quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Outros dizeres - 04.

Era o sonho, dizia Ela. Ele concordava, não conseguia sair do sonho dela e, por sua vez Ela incomodava o sonho dele. Estava nessa posição ridícula sem conversarem um com o outro por vários dias.  Ela andava nos meandros como se procurasse algo que Ele não tinha. Ou pensava que não tinha. Quem poderia saber o que se passa nos sonhos? Dizia que conhecia sim, todos os intricados caminhos. No entanto, pegava o mesmo trem, e encontrava as mesmas pessoas. Sentia uma aflição tênue permeando os corpos que, transitavam de um lado para o outro de vagão a vagão, ou que imóveis ficavam encostados nas poltronas, nos corredores... Outro dia se viu sentado na locomotiva espreitando o maquinista e seu ajudante. Claro que não era visto, é o que pensava, no entanto sabia que era visto, só que não davam atenção a ele, um mero passageiro.

Ficava lá, no seu canto, isto é, dava a idéia de ser o seu canto, mas onde olhava deparava com a figura esguia como uma enguia a eletrificar o olhar. Não adianta ir para onde quiser ir, onde você for é onde estarei, dizia seu olhar mudo. O que o afligia, não era em si o sonho, era Ela esquivamente sorvendo a pouca resistência conseguida nos sonos sem sonhos.

Diferente dela agia as claras, não ficava na espreita de olhares pelos cantos dos sonhos. Seguia onde Ela fosse sem se importar com nada. Como daquela vez, quando Ela o percebeu olhando fixamente, caiu nuns gestos sem jeitos, ruborizada tentando um disfarce que nada resultou. Soube claro que Ele soube, mas não disse nada, isto porque nos sonhos o som não se propaga, parece som mudo de pensamentos difusos.

Tinha uma maneira de resolver isso. Entrou no bar do japonês, comprou seis latinhas de cerveja e tomou uma atrás da outra. Na quinta a embriaguês comandava os gestos que se tornaram audaz. Não se importou. Era tudo ou nada. Começou a seguir os passos dela. Seguiu-a até o mercado municipal, percorreu os corredores, banca por banca, por fim Ela parou na banca de peixes. Ele chegou perto e ao dizer na mudez do sonho:

- Não estou onde você está.

 E saiu nadando no olho do peixe respirando a liberdade de ser ele mesmo.

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