sábado, 3 de julho de 2021

Contos surrealistas 38

Consegui.

Esperava mais de uma hora. Olhou o relógio, faltavam mais ou menos uns quinze minutos. Logo teria de pronunciar o discurso. Olhou para traz, o salão estava cheio. A tensão comprimia o ombro direito que doía. Deu um puxão na gravata azul lilás. Será que o discurso vai agradar? Olhou mais uma vez para trás. O vazio encheu o peito de aflição. Estava sozinho. Pena o pai e a mãe não estarem ali.

Os olhos dele estavam inchados de tanto chorar. Ninguém o compreendia. Tudo bem ele errou, mas será que não podiam dar um pouco de atenção? Pelo menos deixar que se explicasse. Era algo incontrolável, sabia disso, só não sabia como fazer para que o entendessem. A mãe pediu para comprar carne para o jantar. Dera-lhe o dinheiro certo e ele ao invés da carne, trouxe cinco gibis. Apanhou é claro, além de devolver os gibis, o que o deixou magoado. Sofria de compulsão, não podia passar em frente de banca nenhuma.

O suor empapava a camisa por baixo do paletó. Tinha que discursar, quer dizer, ler o discurso que preparou. Como sempre o nervosismo fazia as veias pulsarem mais forte. Para piorar seria o primeiro a receber o prêmio. Que merda! Não podia ser o último? O presidente nesse momento falava da importância do evento, que se sentia honrado em premiar tão ilustres cabeças do universo. Todos os anos se escolhiam, em várias categorias, os melhores, os que mais se destacavam. Ele já não ouvia mais a voz fanhosa e áspera do presidente. Seus ouvidos aguçados esperavam seu nome ser pronunciado. Mais uma vez olhou para traz. Pena o pai e a mãe não estarem ali para ver que ele conseguira.

Dos gibis passou aos livros. Todos diziam que ficaria louco de tanto ler. Vá jogar bola com os teus primos, dizia o tio. Não queria saber de bola nenhuma. Isso é coisa de veado, sentenciava outro tio. O pai nada dizia, só queria saber se ele já tinha pelo no saco e se estava comendo as meninas do bairro. Cada vez mais recluso se enfiava nas histórias clássicas fantasiosas e modernas que aos poucos descobria.

 

Nisso em uníssono as palmas vibraram. Sentiu-se cutucado. Chegou o momento supremo, o esperado. Dirigiu ao pedestal. Colocou as folhas sobre a pequena tribuna e, com voz embargada começou a ler o discurso.

- Senhores e senhoras... Eu consegui... Pai, mãe consegui... Consegui... Eu o primeiro brasileiro a ganhar esse prêmio... Consegui...

- Da reportagem local. O escritor brasileiro PastorElli, ontem ao receber o prêmio máximo de literatura, sofreu um infarto sendo levado as pressas ao hospital. Conforme boletim médico pronunciado hoje de manhã aos jornalistas, o diagnóstico do escritor é favorável, apesar de sobreviver ao infarto, no entanto, devido à paralisação total do corpo, passará o resto de sua vida preso a uma cadeira de rodas.

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