A busca
...
por muito tempo fui intoxicado pela esperança que pudesse dar certo o que
pretendia fazer, essa sensação me corroía, invadia os espaços abstratos como os
reais a ponto de sufocar a carne de delírios me jogando dentro da onda de
desejos, e, para me livrar dessa angustia, ao levantar naquele domingo, apesar
do inverno, o sol lançava seus raios esquentando os poros da vida, resolvi pôr
em pratica a ideia que vinha a muito tempo adiando, que por alguma razão ou
outra me impedia de realizar, assim sendo sai cedo, resoluto, disse a mim mesmo
que nada me impediria, depois de duas conduções, ônibus e metrô, em menos de
meia hora descia na estação Itaquera, onde o movimento de pessoas é
assustadoramente surreal além de uma calamidade insana, a estação em si até que
é atraente, arejada, ao descer as escadas é que o bicho pega, é um mar de
corpos, cabeças, vozes te engolfando a ponto de se sentir em outro mundo, é
marreteiros, vendedores ambulantes, barracas e mais barracas de todo tipo
vendendo das mais extravagantes e bizarras mercadorias num amalgama de ruídos,
falas, veículos, e contribuindo com esse pandemônio há o shopping Itaquera e o
posto do Poupatempo colado a estação, e, claro o Arena Corintiana bem ao lado,
só atravessar a rua, tudo isso contribui para a indecência do lugar, lembro-me
que o ônibus ficava dentro do terminal, logicamente depois de tanto tempo não
iria encontrar ele no mesmo lugar, nem sabia se ainda existia a linha,
perguntei para mais de dez pessoas e nenhuma delas sabia me informar qual
ônibus passava pela rua Sara Kubitschek, não sei, não conheço, onde fica,
foram as respostas a minha pergunta,
desde cobrador, motorista, funcionário, fiscal, vendedores, não souberam me
dizer, estava até pensando em voltar quando por casualidade me deparei com a
placa ao lado da porta do ônibus Cohab Barro Branco o nome da rua, subi e
sente-me no último banco, enquanto esperava o veículo sair fiquei observando
aquele povo com suas excentricidades na pequena vida que tinham, talvez sentiam-se
felizes lutando por um lugar ao sol, outras nem tanto, vivendo à margem do
sistema pouco se importando e nem procurando melhorar o padrão de vida, e para
que, poderão responder, estou bem assim, nisso ao meu lado senta um rapaz e
abre um livro de Napoleão Hill, nem tudo está perdido, tem sempre alguém
buscando algo melhor, penso ao ver o rapaz preso as letras do livro, nisso o
ônibus sai, vira a direita, a esquerda, segue em frente, pega a via expressa,
novamente vira a esquerda, depois a direita, e começo a me infligir de
ansiedade, olhando para tudo aquilo, com casas quase uma em cima da outra, sem
um planejamento, sem estrutura, um amontoado de vida onde coexiste uma beleza
poética que poucos nem percebem, há um pulsar estranho, um pulsar elétrico que
conduz os passos de um lugar a outro levando e trazendo a história de cada uma
daquelas pessoas, nesse ponto o ônibus para no terminal Cidade Tiradentes, isso
depois de quase uma hora rodando, não pensava como era longe, sei que saindo
desse terminal estarei na Sara Kubitschek, um aperto no coração me fez
perguntar se estava agindo certo, afinal depois de tanto tempo não tenho o
direito de chegar assim de repente sem saber se é do gosto dele ou não,
retrocedendo mentalmente os fatos, me vejo no dia em que decidimos por um ponto
final em tudo aquilo, estávamos a longo tempo num relacionamento meio frio,
tanto por minha causa como por causa dele, e quando se chega a esse ponto
deve-se cada um ir para o seu canto viver a sua vida e não a vida de outrem, e,
foi o que fizemos, no entanto uma pequena chama ainda permanecia dentro de mim
queimando, me dizendo, vai lá talvez ele ainda te ama, talvez nem tudo está
perdido, e com esse pensamento desci do ônibus, atravessei a rua, parei em
frente ao portão, quando ameacei bater palmas, alguém abre a porta e fica com a
metade do corpo para fora e a outra metade para dentro como se estivesse
respondendo para alguém dentro de casa, me escondo como posso numa porta, sai
da casa ele e uma moça falando alegremente, ele não me vê, mas quando para e
coloca a mão no bolso da calça, fala para a moça, espere, esqueci a carteira
vou pegar e volta para entrar é que ele me vê, por instantes nós olhamos e sem
dizer nada ele entra, e momentos depois sai sem olhar para mim, como se não me
tivesse visto, desce a rua acompanhado da moça, tomo o ônibus que vinha
chegando e, ao emparelhar com ele, o ônibus para no farol, ele também à espera
do sinal abrir para os pedestres, nos olhamos novamente, jogo um beijo, ele faz
o gesto obsceno com o dedo, sorrio, o ônibus se põem em movimento e perco sua
figura na distância, encosto a cabeça no vidro da janela, uma paz me invade,
não estou mais angustiado, ansioso, a tranquilidade me domina, sinto uma
lágrima escorrer pelo rosto, não de tristeza, nem de felicidade, mas de uma sensação
que cheguei onde queria, me encontrei comigo mesmo, valeu a busca, valeu a pena
ter vindo, o sol brilhando com sua luz anunciando o fim do dia, me dá a leveza
que há muito tempo não sentia e, junto, a beleza nos amontoados de casas, de
pessoas indo pegar o seu lugar no futuro, e ao chegar na Estação Itaquera do
metrô, sinto pulsando forte a vida...
É isso... ou, não é?
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