E saiu nadando no olho do peixe respirando a liberdade de ser ele mesmo. Ele mesmo? É possível? Se a morte me espera a qualquer momento? Hoje ou amanhã ou no futuro qualquer serei alcançado. Então como ser eu mesmo se no sonho dela vivo a azucriná-la? As coisas acontecem na proporção dos fatos.
Sentia-se enclausurado na futilidade dos dias. Culpa
dele? Talvez. Sentado no canto da alma,
buscava a quietude sonora de um saxofone diluindo o silêncio. Envolvido no som
dos acordes acompanhava o equilíbrio do sentimento. A música agia em fios
melódicos homeopáticos. Nada fazia com que se locomovesse, envolvido na clarividência
do pensamento, se entregava a cada segundo.
A luz, pequena surgida na distância dos corpos, foi
por instantes seu ponto de salvação. Agarrou-se a ela e se conduzia a iminente paixão
ilusória. Cego não pisou em pedras verdadeiras, reconheceu, fora descuidado.
Agora deverá reiniciar a partir do zero. Esquecer o que fora e o que fizera e partir
com toda a força dos gestos lançando-se ao desconhecido outra vez. Medo não
tinha apenas uma ligeira decepção com o humano, o ser, o único.
Ela com sua desenvoltura, afinal, o sonho é dela, não
se importava com a classificação que ele lhe dera. Por sua infelicidade não o
notava sentado no banco do trem observando-a com olho de águia, os mínimos
detalhes dos gestos dela.
Ouvia tambores distantes numa batida agressiva.
Selvagens, disse entre os dentes para não despertar nela o medo do não saber o
que era. Selvagens, dissera ele enquanto atravessavam campinas secas e
esturricadas de sol. Como surgiram os tambores pararam trazendo de volta o
trepidar da locomotiva célere. Atravessaram montanhas, rios, pontes, estradas,
cidades, vilarejos.
No dia seguinte ao acordar, estava novamente sozinho na grande cama de casal.
Nenhum comentário:
Postar um comentário