domingo, 27 de junho de 2021

Contos surrealistas 42

De Lorean

Ivy mudou a marcha dando um tranco no cambio, um para frente e depois outro para trás ao mesmo tempo para o lado. O carro foi impulsionado para frente cantando pneu. Não tinha o costume de tratar o veiculo dessa maneira, talvez preocupada com os papéis que precisava levar para o cartório, não prestou atenção no que fazia.

Ivy compreendeu que chegava num estágio de equilíbrio na vida. Não que a vida fosse ou tivesse lhe proporcionado momentos ruins. Houve, é claro, os altos e baixos como todo casal. Lembrava com perfeição todos os detalhes da festa que, devido aos problemas de saúde, foi preparada as pressas. Depois de quatro anos estava completamente recuperada. Devido a isso, com filhos adultos, entendeu que não podia mais agüentar aquela relação, vamos dizer, desequilibrada. Portanto, enfrentando comentários nada estimuladores, separou-se e, como dizia a quem a recriminasse: “Agora vou viver a minha vida, chega de viver a vida dos outros.”

Nessa altura, com quatro netos, passou a se dedicar quase exclusivamente a eles. Aonde ia levava todos a tiracolo, aniversários, festas, teatros, cinema, parques, zoológicos, com isso deu outro impulso a vida. Foi então que um fato interessante a surpreendeu, pois não contava com o inesperado, o que para ela nesse momento da vida não fazia diferença nenhuma. Os fatos sejam eles interessantes ou não, a mim não me interessam, dizia

Foi então que, Walter vendo-a na fila do cinema para comprar ingressos toda atrapalhada, foi em seu socorro. Comprou dois saquinhos de pipoca e levou para os meninos. A partir daí criou-se entre eles uma camaradagem muito forte que, para o namoro e depois o casamento foi um pulo. Ivy percebeu naquele sorriso largo emoldurado por um bigode grisalho uma possível felicidade e, sendo assim, agarrou com as duas mãos os saquinhos de pipoca agradecendo gentilmente a ajuda.

Virando a esquerda no seu De Lorean rumo ao futuro, a sua máquina do tempo como dizia sempre que entrava no Passat verde, sentia-se leve, confiante e segura, parou no sinal vermelho. Quando foi pegar a bolsa que estava no banco do passageiro, viu o vidro ser quebrada e um braço passar pela janela e arrebatar a bolsa. Ivy deu um grito, abriu a porta e saiu atrás do ladrão gritando: “Meus documentos... pega... meus papéis de casamento, vou casar amanhã,” Um homem que, depois se apresentou como policial a paisana, saindo da loja, socorreu-a em perseguição ao ladrão. Por infelicidade do ladrão, ao virar a esquina, deu de cara com um policial, prendendo-o

No dia seguinte, saiu a noticia no jornal: “Noiva recupera os papéis de casamento”.

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