiva recupera os papéis de casamento”.
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