terça-feira, 24 de agosto de 2021

Outros dizeres - 05.

E saiu nadando no olho do peixe respirando a liberdade de ser ele mesmo. Ele mesmo? É possível? Se a morte me espera a qualquer momento? Hoje ou amanhã ou no futuro qualquer serei alcançado. Então como ser eu mesmo se no sonho dela vivo a azucriná-la? As coisas acontecem na proporção dos fatos.

Sentia-se enclausurado na futilidade dos dias. Culpa dele? Talvez.  Sentado no canto da alma, buscava a quietude sonora de um saxofone diluindo o silêncio. Envolvido no som dos acordes acompanhava o equilíbrio do sentimento. A música agia em fios melódicos homeopáticos. Nada fazia com que se locomovesse, envolvido na clarividência do pensamento, se entregava a cada segundo.   

A luz, pequena surgida na distância dos corpos, foi por instantes seu ponto de salvação. Agarrou-se a ela e se conduzia a iminente paixão ilusória. Cego não pisou em pedras verdadeiras, reconheceu, fora descuidado. Agora deverá reiniciar a partir do zero. Esquecer o que fora e o que fizera e partir com toda a força dos gestos lançando-se ao desconhecido outra vez. Medo não tinha apenas uma ligeira decepção com o humano, o ser, o único.

Ela com sua desenvoltura, afinal, o sonho é dela, não se importava com a classificação que ele lhe dera. Por sua infelicidade não o notava sentado no banco do trem observando-a com olho de águia, os mínimos detalhes dos gestos dela.

Ouvia tambores distantes numa batida agressiva. Selvagens, disse entre os dentes para não despertar nela o medo do não saber o que era. Selvagens, dissera ele enquanto atravessavam campinas secas e esturricadas de sol. Como surgiram os tambores pararam trazendo de volta o trepidar da locomotiva célere. Atravessaram montanhas, rios, pontes, estradas, cidades, vilarejos.

No dia seguinte ao acordar, estava novamente sozinho na grande cama de casal.

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