quarta-feira, 2 de junho de 2021

Contos surrealistas 54

 

O Segredo da curva.

 

O sol naquela região não parecia ser o mesmo. O povo da cidade dizia que ao virar a curva do caminho o sol deixava de ser sol, tornava-se manso, não queimava, não ardia com tanta intensidade como em outros lugares. Corria o boato que, bem na curva, o Francisquinho tinha sido assassinado violentamente.

Francisquinho era um menino de uns dez anos, bondoso como ele só, não fazia mal nem para uma mosca, diziam as pessoas quando falavam nele. Vivia cantando musicas religiosas, sempre rindo, nunca chorando ou se lamentando da vida. Menino pobre vivia num casebre com o irmão e a mãe viúva.

Um dia encontraram seu corpo mutilado, ensangüentado, assassinado a pauladas. A mãe não agüentou a dor morrendo uns dias depois, e o irmão sozinho, caiu no mundo, não voltando mais para o povoado. O povo condoído com tanta desgraça colocou uma cruz e passaram a venerar a curva do caminho como passou a ser chamado. A partir desse dia notaram que o sol naquele lugar era diferente.

Anos depois surgiu na cidade um padre que, ao saber da história, passou a cuidar do local, construiu uma capela e incitava o povo a fazer romaria à capela do Francisquinho como passou a ser chamado.

Veio o progresso com seu motor destruindo tudo e se não fosse o padre a capela do Francisquinho teria sido posta ao chão. Com a ajuda dos romeiros e campanhas junto aos empresários conseguiram erguer a Igreja do Francisquinho como você pode ver. E como já estou com a idade avançada, você que irá me substituir, achei melhor lhe contar essa história. Não, ninguém até hoje soube quem assassinou Francisquinho, talvez os mais velhos saibam, mas não dizem nada. Não quero perdão, nem do céu, de ser humano nenhum e muito menos de Francisquinho. Fiz tudo isso foi por um impulso forte que me obrigou a agir dessa maneira.

Meu irmão morreu por pura inveja minha, ciúmes por ser o querido da mamãe, por ser bondoso demais, era só Francisquinho pra cá, Francisquinho pra lá, e uma tarde na curva do rio... Foi fácil. Não tive remorso, não na hora, pois pensava que mamãe iria ter olhos só para mim, ledo engano, sua dor foi imensa, morreu logo em seguida. Fiquei sozinho no mundo. Bom ai está minha história, padre Felisberto, o segredo da curva do caminho. Morro sossegado precisava contar para alguém.

Assim que o padre acabou o relato, dando o último suspiro, padre Felisberto fechou seus olhos e passou a cuidar do enterro, pois o padre do Francisquinho, como era conhecido, era muito querido por todos, principalmente os mais velhos.


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