sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.721(2021)

                                    A busca

                       

            ... por muito tempo fui intoxicado pela esperança que pudesse dar certo o que pretendia fazer, essa sensação me corroía, invadia os espaços abstratos como os reais a ponto de sufocar a carne de delírios me jogando dentro da onda de desejos, e, para me livrar dessa angustia, ao levantar naquele domingo, apesar do inverno, o sol lançava seus raios esquentando os poros da vida, resolvi pôr em pratica a ideia que vinha a muito tempo adiando, que por alguma razão ou outra me impedia de realizar, assim sendo sai cedo, resoluto, disse a mim mesmo que nada me impediria, depois de duas conduções, ônibus e metrô, em menos de meia hora descia na estação Itaquera, onde o movimento de pessoas é assustadoramente surreal além de uma calamidade insana, a estação em si até que é atraente, arejada, ao descer as escadas é que o bicho pega, é um mar de corpos, cabeças, vozes te engolfando a ponto de se sentir em outro mundo, é marreteiros, vendedores ambulantes, barracas e mais barracas de todo tipo vendendo das mais extravagantes e bizarras mercadorias num amalgama de ruídos, falas, veículos, e contribuindo com esse pandemônio há o shopping Itaquera e o posto do Poupatempo colado a estação, e, claro o Arena Corintiana bem ao lado, só atravessar a rua, tudo isso contribui para a indecência do lugar, lembro-me que o ônibus ficava dentro do terminal, logicamente depois de tanto tempo não iria encontrar ele no mesmo lugar, nem sabia se ainda existia a linha, perguntei para mais de dez pessoas e nenhuma delas sabia me informar qual ônibus passava pela rua Sara Kubitschek, não sei, não conheço, onde fica, foram  as respostas a minha pergunta, desde cobrador, motorista, funcionário, fiscal, vendedores, não souberam me dizer, estava até pensando em voltar quando por casualidade me deparei com a placa ao lado da porta do ônibus Cohab Barro Branco o nome da rua, subi e sente-me no último banco, enquanto esperava o veículo sair fiquei observando aquele povo com suas excentricidades na pequena vida que tinham, talvez sentiam-se felizes lutando por um lugar ao sol, outras nem tanto, vivendo à margem do sistema pouco se importando e nem procurando melhorar o padrão de vida, e para que, poderão responder, estou bem assim, nisso ao meu lado senta um rapaz e abre um livro de Napoleão Hill, nem tudo está perdido, tem sempre alguém buscando algo melhor, penso ao ver o rapaz preso as letras do livro, nisso o ônibus sai, vira a direita, a esquerda, segue em frente, pega a via expressa, novamente vira a esquerda, depois a direita, e começo a me infligir de ansiedade, olhando para tudo aquilo, com casas quase uma em cima da outra, sem um planejamento, sem estrutura, um amontoado de vida onde coexiste uma beleza poética que poucos nem percebem, há um pulsar estranho, um pulsar elétrico que conduz os passos de um lugar a outro levando e trazendo a história de cada uma daquelas pessoas, nesse ponto o ônibus para no terminal Cidade Tiradentes, isso depois de quase uma hora rodando, não pensava como era longe, sei que saindo desse terminal estarei na Sara Kubitschek, um aperto no coração me fez perguntar se estava agindo certo, afinal depois de tanto tempo não tenho o direito de chegar assim de repente sem saber se é do gosto dele ou não, retrocedendo mentalmente os fatos, me vejo no dia em que decidimos por um ponto final em tudo aquilo, estávamos a longo tempo num relacionamento meio frio, tanto por minha causa como por causa dele, e quando se chega a esse ponto deve-se cada um ir para o seu canto viver a sua vida e não a vida de outrem, e, foi o que fizemos, no entanto uma pequena chama ainda permanecia dentro de mim queimando, me dizendo, vai lá talvez ele ainda te ama, talvez nem tudo está perdido, e com esse pensamento desci do ônibus, atravessei a rua, parei em frente ao portão, quando ameacei bater palmas, alguém abre a porta e fica com a metade do corpo para fora e a outra metade para dentro como se estivesse respondendo para alguém dentro de casa, me escondo como posso numa porta, sai da casa ele e uma moça falando alegremente, ele não me vê, mas quando para e coloca a mão no bolso da calça, fala para a moça, espere, esqueci a carteira vou pegar e volta para entrar é que ele me vê, por instantes nós olhamos e sem dizer nada ele entra, e momentos depois sai sem olhar para mim, como se não me tivesse visto, desce a rua acompanhado da moça, tomo o ônibus que vinha chegando e, ao emparelhar com ele, o ônibus para no farol, ele também à espera do sinal abrir para os pedestres, nos olhamos novamente, jogo um beijo, ele faz o gesto obsceno com o dedo, sorrio, o ônibus se põem em movimento e perco sua figura na distância, encosto a cabeça no vidro da janela, uma paz me invade, não estou mais angustiado, ansioso, a tranquilidade me domina, sinto uma lágrima escorrer pelo rosto, não de tristeza, nem de felicidade, mas de uma sensação que cheguei onde queria, me encontrei comigo mesmo, valeu a busca, valeu a pena ter vindo, o sol brilhando com sua luz anunciando o fim do dia, me dá a leveza que há muito tempo não sentia e, junto, a beleza nos amontoados de casas, de pessoas indo pegar o seu lugar no futuro, e ao chegar na Estação Itaquera do metrô, sinto  pulsando forte a vida...

            É isso... ou, não é?

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